ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Como evitar que o setor elétrico corra o risco de colapsar em dias de muito sol?

Com mais de 54 GW instalados, 20% da capacidade do país, a geração distribuída começa a pressionar a operação do sistema

Energia solar: excesso de geração em horários de baixo consumo pressiona a operação do sistema elétrico.

Energia solar: excesso de geração em horários de baixo consumo pressiona a operação do sistema elétrico.

Angela Gomes
Angela Gomes

Colunista

Publicado em 8 de setembro de 2026 às 17h21.

Priorizar nos meus resultados Google

No dia 23 de agosto o Brasil viveu um episódio que acende um alerta: o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pediu às distribuidoras que cortassem a geração de usinas menores espalhadas pelo país, para evitar um apagão. Não foi por falta de energia, foi o contrário.

Parece estranho, porém faz sentido. Como ainda não temos sistemas de armazenamento suficientes, a eletricidade não pode ser estocada em grande escala. O quanto se gera precisa ser, a cada segundo, igual ao quanto se consome - assim, quando chega energia demais na rede sem consumo suficiente para absorvê-la, o sistema corre o risco de um desligamento em cadeia, ou seja, um apagão.

Tivemos esse risco em agosto. Era um domingo ensolarado, porém frio, com fábricas e escritórios fechados. Enquanto isso, milhares de painéis solares em telhados de casas e empresas, a chamada geração distribuída (GD), seguiam produzindo no talo. Como as distribuidoras não conseguem cortar esses painéis diretamente, o ONS pediu que elas cortassem, por três horas e meia, a geração das demais pequenas usinas ligadas a suas redes (principalmente hidrelétricas e usinas a biomassa).

Foi a segunda vez neste ano que isso aconteceu (a primeira foi em 7 de junho). O fato é que existem três "camadas" de proteção contra o excesso de energia. A primeira é cortar grandes usinas, o chamado curtailment, que vem ocorrendo com intensidade e desperdiçou cerca de 20% da energia solar e eólica que o país poderia ter produzido em 2025. A segunda é o corte das pequenas usinas, como ocorreu em 23 de agosto. A terceira seria uma atuação sobre a GD. Mas, como ela permanece fora do controle do ONS e das distribuidoras, infelizmente, a única saída seria um apagão.

A GD cresceu de forma impressionante, passando de menos de 1 gigawatt em 2018 para mais de 54 gigawatts hoje, cerca de 20% da capacidade do país. Parte desse crescimento se deve à regra que dispensa quem instala painéis solares do pagamento pelo uso das redes elétricas e diversos encargos. Isso custou aos demais consumidores mais de R$ 10 bilhões até junho deste ano, devendo superar R$ 20 bilhões em 2026. É o maior subsídio do setor elétrico, embutido na conta de luz de todos aqueles que não têm painel solar.

O problema não é a energia solar em si, e sim, a regra que não avisa ao consumidor quando gerar energia é bom ou ruim para o sistema. Não existe hoje um preço que indique: "ao meio-dia, gerar mais energia solar pode prejudicar todo mundo". Sem esse sinal, o crescimento dos painéis segue acelerado, aumentando o risco de apagões e o valor dos subsídios pagos por todos.

A boa notícia é que a Aneel já discute soluções para uma expansão sustentável da GD: tarifas diferentes conforme o horário de geração e consumo, cobrança mais justa pelo uso da rede, limitação física da injeção de energia solar em horários críticos e medidores inteligentes. Também ajudaria muito estimular o consumo para as horas de sol forte e a instalação de sistemas de armazenamento de energia, como as baterias.

Nada disso significa frear a energia solar. Significa organizá-la, para que continue crescendo sem colocar em risco a luz de todo o país.

 

Acompanhe tudo sobre:PSR Energia em foco

Mais de ESG

Seis estratégias para o Brasil manter a queda do desmatamento: 'Não podemos retroceder'

Biometano pode reduzir em até 75% emissões do transporte pesado, aponta estudo

IA pode agregar US$ 600 bilhões por ano à economia do clima até 2028, revela BCG

Brastemp e Consul dão desconto para acelerar logística reversa de eletrodomésticos