Inteligência Artificial

Agência chinesa que proibiu negócio entre Meta e Manus pode virar fiscal de startups

Decisão que deve fazer Meta desfazer compra bilionária da Manus é exemplo do controle que Pequim quer exercer sobre investimentos em indústrias críticas para a China

Manus: aquisição proibida pela NDRC é exemplo do que agência chinesa pode fazer para proteger economia local (Getty Images)

Manus: aquisição proibida pela NDRC é exemplo do que agência chinesa pode fazer para proteger economia local (Getty Images)

Maria Eduarda Cury
Maria Eduarda Cury

Colaboradora

Publicado em 29 de abril de 2026 às 09h54.

A China está consolidando um novo guardião do seu ecossistema tecnológico. A National Development and Reform Comission (NDRC), criada em 1952 durante a era Mao, é uma agência econômica que entrou em um ritmo acelerado de regulação para atuar como o protetor de Pequim. A mais recente demonstração disso foi a ordem para que a Meta desfaça sua aquisição de US$ 2 bilhões da Manus, startup chinesa de inteligência artificial que havia se mudado para Singapura.

A compra da Manus pelo grupo dono do Facebook estava sendo investigada desde janeiro. Antes da conclusão, o Financial Times já havia noticiado que a Comissão de Segurança Nacional da China declarou em comunicado enviado a outras agências e líderes da região que a compra é uma ação "conspiratória". Para a instituição, a aquisição e transferência do conhecimento da Manus tinham como objetivo reduzir o poder tecnológico da China.

Zhan Kai, sócio do escritório Yuanda, comentou ao Financial Times que o novo momento das negociações globais faz com que o país asiático busque "exercer maior controle sobre as cadeias de suprimentos, minerais essenciais e tecnologias críticas". Desde 2021, quando a NDRC foi reposicionada para atuar como uma revisora de segurança, o órgão antecipa investimentos estrangeiros que possam atrapalhar o funcionamento interno do país. Mas o caso da Manus é o primeiro que demonstra o alcance da atuação da agência.

Por que a NDRC foi contra a aquisição bilionária

Para os reguladores, a Manus pode ter se mudado para Singapura, mas seu time de engenheiros é chinês e a pesquisa central da empresa foi desenvolvida na China. Para Pequim, isso significa que a tecnologia, as pessoas e os dados continuam vinculados ao país. A partir de um comunicado enviado para mídias estatais e obtido pelo WSJ, o país criticou a forma que a Manus optou pela venda a uma empresa estrangeira.

Assim, o órgão de planejamento econômico do país fez a Manus de exemplo para demonstrar como a compra viola as regras locais de investimento estrangeiro e exigiu que as empresas desfaçam o acordo. Ao FT, Winston Ma, ex-diretor administrativo do fundo soberano chinês CIC, opinou que a decisão da NDRC "sugere que Pequim discorda de um determinado caminho de saída para jovens startups chinesas de IA e agora está fechando esse caminho sistematicamente".

Conforme reportagem do The Wall Street Journal, a Meta seguirá com o processo de se desvencilhar da startup de IA. Ainda segundo a reportagem, investidores da companhia de Singapura já começaram a receber os retornos e ex-investidores da Manus confirmaram que colaborarão com a Meta durante o processo de encerramento do acordo. A expectativa é que o processo dure algumas semanas.

NDRC amplia atuação para proteger demais setores da China

O caso entre Meta e Manus pode ser o mais chamativo, mas não é o único analisado pela agência. Nos últimos meses, a NDRC também instruiu as gigantes ByteDance e Alibaba a substituírem os chips comprados da líder Nvidia para apoiar financeiramente marcas domésticas, como Huawei. Ela também ordenou que as maiores empresas de navegação da Europa deixassem de operar portos no Canal do Panamá após um grupo de Hong Kong ter sido expulso dos terminais. A agência ainda coordena recursos entre ministérios para avançar em tecnologias críticas de semicondutores.

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