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Vida analógica, potências se aproximando e 'mão de Deus': como era o mundo em 1986

Há 40 anos, EUA e URSS ensaiavam uma aproximação, e o mundo testemunhava o crescimento de tecnologias analógicas

Um ano agitado tanto na política, no esporte e na cultura em geral  (Montagem IA)

Um ano agitado tanto na política, no esporte e na cultura em geral (Montagem IA)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 26 de maio de 2026 às 14h51.

Última atualização em 26 de maio de 2026 às 14h57.

Em 1986, o mundo vivia um momento de transição, tensão e transformação. Era um ano situado no fim da Guerra Fria — o longo embate político e ideológico entre Estados Unidos e União Soviética — que ainda dividia o planeta em dois blocos, capitalista e socialista, mas começava a dar sinais de desgaste e possível aproximação.

Um mundo dividido — mas em mudança

A lógica da Guerra Fria moldava praticamente todas as relações internacionais. O planeta permanecia polarizado, com alianças militares, disputas indiretas e uma permanente sensação de risco nuclear.

Em 1986, no entanto, surgiam sinais de distensão. O encontro entre o presidente norte-americano Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev, em Reykjavik, capital da Islândia, simbolizou uma abertura inédita ao diálogo sobre desarmamento nuclear. Mesmo sem acordo imediato, a reunião ajudou a pavimentar tratados posteriores e é considerada um passo importante rumo ao fim do conflito.

Um ano de tragédias que chocaram o planeta

Se politicamente 1986 indicava mudanças, o cotidiano global foi abalado por eventos dramáticos que marcaram a memória coletiva.

Em janeiro, o ônibus espacial Challenger explodiu poucos segundos após o lançamento, matando seus sete tripulantes diante de milhões de espectadores que acompanhavam a transmissão ao vivo. O desastre interrompeu o programa espacial americano e gerou comoção internacional.

Meses depois, em 26 de abril, ocorreu o acidente nuclear de Chernobyl, na então União Soviética — o maior da história. A explosão de um reator liberou grande quantidade de radiação, com impactos ambientais, políticos e humanos que ultrapassaram fronteiras e se estendem até hoje.

Acidente nuclear em Chernobyl

Vida cotidiana: um mundo analógico

Em 1986, o cotidiano era profundamente diferente do atual. A internet ainda não existia como ferramenta popular, e a comunicação dependia de meios físicos e mais lentos.

Telefonemas em aparelhos fixos, cartas e encontros presenciais eram as principais formas de contato. Informação vinha de jornais impressos, rádio e televisão.

O entretenimento também seguia outra lógica:

  • Televisão aberta reunia famílias em horários definidos;
  • Videocassetes (VHS) começavam a popularizar o consumo de filmes em casa;
  • O rádio e o Walkman consolidavam a música como experiência individual.

Os computadores pessoais davam seus primeiros passos nas residências, ainda caros e limitados, enquanto celulares eram raros e inacessíveis à maioria.

Era um mundo menos conectado instantaneamente, mas com interações mais presenciais e ritmos mais lentos.

Cometa Halley

A chegada do Halley em 1986 foi um dos maiores eventos midiáticos da década. No Brasil, coincidiu com a Copa do Mundo e o Plano Cruzado.  Apesar da visibilidade tímida a olho nu, a passagem de 1986 foi um marco para a ciência.

Uma frota internacional de sondas espaciais foi enviada para interceptá-lo. O maior destaque foi a sonda Giotto, da Agência Espacial Europeia (ESA), que conseguiu se aproximar e capturar as primeiras imagens detalhadas do núcleo do cometa.

O Cometa Halley (oficialmente designado como 1P/Halley) tem um período orbital de aproximadamente 76 anos. Ele é um dos cometas periódicos mais famosos, cuja órbita o leva das proximidades de Vênus até além da órbita de Netuno. A sua órbita foi calculada primeiramente pelo astrônomo Edmond Halley, que previu com sucesso seu retorno.

Cultura e sociedade em transformação

Os anos 1980 foram marcados por forte efervescência cultural. A música pop, o rock e os videoclipes impulsionados pela televisão moldavam comportamentos e identidades.

Na moda, cores vibrantes, estilos ousados e influências midiáticas refletiam uma sociedade em busca de expressão individual. Ao mesmo tempo, transformações políticas — como processos de redemocratização em diversos países — indicavam mudanças sociais importantes.

O futebol como linguagem global: a Copa de 1986

Nesse contexto, a Copa do Mundo do México, disputada entre maio e junho de 1986, serviu como um dos maiores eventos globais de integração cultural.

O torneio reuniu 24 seleções e teve como protagonista absoluto o argentino Diego Maradona, que liderou sua equipe ao título e foi eleito o melhor jogador.

A Copa ficou marcada por momentos históricos — como os dois gols de Maradona contra a Inglaterra nas quartas de final, incluindo a chamada “Mão de Deus” e um dos gols mais célebres da história do futebol, quando o gênio argentino driblou boa parte do time adversário.

O Brasil, novamente comandada por Telê Santana, e que tinha nomes como Sócrates, Casagrande, Falcão, Careca e Edinho, caiu nas quartas de final para a França.

Diego Maradona comemora o título da Argentina na Copa do Mundo de 1986

Diego Maradona comemora o título da Argentina na Copa do Mundo de 1986 (David Yarrow)

Mais do que um evento esportivo, o Mundial refletia as tensões e simbologias do período. O duelo entre Argentina e Inglaterra, por exemplo, carregava o peso recente da Guerra das Malvinas (1982), mostrando como o futebol também dialogava com a geopolítica.

Foi a segunda vez que o México recebia uma Copa. A primeira, em 1970, teve o Brasil como tricampeão.

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