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Tecnologia

Arquiteto do iPhone, John Ternus estreia no comando da Apple com lucro em alta e marca em xeque

Como a estreia do novo CEO no evento desta quarta-feira, 9, testa se a gigante de Cupertino ainda dita o ritmo da tecnologia ou se virou refém de sua própria sombra

John Ternus faz nesta quarta-feira, 9, sua estreia à frente do principal evento anual da Apple, primeiro grande teste desde que substituiu Tim Cook no comando da companhia.
John Ternus faz nesta quarta-feira, 9, sua estreia à frente do principal evento anual da Apple, primeiro grande teste desde que substituiu Tim Cook no comando da companhia.
Luiz Gustavo Pacete

Luiz Gustavo Pacete

Consultor de Projetos Especiais

Publicado em 9 de setembro de 2026 às 10:01.

Última atualização em 9 de setembro de 2026 às 12:36.

  • O que aconteceu? John Ternus faz nesta quarta-feira, 9, sua estreia à frente do principal evento anual da Apple, primeiro grande teste desde que substituiu Tim Cook no comando da companhia.
  • Por que isso importa? Ternus assume uma Apple financeiramente sólida, mas pressionada a recuperar a percepção de inovação após perder terreno na inteligência artificial e a liderança do ranking global de marcas da Kantar para o Google.
  • E agora? O mercado espera que o novo CEO mostre mais do que atualizações incrementais. Novidades em IA e produtos como o aguardado iPhone dobrável serão o primeiro sinal de quanto a era Ternus representa, de fato, uma mudança de rumo.

A transição de comando na Apple chega nesta quarta-feira, 9, ao seu primeiro grande teste. Realizado às vésperas do evento anual mais importante da companhia, o "Surprise and Shine", no Steve Jobs Theater, em Cupertino, marca a estreia de John Ternus à frente da empresa — e ocorre em um momento de forte pressão para que a Apple volte a sustentar uma de suas principais promessas de marca: a inovação.

Ternus assumiu o cargo após Tim Cook, CEO da companhia por 15 anos, tornar-se chairman do conselho de administração. Funcionário da Apple há mais de 25 anos e ex-vice-presidente de engenharia, o executivo chega ao comando com um perfil mais ligado ao desenvolvimento de produtos e hardware.

Para o especialista em branding Galileu Nogueira, o momento escolhido para a sucessão não é trivial. "Quando a Apple decide anunciar um novo CEO às vésperas de seu maior evento e vitrine da marca, na perspectiva de brand, isso tem um objetivo muito claro, que é posicionar uma nova era. A nova era de John Ternus simboliza uma guinada estratégica: a troca da eficiência operacional de Tim Cook pelo perfil focado em hardware e inovação de Ternus, sinalizando ao mercado e aos investidores que a Apple volta a priorizar o produto e as necessidades do consumidor."

Do ponto de vista financeiro, Ternus herda uma companhia em posição sólida. No trimestre mais recente, a receita do iPhone avançou 22%, para US$ 54,25 bilhões, enquanto Serviços alcançou US$ 30,74 bilhões, alta de 12% na comparação anual. A base ativa da Apple chegou a 2,5 bilhões de dispositivos, segundo dados citados pelo BofA.

Para o Citi, a combinação entre essa enorme base instalada, mercados ainda pouco explorados e o potencial de monetização dos pagamentos abre espaço relevante para a expansão de Serviços.

O desafio da inovação

Se os números operacionais dão conforto, a percepção da marca conta outra história. O pano de fundo da troca de comando é o desgaste da imagem da Apple como referência em inovação, sobretudo diante do avanço da inteligência artificial generativa.

No Kantar BrandZ 2026, a Apple aparece na segunda posição, com a marca avaliada em US$ 1,3 trilhão, após perder neste ano a liderança global para o Google. Para Nogueira, o movimento reflete, em parte, a demora da companhia em responder à corrida da IA.

"Do ponto de vista de operação, a Apple apresentou ótimos resultados. Mas todos os principais índices de valor de marca mostram um sinal de alerta. Além da perda de lugar para o Google no ranking da Kantar, no da Interbrand houve uma queda de 4% no valor total de marca, e isso tem relação com os atrasos de lançamentos relacionados a IA."

O problema ganha peso porque, nos últimos anos, inteligência artificial e inovação passaram a caminhar quase como sinônimos no setor de tecnologia. Para uma empresa que construiu parte relevante de seu valor sobre a capacidade de antecipar tendências e redefinir categorias de produtos, ficar atrás nessa corrida cobra um preço.

"Quando a IA generativa explode em termos de consumo e a Apple deixa de entregar novidades ao mercado, principalmente envolvendo a Siri, que foi sinônimo de IA por anos, um clima de desconfiança passou a ser criado a cada lançamento. Os investidores começaram a pressionar a empresa para ter simplesmente algum tipo de lançamento, algum produto, alguma coisa que faça o atributo de inovação voltar a construir para a marca no longo prazo", afirma Nogueira.

É nesse contexto que o primeiro grande evento sob o comando de Ternus ganha uma dimensão que vai além dos novos aparelhos. As expectativas em torno do "Surprise and Shine" se concentraram em entregas capazes de romper a percepção de estagnação: das novas linhas Pro ao aguardado primeiro iPhone dobrável, além de atualizações consideradas fundamentais para reposicionar a estratégia de inteligência artificial da Apple.

Para Nogueira, o evento funciona como um teste de fogo para o novo CEO e pode colocar a marca diante de dois caminhos. Se a apresentação se limitar a inovações incrementais, preços mais altos e poucos avanços na Siri, a troca no comando corre o risco de ser interpretada como uma mudança de nomes sem alteração de rumo.

O anúncio também reflete uma profunda transformação na cultura organizacional da companhia, conforme aponta Karen Fontana, CCSO e sócia da FutureBrand São Paulo. Para a especialista, uma mudança de liderança às vésperas de um evento dessa dimensão eleva o risco simbólico, pois o mercado e os colaboradores buscam sinais claros sobre qual rumo a empresa pretende seguir. "Enquanto Steve Jobs consolidou a marca em torno da disrupção e do design, e Tim Cook garantiu uma performance financeira inquestionável, a chegada de Ternus coloca à prova a capacidade da organização de retomar o protagonismo da inovação sem perder sua solidez de mercado".

No cenário oposto, uma novidade capaz de surpreender o mercado — como o aguardado iPhone dobrável — pode ajudar Ternus a recuperar um atributo que durante décadas diferenciou a Apple de seus concorrentes: a capacidade de transformar novos produtos em acontecimentos. Além de renovar a percepção de inovação, uma entrega desse porte poderia estimular um novo ciclo de troca de aparelhos e reforçar a tese de crescimento da companhia entre os investidores.

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Luiz Gustavo Pacete

Luiz Gustavo Pacete

Consultor de Projetos Especiais

Pacete é jornalista, LinkedIn Top Voices, curador de marketing, tecnologia e inovação do Rio2C e SP2B, além de Consultor de Inovação, Conteúdo e Projetos Especiais da Exame.

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