Parceiro institucional:
Anna Muoio, professora visitante em Harvard e Yale: medo do imprevisível trava recursos.
Editora ESG
Publicado em 22 de outubro de 2026 às 21h22.
Última atualização em 22 de outubro de 2026 às 21h37.
"Precisamos falar de incerteza, sobretudo em salas como esta, porque acreditamos que somos capazes de eliminá-la."
Foi com essa afirmação que a estrategista americana Anna Muoio abriu sua palestra no Filantropando, encontro anual promovido em São Paulo pelo Instituto Beja com curadoria do Instituto Toriba, que aconteceu nesta quarta-feira, 21.
A frase foi pensada para a filantropia dos Estados Unidos, mas descreve também o Brasil desta semana, uma das mais incertas da história recente do país.
No domingo, 25, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam o segundo turno da eleição presidencial.
No primeiro turno, ficaram separados por menos de dois pontos percentuais, com 47,03% e 45,16% dos votos válidos, respectivamente.
Desde então, as pesquisas mostram os dois candidatos empatados dentro da margem de erro, sem favorito claro.
Para quem decide onde aplicar recursos sociais, a reação mais comum diante de um cenário assim é esperar.
É justamente essa postura que Muoio pede para rever. Para a criadora do Pando funding, o desafio menos visível da filantropia, e não só dela, está na "nossa incapacidade, como seres humanos, de sustentar a incerteza".
Anna esteve no Brasil a convite da filantropa Cristiane Sultani, fundadora do Instituto Beja.
Desde 2020, a americana, que já foi professora convidada na Yale SOM, na Harvard Kennedy School e na Harvard Graduate School of Education, conduz o New Capitalism Project, rede de líderes, organizações e financiadores dedicada a repensar o capitalismo.
Para explicar por que a filantropia trava diante do imprevisível, a estrategista recorre ao filósofo austríaco Karl Popper, que separava os problemas em dois tipos.
Primeiro, os de relógio, que são ordenados, podem ser desmontados em partes e têm solução, como um braço quebrado que se resolve com gesso. Depois, os de nuvem, irregulares, que mudam o tempo todo e envolvem muitos atores.
É nesse segundo grupo que estão as causas que mais mobilizam a filantropia, como desigualdade, clima e democracia. E é aí que, segundo ela, o setor insiste em aplicar a lógica do relógio.
"O desastre silencioso do nosso momento é que continuamos tentando transformar nuvens em relógios", afirmou.
Em sua leitura, teorias de mudança, modelos lógicos, painéis de indicadores e planos de cinco anos servem menos para organizar o trabalho e mais para aliviar a ansiedade de quem decide - um ritual que ela chama de "dança kabuki da certeza", em referência ao teatro tradicional japonês de gestos estilizados e coreografados.
Nos Estados Unidos, a expressão descreve encenações que seguem um roteiro conhecido por todos. No caso da filantropia, a plateia são conselhos, financiadores e equipes, diante dos quais se encena um controle que ninguém de fato tem.
Quando a incerteza aumenta, diz a americana, quem tem recursos tende a se retrair, segura o que já tem, pede mais clareza e adia decisões.
É o que indicam dados da consultoria Bridgespan, que assessora grandes doadores: em 2017, famílias americanas com patrimônio acima de US$ 500 milhões doaram cerca de 1,2% desses ativos. Seis anos depois, a proporção era praticamente a mesma.
Essa distância entre o que os muito ricos prometem doar e o que de fato doam ganhou até nome por lá, slow philanthropy. Ou, em livre tradução, filantropia lenta.
Lenta não quer dizer parada. Em 2025, as doações deixadas em testamento nos Estados Unidos bateram recorde, com US$ 62 bilhões, o que mostra que boa parte desse dinheiro acaba chegando, porém tarde e por herança.
“O principal mecanismo pelo qual o grande capital filantrópico se move é a morte”, resumiu Muoio.
Como alternativa a essa espera, Anna propõe o Pando funding, modelo de financiamento que desenvolveu no New Capitalism Project.
O nome vem de Pando, um bosque de álamos em Utah, nos Estados Unidos, formado por cerca de 47 mil árvores ligadas por um único sistema de raízes. Nenhum tronco vive mais de um ou dois séculos, mas o bosque existe há milênios porque as raízes são alimentadas todos os dias.
A filantropia tradicional, compara a americana, faz o oposto. Escolhe as árvores mais altas, investe nelas e espera que, somadas, essas apostas mudem o sistema.
Por isso, o Pando funding parte de outra pergunta, sobre que condições permitem a um grupo trabalhar junto, por muito tempo, num sistema que ninguém controla.
Na prática, isso significa reunir financiadores num fundo comum e entregar a quem está no trabalho o poder de definir a estratégia e distribuir o dinheiro.
"Quando a decisão fica mais perto de onde a informação está viva, tendemos a decidir melhor", disse.
Significa também financiar de forma contínua o que costuma ser tratado como custo administrativo, como facilitação, coordenação e construção de confiança, e assumir compromissos de longo prazo. Um exemplo prático, cita Anna, é o processo de queda do tabagismo nos Estados Unidos.
Nos anos 1960, 42% dos adultos americanos fumavam. Hoje, são cerca de 9%. A queda levou seis décadas e não dependeu de uma única organização ou programa.
Veio da soma de impostos, leis, restrições ao fumo em locais públicos, limites à publicidade e de uma mudança cultural que deixou o cigarro fora de moda, tudo isso contra a resistência da indústria do tabaco.
A ideia de entregar o poder de decisão a quem está no trabalho foi posta em prática no próprio New Capitalism Project.
Os líderes da rede definiram a estratégia de um laboratório de mudança dos sistemas econômicos, escolheram quem participaria e distribuíram US$ 500 mil entre dez integrantes, US$ 50 mil para cada um, para transformar suas hipóteses em experimentos.
Do grupo saíram iniciativas de vários milhões de dólares e novas instituições, e organizações já existentes reorientaram suas estratégias.
No Brasil, o investimento social privado cresce, mas segue concentrado. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, foram R$ 5,8 bilhões em 2024, o segundo maior volume da série histórica. Neste cenário, organizações que investem mais de R$ 50 milhões por ano respondem por 78% do total.
Entre pessoas físicas, o volume doado subiu e o número de doadores caiu. A Pesquisa Doação Brasil, do IDIS, estimou R$ 24,3 bilhões em doações individuais em 2024, mas a parcela de brasileiros que fez alguma doação recuou de 84% para 78% em relação a 2022.
Parte das ideias apresentadas no Filantropando já circula entre filantropos brasileiros. Em 2020, ao defender a agenda amazônica, Cândido Bracher, ex-presidente do Itaú Unibanco, afirmou que era preciso "transformar a Amazônia em uma questão de Estado, não de governo".
Neca Setubal, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal, defende uma filantropia articulada e colaborativa, apoiada na pressão da sociedade civil. Inês Lafer, do Instituto Betty e Jacob Lafer, já disse em debate público que é preciso "trazer a filantropia para o debate político".
“O capital filantrópico é um capital de risco”, costuma dizer Cristiane Sultani. A anfitriã do evento também já destinou metade da herança deixada pelo marido, o empresário Pedro Alberto Fischer, ao instituto que fundou e dirige.
A proposta de Muoio não depende do resultado que o Brasil aguarda no domingo. Afinal, os problemas que a filantropia se propõe a enfrentar atravessam mandatos.
As perguntas que o modelo deixa em aberto são sobre quem fica fora da rede que decide e como prestar contas sem usar a métrica como prova. Além do desconforto, que a própria criadora do Pando funding admite, de falar em décadas diante de urgências imediatas.
Ainda assim, ela sugere que financiadores levem às reuniões frases como "eu não sei, isto é o que estou vendo, o que vocês estão vendo?".
E lembra que uma árvore não espera estar morrendo para alimentar suas raízes.