Ciência

'Flor do diabo': cientistas descobrem planta com 'olhos' e 'chifres' escondida sob a terra

Batizada de Thismia daemona, a espécie foi encontrada na Tailândia e vive sob a terra, alimentando-se de fungos em vez de luz solar

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 16h55.

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Uma pequena planta que vive praticamente escondida sob a terra despertou o interesse de cientistas em um parque nacional no oeste da Tailândia. Com pétalas majoritariamente escuras, projeções que lembram chifres e marcas alaranjadas semelhantes a olhos, a espécie recém-identificada recebeu o nome de Thismia daemona, apelidada de "flor do diabo".

O achado, divulgado em 17 de agosto na revista PhytoKeys, é resultado do trabalho de botânicos da Universidade Chulalongkorn e da Universidade Príncipe de Songkla durante expedições no Parque Nacional Thong Pha Phum. A planta foi localizada a cerca de mil metros de altitude, em uma mata montanhosa sazonalmente perene — um cenário atípico para espécies do gênero Thismia.

Conhecidas também como lanternas de fada, as plantas desse grupo têm um comportamento bem distante do que se espera do reino vegetal. Sem clorofila, elas não fazem fotossíntese; em vez disso, absorvem nutrientes de fungos que vivem no subsolo, passando quase toda a existência encobertas pela serapilheira do chão florestal.

"A descoberta da Thismia daemona no Parque Nacional de Thong Pha Phum nos pegou completamente de surpresa", declarou Sahut Chantanaorrapint, da Universidade Príncipe de Songkla, em nota oficial. Ele explica que espécies desse gênero normalmente habitam florestas tropicais úmidas de baixada ao longo de todo o ano, ao contrário do que se viu neste novo registro.

Visual sombrio

A nova espécie faz parte da seção Geomitra dentro do gênero Thismia, um grupo até então restrito à Malásia Peninsular, Bornéu e Sumatra. Com essa descoberta, a área de ocorrência conhecida da seção se estende, pela primeira vez, mais ao norte. O Thismia daemona também eleva para 16 o total de espécies do gênero já catalogadas em território tailandês.

O nome dado pelos pesquisadores remete diretamente ao visual da flor. Sua coloração majoritariamente negra vem acompanhada de projeções pontiagudas sobre uma estrutura em formato de cúpula, enquanto manchas de tom laranja-avermelhado ao redor da base evocaram, para a equipe, o brilho de olhos demoníacos.

"Somando isso ao seu comportamento reservado, subterrâneo e enigmático no interior da floresta, todos na equipe concordaram que batizá-la de Thismia daemona traduzia com precisão sua natureza misteriosa e sombria", contou Chantanaorrapint.

Mesmo com essa aparência chamativa, a flor do diabo enfrenta riscos sérios. Até o momento, foi identificada apenas uma população da espécie, com menos de 50 exemplares, ocupando um espaço menor que um campo de futebol. Diante disso, a T. daemona recebeu classificação preliminar de Criticamente Ameaçada, seguindo os parâmetros da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).

Um fator de preocupação adicional é que a área onde a planta vive está dentro de um parque nacional bastante visitado por turistas. Segundo os especialistas, garantir a sobrevivência da espécie exigirá aliar a preservação de seu habitat reduzido ao envolvimento das comunidades da região, incluindo projetos de ecoturismo sustentável.

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