Ciência

Por que a Espanha soltou 1,5 milhão de mosquitos Aedes com bactéria?

Experimento usa a bactéria Wolbachia para impedir a reprodução do mosquito-tigre, espécie capaz de transmitir dengue e chikungunya

Aedes albopictus: espécie capaz de transmitir dengue e chikungunya já está estabelecida em pelo menos 16 países europeus (Gerard Rivest/Getty Images)

Aedes albopictus: espécie capaz de transmitir dengue e chikungunya já está estabelecida em pelo menos 16 países europeus (Gerard Rivest/Getty Images)

Publicado em 22 de outubro de 2026 às 19h49.

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Mais de 1,5 milhão de mosquitos infectados com uma bactéria foram liberados em Barcelona, na Espanha, em uma tentativa de reduzir a população do mosquito-tigre-asiático (Aedes albopictus), capaz de transmitir doenças como dengue e chikungunya.

O experimento é coordenado pela Agência de Saúde Pública de Barcelona (ASPB), em parceria com empresas especializadas. As informações são do jornal Diari de Catalunya.

A operação prevê a liberação de aproximadamente 80 mil mosquitos machos por semana, como parte de uma estratégia para conter a expansão da espécie.

A experiência é considerada pioneira na Europa em escala urbana e busca complementar as medidas tradicionais de controle, como a eliminação de criadouros e o uso de inseticidas.

Como a bactéria Wolbachia impede a reprodução dos mosquitos?

A Wolbachia é uma bactéria encontrada naturalmente em diversas espécies de insetos. No projeto de Barcelona, os mosquitos são criados em laboratório antes de serem liberados no ambiente.

A técnica utiliza um mecanismo chamado incompatibilidade reprodutiva. Quando machos portadores de determinada cepa da bactéria acasalam com fêmeas que não possuem a mesma variante, os ovos não eclodem.

Esse processo é conhecido como técnica do inseto incompatível e tem como objetivo reduzir gradualmente a quantidade de mosquitos na região. A estratégia aproveita a interação entre a bactéria e o sistema reprodutivo dos insetos para interromper o desenvolvimento de novas gerações.

Um dos principais desafios é garantir que apenas machos sejam liberados. Para isso, a empresa Debug utiliza um sistema automatizado de reconhecimento de imagens por inteligência artificial na separação dos insetos. A liberação de fêmeas férteis poderia comprometer o objetivo do experimento.

Por que a Europa quer combater o mosquito-tigre?

O mosquito-tigre-asiático já está estabelecido em pelo menos 16 países europeus, incluindo a Espanha. A espécie consegue se reproduzir em pequenas quantidades de água acumulada em recipientes e objetos descartados, característica que dificulta o controle dos criadouros.

A expansão do mosquito representa um desafio para a saúde pública devido à capacidade de transmitir doenças como dengue e chikungunya. O aquecimento global também pode favorecer a presença desses insetos em novas regiões da Europa.

A estratégia de Barcelona pretende reduzir a população local sem depender exclusivamente de inseticidas. Entretanto, a técnica não substitui a vigilância nem as ações para eliminar locais de reprodução.

O método com Wolbachia já funciona no Brasil?

O Brasil utiliza a bactéria Wolbachia em iniciativas de combate a doenças transmitidas por mosquitos, mas com uma diferença importante em relação ao experimento espanhol.

Enquanto Barcelona busca reduzir a população do mosquito-tigre por meio da incompatibilidade reprodutiva, a estratégia brasileira utiliza mosquitos com Wolbachia para diminuir a capacidade de transmissão de vírus.

Estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontaram reduções de aproximadamente 70% nos casos de dengue, 60% de chikungunya e 40% de Zika em experiências realizadas em cidades como Niterói, no Rio de Janeiro. Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, foram registradas reduções superiores a 60%.

As pesquisas brasileiras começaram em 2012, e as primeiras liberações ocorreram em 2014, nos bairros de Tubiacanga, no Rio de Janeiro, e Jurujuba, em Niterói.

Segundo o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), a estratégia já havia beneficiado aproximadamente 5 milhões de brasileiros até 2025, com previsão de alcançar cerca de 70 milhões de pessoas nos próximos anos.

O país também possui biofábricas destinadas à produção desses mosquitos. A principal unidade, inaugurada em Curitiba em 2025, tem capacidade para produzir 100 milhões de ovos por semana.

Além disso, Campinas, no interior de São Paulo, foi selecionada pelo Ministério da Saúde para receber o método Wolbachia. A previsão é que as liberações de mosquitos comecem em maio de 2027, com os primeiros resultados esperados para 2028.

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