Marketing

Quem dará alma às máquinas chinesas?

A China já deu escala, corpo, inteligência e personalidade às máquinas. A próxima disputa será pelo vínculo

Eva.i: robô humanoide da Robonova.i (Marc Tawil)

Eva.i: robô humanoide da Robonova.i (Marc Tawil)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 8 de setembro de 2026 às 14h52.

Priorizar nos meus resultados Google

"Ela sofreu algumas desilusões amorosas e decidiu cursar psicologia para se entender e ajudar outras mulheres."

A jovem COO da Robonova.i, empresa criada um ano atrás em Shenzen, não falava de uma colega. Falava de Eva.i, uma robô humanoide.

Eu tinha acabado de tocar seu braço. A pele era macia e morna. Os cabelos pareciam naturais. O rosto reagia à conversa e os olhos procuravam os nossos. Eva foi criada para fazer companhia. E nasceu com passado.

Viajei 30 horas para chegar à China e passei dez dias em imersão entre Pequim, Xangai, Hangzhou e Shenzhen, entrei em empresas, laboratórios e lugares aos quais não chegaria sozinho. Vim compreender o que os chineses preparam antes que parte disso apareça no Brasil.

Não esperava encontrar um robô com baixa autoestima.

Eva nunca se apaixonou, foi abandonada ou entrou num consultório. Aquela biografia foi escrita para orientar sua voz, suas reações e a relação com o futuro dono. Alguém escolheu suas dores e decidiu que tipo de mulher ela pareceria ser.

Passei boa parte da vida estudando como marcas constroem histórias. Em Shenzhen, encontrei uma história construída para morar dentro de uma máquina.

Eva já nasceu com passado

Outro integrante da equipe me contou que o próximo passo seria incluir a “alma”. Eles pensavam em levar a discussão para a internet e deixar mais gente participar.

Fiquei imaginando essa votação. Eva aprenderia a discordar? O que faria com uma confidência? Não estaríamos escolhendo apenas recursos de um produto. Estaríamos escrevendo o caráter de alguém que poderá viver dentro de uma casa.

Shenzhen integra, com Hong Kong e Guangzhou, o maior cluster de inovação do mundo no ranking de 2025 da Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Ali, uma ideia encontra engenheiros, componentes, dinheiro e fábrica depressa.

No Galaxy World, visitei a Robot 6S Store, apresentada como a primeira do gênero. Ela vende, aluga, conserta e customiza robôs.

Enquanto parte do mundo debate quando eles chegarão, Shenzhen já organiza a assistência técnica. Segundo levantamento citado pela Reuters, fabricantes chineses responderam por 95% dos humanoides embarcados no mundo em 2025. Muitos ainda tropeçam e dependem de operadores. Mas já estão fora dos slides.

Em Hangzhou, dias antes, vi os quadrúpedes e humanoides da Unitree subirem escadas, lutarem boxe e executarem kung-fu. De perto, vendo um robô golpear outro, pensei como seria isso em uma guerra.

Eva me provocou outro receio: ela não precisava demonstrar força. Precisava conquistar confiança.

Quem educa a máquina?

Em Shenzhen, também conheci protótipos voltados a crianças e adultos neurodivergentes com dificuldades de comunicação.

Um colar combinava padrões da voz com sinais captados por sensores e apresentava uma leitura provável do estado emocional de quem o usava.

A palavra é “provável”. O aparelho não sabe o que uma criança sente. Faz uma inferência. Pode oferecer uma pista à família ou interpretar mal alguém que já enfrenta dificuldades para ser compreendido.

Para o marketing, há uma mudança aí.

Uma marca sempre esteve no nome, na embalagem, no anúncio e no atendimento. Num robô de companhia, entrará na conversa do quarto, na reação ao choro, no conselho durante uma crise, no que será lembrado depois de uma confidência. Até o silêncio terá sido desenhado.

Câmeras, microfones e sensores poderão conhecer os hábitos de uma casa e captar pessoas que nunca aceitaram termo algum. A confiança nessa marca nascerá no código e na maneira como reagirá quando errar.

A indústria chinesa sabe levar produtos ao mundo. Ainda precisará aprender a entrar em culturas diferentes. Uma resposta cuidadosa em Shenzhen pode soar invasiva em Salvador.

É nessa conversa que o Brasil pode ocupar um lugar. Temos gente capaz de testar como essas máquinas devem se comportar em português, diante de nossos sotaques, famílias e formas de demonstrar afeto. Isso precisa virar pesquisa aplicada e produto.

Gentileza tropical impressa no manual não resolve.

A pele de Eva estava morna porque alguém escolheu aquela temperatura.

Se um dia suas palavras também parecerem calorosas, será porque uma empresa escolheu o que aquela máquina entende por cuidado.

É por essa escolha que a marca terá de responder.

Acompanhe tudo sobre:RobôsRobóticaChinaTendências

Mais de Marketing

Nude vazado? Boato sobre MC Livinho é ação da Itaipava para o Dia do Sexo

Rock in Rio: o desafio de inovar em meio a tantas experiências de marcas

Pedro, do Flamengo, é o novo embaixador da Panini para álbum da Libertadores

Boca Rosa entra no mercado de unhas em collab com Impala e Mundial