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Startup amazônica transformou 'praga' em tratamento para dependência química

Hylaea, startup acreana, descobriu quatro espécies amazônicas capazes de produzir o princípio ativo da ibogaína, usada no tratamento de Parkinson, traumas cerebrais e vício em opioides

CEO da startup encontrou quatro espécies amazônicas capazes de produzir a matéria-prima da ibogaína (Leandro Fonseca /Exame)

CEO da startup encontrou quatro espécies amazônicas capazes de produzir a matéria-prima da ibogaína (Leandro Fonseca /Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 17h29.

Última atualização em 8 de janeiro de 2026 às 13h52.

Uma planta considerada uma praga por agricultores e donos de gado na Amazônia pode ser a solução para a dependência química, traumas cerebrais e doenças neurodegenerativas, como o mal de Parkinson.

A startup Hylaea é responsável pelo primeiro estudo que encontrou a matéria-prima para a produção da ibogaína no Brasil. Trata-se de um ativo com capacidades psicodélicas que atua diretamente nos neurotransmissores, aliviando as sensações da abstinência e fissura em substâncias como cocaína, crack e heroína.

Hoje, a ibogaína só é extraída na África, especialmente de países como Gabão, África do Sul e Camarões, onde é produzida de forma predatória e com baixos padrões de qualidade.

"Uma dose pode abrir uma janela de 6 a 8 meses sem a vontade de provar o opioide, criando uma oportunidade para que o usuário se afaste do problema", explica o farmacêutico e CEO da startup, Ricardo Marques, em entrevista à EXAME. Ele contou mais do trabalho pelo desenvolvimento do ativo e as oportunidades para pacientes em busca de tratamento.

A origem da pesquisa

Em 2017, enquanto ainda era coordenador da graduação em Farmácia em uma universidade privada no Acre, um colega sugeriu que Marques estudasse mais sobre a ibogaína. "Por conta do doutorado em química de produtos naturais, achei que seria interessante procurar mais das suas potencialidades", explica.

A pesquisa ficou entre idas e vindas até 2021, quando inscreveu o estudo em um edital de incentivo a bioeconomia amazônica do Sebrae, o Inova Amazônia, e foi aprovado. Quinze dias depois, o Sebrae informou sobre a Rio Innovation Week e, dos 50 negócios participantes do Acre, escolheram o projeto de Marques. "Foi meu primeiro contato com inovação e startup", conta.

Ao fim do projeto, no início de 2022, pediu demissão da universidade e decidiu focar no desenvolvimento do projeto. "Foram três meses trabalhando mais de 12 horas por dia, mas conseguimos extrair o primeiro lote da matéria-prima", explica.

Em abril de 2023, a Hylaea foi aprovada em uma competição de startups do Idesam, ficando em primeiro lugar para acessar R$ 530 mil, o primeiro aporte de recursos. "Já tinha vendido meu carro e mudei meu estilo de vida para sobreviver a esse período. Na área de biotecnologia, tudo é caro, regulado e lento", explica Marques.

O segredo amazônico

As pesquisas levaram Ricardo a encontrar quatro espécies amazônicas capazes de fornecer a voacangina. Esse precursor gera a ibogaína quando aplicada a semissíntese, ou seja, uma modificação de moléculas obtidas na natureza, gerando o psicodélico usado nos tratamentos.

Mas quais são essas plantas? Esse é um segredo que Marques não revela nem para a própria família, como explicou à reportagem. O que ele abre é que são plantas nativas da Amazônia, amplamente distribuídas entre os nove Estados compreendidos no bioma. "Entender todo esse organismo levou mais de oito anos. Tive que descobrir quais épocas do ano extrair e como realizar a coleta de forma menos agressiva para a planta. Mesmo com toda a pesquisa, ainda há partes que não entendi", explica.

Curiosamente, essas plantas se desenvolvem com facilidade em pastos. "Para quem tem gado, é quase uma praga. Em minhas andanças, vi campos cheios dessas plantas onde os proprietários simplesmente pararam de cortá-las. Quantas outras plantas renegadas podem ter valor imenso e ninguém sabe?", questiona o pesquisador.

Natural do Acre e neto de seringueiros, Marques nasceu e se criou na zona rural, próximo à Reserva Extrativista Chico Mendes, entre as maiores do país. Como pesquisador, ele vê o risco para a grande diversidade de substâncias a serem descobertas.

"A Amazônia é muito diferente de um lugar para outro. Quando desmata uma área, podemos acabar com espécies que nunca foram pesquisadas. Quando queimam a floresta, estão queimando uma biblioteca cheia de livros e informações nunca lidas", compara.

Como funciona?

De acordo com pesquisadores, a ibogaína dá um "reset" no cérebro. A substância reequilibra os níveis de neurotransmissores como serotonina, dopamina, ocitocina e adrenalina.

Estudos de caso mostram que uma dose tem 80% de eficácia para interromper o uso de heroína, livrando o paciente da abstinência física e da fissura psicológica.

Em muitas nações, a substância tem uso e pesquisas proibidas, sendo considerada um tabu e vista como cocaína. No Brasil, o uso da ibogaína é permitida hoje em contextos específicos, já que não é aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como um medicamento. Uma brecha na legislação, no entanto, permite o acesso a medicamentos promissores para doenças graves e sem outras opções disponíveis. Nesse processo, chamado "uso compassivo", a substância precisa ser importada para o uso sob prescrição médica.

Além do tratamento de dependência química, pesquisas indicam potencial da ibogaína para depressão, ansiedade, esclerose múltipla e Parkinson. "Vi casos de pacientes com esclerose que, depois da ibogaína, se recuperaram. É um produto extremamente poderoso da nossa biodiversidade", afirma o CEO.

Desenvolvimento da ibogaína

As primeiras vendas da Hylaea, realizadas no fim de 2025 e começo de 2026, foram de lotes da voacangina para uma companhia americana que têm a autorização para produzir a ibogaína. "Fechamos 2025 com a primeira exportação. O volume foi pequeno, mas ficamos bem felizes porque passou em todos os testes de qualidade", celebra Marques.

A startup contratou uma indústria no Paraná com maquinário suficiente para acelerar a escala da extração da voacangina. Em fevereiro de 2025, Marques mudou-se para o estado para desenvolver o processo. "Coloquei o que tinha no caminhão e me mudei. Estou na fábrica todos os dias para finalizar o processo. Escalar é muito difícil", explica.

Outra iniciativa que pode desenvolver a produção é um projeto em parceria com a Embrapii, Sebrae e o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), iniciado em setembro de 2025. Na USP, pesquisadores estão pegando a metodologia e fazendo otimização dos parâmetros da síntese em reatores pensando em escala industrial. "Ao final, teremos tecnologia pronta para ser escalada na indústria. Quando estiver redondinha, vamos trazer para vendas", explica.

A expectativa é que a nova tecnologia possa tornar possível também a produção da ibogaína no Brasil, sendo posteriormente comercializada para farmacêuticas internacionais. A expectativa é poder desenvolver o cloridrato de ibogaína, formato concentrado do material, tem valor agregado 10 vezes maior que a voacangina, custando entre US$ 1 mil e US$ 1,5 mil por grama. "É mais difícil e mais regulado porque é psicodélico, com muitas barreiras. Mas grandes indústrias estão começando a olhar", conta.

Vendas e saúde financeira da startup

A capitalização da Hylaea tem vindo de investidores-anjo para manter a empresa regulada enquanto as vendas não decolam. A startup está em fases de negociação para um aporte de R$ 300 mil em recursos através do programa Sinergia Investimentos, focado em preparar negócios para receber acelerações. O programa é uma iniciativa da Jornada Amazônia, criada pela Fundação Certi.

Para 2026, a meta é consolidar a Hylaea como referência global na produção de voacangina, oferecendo uma alternativa à África com escala, qualidade e integridade do material. "A coleta africana é predatória, extraindo raízes. Aqui fazemos de forma sustentável, já que não matamos a planta. Isso dá valor à floresta em pé", destaca.

A margem de lucro ainda é pequena devido aos rendimentos baixos, mas o processo melhora ao longo do tempo. "A meta para esse ano é concluir no azul, sobreviver só com voacangina. Conforme o processo melhora, diminuímos o custo dos insumos e a margem de lucro vai melhorando", explica o CEO.

No próximo ano, a ambição é ter as primeiras vendas de ibogaína. "Quem sabe tenhamos a primeira venda de ibogaína produzida aqui", projeta.

O paradoxo da legislação brasileira

Marques explica que, sem mudanças no registro de estudos clínicos com ibogaína na Anvisa, o paciente brasileiro teria que comprar ibogaína produzida pela Hylaea através de um processo burocrático: "Para fazer tratamento com nosso produto, vou ter que produzir aqui, exportar e importar de volta. Não pode ser vendida dentro do Brasil", conta.

O CEO revela que há conversas com grandes laboratórios para produção fora do Brasil, possivelmente na Índia, onde as condições são mais favoráveis. "Tem muitas clínicas do exterior querendo abrir tratamentos com a ibogaína, mas não conseguem a substância em produto confiável na escala que os tratamentos demandam. Queremos preencher essa lacuna de mercado", afirma.

Atualmente, os tratamentos com ibogaína estão concentrados no México, Canadá, Costa Rica, Portugal e Malta.

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