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O desmatamento da Amazônia caiu 17% no primeiro trimestre e atingiu o menor nível para o período em oito anos (Per-Anders Pettersson/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 15h30.
Última atualização em 8 de setembro de 2026 às 15h34.
O Brasil chega à reta final de 2026 com um sinal positivo na agenda ambiental: o desmatamento da Amazônia caiu 17% no primeiro trimestre e atingiu o menor nível para o período em oito anos, segundo os dados mais recentes do Imazon.
A prova de fogo, agora, será transformar esse avanço em uma trajetória de queda permanente.
O momento é decisivo: em menos de um mês, os brasileiros voltam às urnas para as eleições presidenciais. Pouco depois, a Turquia sedia a conferência do clima da ONU (COP31) e coloca novamente as políticas climáticas nos holofotes.
O combate ao desmatamento é uma peça-chave para o Brasil cumprir sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que prevê reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 67% até 2035, em relação aos níveis de 2005.
E a presidência brasileira da COP30 também assumiu o compromisso de criar um roteiro ou "roadmap" para zerar a devastação da floresta e reverter a perda até 2030.
É nesse contexto entre os resultados já conquistados e o risco de novos retrocessos que o Instituto Igarapé propõe seis prioridades para orientar o próximo ciclo político.
A avaliação é que o país recuperou, desde 2023, capacidades importantes de fiscalização e enfrentamento dos crimes ambientais. No entanto, a próxima fase dependerá de transformar essa reação em uma estrutura permanente, capaz de sobreviver a mudanças de governos e combater as engrenagens econômicas por trás da destruição da floresta.
“Precisamos de resiliência política para sustentar os avanços. Não podemos retroceder”, diz Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé, em entrevista à EXAME.
O desafio, segundo ela, é fazer com que os avanços não dependam de um único ciclo de governo. Isso exige criar condições para que políticas, instituições e incentivos resistam às mudanças eleitorais e às oscilações de prioridade política.
“Se conseguirmos organizar essa atuação mais sistêmica, conseguiremos avançar. Caso contrário, não mudaremos as estruturas por trás da ilegalidade que avança na floresta", acrescenta.
A especialista também destaca o papel recente do Brasil na agenda climática internacional, após sediar a COP30 e lançar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). "São exemplos que podem ajudar a fortalecer nosso trabalho dentro de casa e ao mesmo tempo ampliar as fontes de financiamento para a conservação", frisa.
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A primeira mudança defendida pelo Igarapé é transformar a redução do desmatamento em política de Estado.
Na prática, isso significa tirar a agenda do campo ambiental e conectá-la à segurança pública, infraestrutura, regularização fundiária, economia e desenvolvimento. Também exige coordenação permanente entre governo federal, estados e municípios.
“O primeiro passo é reconhecer que isso precisa ser uma agenda de Estado. É transversal entre diferentes poderes”, diz Melina.
Beto Mesquita, diretor de Paisagens Sustentáveis da Conservação Internacional no Brasil e colíder da Força-Tarefa sobre Código Florestal da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, vê na queda recente a retomada de uma receita já conhecida.
"O Brasil não precisou inventar uma nova fórmula", complementa à EXAME, ao reforçar que o país voltou a fortalecer instrumentos que haviam mostrado resultado durante o ciclo de forte redução do desmatamento na Amazônia a partir dos anos 2000.
Na lista estão fiscalização, inteligência, presença territorial e coordenação entre diferentes níveis de governo.
“O grosso do desmatamento no bioma amazônico é ilegal, criminoso. Se você começa a ajustar os mecanismos de comando e controle, empoderar os órgãos de fiscalização e usar mais inteligência, somos mais bem-sucedidos”, destaca Mesquita.
A participação de estados e municípios também ganhou peso. O especialista destaca que a retomada da cooperação com os governos locais, a partir de 2023, coincidiu com a volta da trajetória de queda e permitiu aproximar as políticas de fiscalização das áreas onde o desmatamento efetivamente acontece.
Por outro lado, especialistas destacam que a redução dos últimos anos também muda o perfil do problema.
Uma primeira camada pode ser enfrentada com fiscalização, regularização fundiária, embargo de áreas e maior presença do Estado. Depois disso, segundo Mesquita, permanece um núcleo mais difícil de atacar, ligado tanto ao crime organizado quanto a pequenos produtores que não serão alcançados apenas por operações repressivas.
Na Amazônia, atividades como grilagem, garimpo, exploração ilegal de madeira e devastação florestal passaram a se entrelaçar com organizações criminosas.
Para o Igarapé, essa transformação exige uma mudança na lógica de atuação. Em vez de responder apenas onde a ilegalidade aparece no território, o Estado precisa atingir as estruturas financeiras e econômicas que permitem que ela continue funcionando.
A proposta inclui ampliar investigação financeira, rastreabilidade, integração de sistemas e análise de risco, além de aproximar órgãos ambientais, forças de segurança, instituições financeiras e o sistema de Justiça.
A ideia é atacar não apenas a área derrubada, mas também quem financia, organiza e comercializa atividades ilegais e os mecanismos usados para inserir seus produtos e recursos na economia formal.
A parte mais resistente do problema também amplia a responsabilidade das empresas.
“Zerar o desmatamento em 2030 não é uma responsabilidade do governo. O governo sozinho não vai ser capaz de fazer isso”, afirma Mesquita.
Para ele, o Estado continua indispensável, mas não será suficiente para enfrentar sozinho a parcela residual da perda florestal e dependerá do setor privado como aliado.
Um dos exemplos está na agropecuária. O debate costuma se concentrar nos grandes frigoríficos e em sua capacidade de rastrear fornecedores, mas Mesquita chama atenção para uma cadeia muito mais pulverizada.
O desafio passa sobretudo pelos pequenos produtores, que estão na base da cadeia e nem sempre têm acesso à mesma tecnologia, assistência técnica e capacidade de investimento das grandes empresas.
É justamente nessa ponta que políticas de melhoria de pastagens, aumento de produtividade, rastreabilidade e acesso a financiamento precisam chegar.
Isso também significa ampliar a capacidade de acompanhar a origem dos animais ao longo de toda a cadeia, e não apenas o fornecedor direto dos grandes frigoríficos.
“Hoje, já temos tecnologia e informação disponíveis. Mas é preciso tomar uma decisão”, defende Mesquita.
O Igarapé coloca a mesma questão em outro eixo de suas propostas. Para a organização, tornar a queda duradoura depende de aumentar a transparência e a rastreabilidade nas cadeias ligadas ao uso da terra, à mineração e à exploração florestal, dificultando a entrada de produtos de origem ilegal na economia formal.
O outro lado da estratégia não está na repressão, mas na economia.
Para Melina, sustentar a redução no longo prazo exige que a Amazônia deixe de depender apenas da capacidade de punir quem desmata.
“Avançamos com o comando e controle, mas não é suficiente no longo prazo. Isso significa desenvolver novas economias para a Amazônia, aquelas compatíveis com a floresta e soluções baseadas na natureza”, afirma.
O documento do Igarapé cita bioeconomia, restauração florestal, mercados de ativos ambientais e instrumentos de financiamento entre os caminhos para transformar a floresta em pé em uma peça da estratégia de desenvolvimento da região.
A lógica é alterar os incentivos econômicos que hoje ajudam a tornar a abertura de novas áreas mais atraente do que sua conservação.
Mesquita defende algo semelhante ao tratar do financiamento agropecuário.
"Condições melhores de crédito podem funcionar como incentivo para o cumprimento do Código Florestal e a adoção de práticas produtivas de menor impacto", reforça.
Parte desse movimento já começa a aparecer no crédito rural público, com exigências ambientais e condições diferenciadas. Mas há um desafio de ampliar o mecanismo para o capital privado.
A estratégia que funciona na Amazônia, porém, não pode simplesmente ser replicada em outros biomas.
Mesquita chama atenção especialmente para o Cerrado, onde o desmatamento ocorre sob uma ótica distinta e a expansão agropecuária torna a situação ainda mais complexa.
Em 2025, a perda de floresta caiu para 7.235 km², uma redução de 32,3% em relação a 2022 e a segunda queda consecutiva após cinco anos seguidos de alta.
Enquanto o grosso do desmatamento amazônico é ilegal, boa parte da supressão de vegetação no Cerrado ocorre com autorização.
Isso transfere parte importante da resposta para governos estaduais, aplicação do Código Florestal e mecanismos econômicos capazes de incentivar produtores a manter vegetação que, dentro dos limites legais, poderia ser suprimida.
Mesquita ressalta que o Código Florestal não estabelece um direito automático de desmatar até determinado limite. A supressão precisa ser autorizada, e cabe aos estados analisar esses pedidos com critérios e monitoramento.
“A redução do desmatamento no Cerrado pode ter estratégia, movimento e articulação federal, mas depende eminentemente dos governos estaduais e de suas decisões políticas”, diz.
Nesse cenário, crédito, assistência técnica e instrumentos financeiros ganham ainda mais importância. Para o especialista, o desafio é fazer com que conservar a vegetação restante também feche a conta para o produtor.
A agricultura regenerativa também aparece como oportunidade econômica no bioma. Um estudo do BCG estima que práticas sustentáveis em 32,3 milhões de hectares poderiam adicionar até US$ 100 bilhões ao PIB brasileiro, reforçando a tese de que conservação e produtividade podem avançar juntas.
Para o Igarapé, manter a liderança brasileira na agenda internacional pode ajudar a ampliar financiamento, cooperação técnica e jurídica e integração regional, além de reforçar a capacidade doméstica de proteção da floresta.
No fim, as avaliações dos especialistas convergem: a próxima etapa do combate ao desmatamento não depende de uma única política, mas da combinação entre Estado, empresas, crédito, fiscalização e desenvolvimento econômico.
Com as eleições de outubro e a COP31 no horizonte, o desafio deixa de ser apenas continuar reduzindo os índices e passa por construir uma estrutura capaz de sobreviver aos ciclos políticos e econômicos, tornando a floresta em pé parte da estratégia de desenvolvimento do país.