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Na Copa do Mundo, calor extremo já é adversário e a Fifa sofre pressão climática

Em carta aberta, atletas de todo o mundo pedem novos protocolos de calor e fim dos patrocinadores de petróleo — enquanto El Niño eleva o risco e 1 em cada 4 jogos deve ocorrer em condições de alerta

Mais países, mais jogos, mais viagens: a Copa de 2026 promete ser a mais poluente da história do futebol (Imagem gerada por IA)

Mais países, mais jogos, mais viagens: a Copa de 2026 promete ser a mais poluente da história do futebol (Imagem gerada por IA)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 20 de maio de 2026 às 13h00.

Última atualização em 20 de maio de 2026 às 13h07.

Pela primeira vez na história, o mundo se prepara para acompanhar 48 seleções disputando uma Copa do Mundo em três países ao mesmo tempo: Canadá, Estados Unidos e México. Paradoxalmente, a competição mais ambiciosa do futebol promete ser também a mais poluente e a mais exposta aos efeitos da crise climática. 

Segundo análise do World Weather Attribution (WWA) publicada nesta semana, 1 em cada 4 (24%) dos jogos deve acontecer em condições de calor extremo consideradas preocupantes para atletas e torcedores. É, literalmente, a conta do clima entrando em campo. 

De um lado, jogadores que enfrentarão altas temperaturas em cidades como Miami, Dallas e Houston num verão que pode ser agravado pelo El Niño, fenômeno com 82% de chance de se formar justamente em meio à Copa, entre maio e julho de 2026.

Do outro, uma Fifa que fechou patrocínio com a Aramco, gigante petrolífera saudita cujo aumento de visibilidade durante o megaevento pode gerar 30 milhões de toneladas adicionais de CO2 equivalente.

É nesse contexto que jogadores de clubes e seleções de todo mundo decidiram se manifestar. Em carta aberta endereçada à Fifa nesta quarta-feira, 20, o grupo afirmou que "as temperaturas crescentes impulsionadas pela crise climática já estão afetando a segurança, o desempenho físico e o bem-estar mental dos atletas".

Entre os signatários estão o norueguês Morten Thorsby, provável participante da Copa, a capitã da seleção italiana Elena Linari e o jogador do Ipswich Town Chuba Akpom, além de representantes de mais de 20 países.

Um dos pedidos urgentes é que a Fifa atualize seus protocolos de estresse térmico antes do início do torneio e que abandone seus patrocinadores do setor de combustíveis fósseis.

O que os atletas exigem

A carta segue uma manifestação de especialistas em medicina esportiva e cientistas, que classificaram os atuais limites de segurança térmica da Fifa como "impossíveis de justificar" em condições extremas.

Os cientistas pedem que o limiar de intervenção seja reduzido de 32°C para 26°C de Temperatura de Globo Úmido (WBGT), índice que combina temperatura, umidade e radiação solar — e que partidas sejam adiadas quando esse índice ultrapassar 28°C. Os atletas endossam as recomendações e cobram aplicação na prática.

Os efeitos do estresse térmico sobre o corpo são concretos: tontura, fadiga, cãibras musculares e queda no desempenho físico. Para os atletas, o problema não é novo, mas vem se agravando nos últimos anos.

O número crescente de partidas no calendário do futebol já sobrecarrega os jogadores, dizem, e o calor extremo adiciona "uma camada extra de desafios."

"No calor do momento, você não vai decidir parar. Você espera que os organizadores do jogo te protejam", resumiu Jimmy Keohane, do Galway United, um dos signatários da carta.

Nedum Onuoha, ex-Manchester City e QPR, foi direto e destacou que o calor será um fator determinante nesta Copa do Mundo: "A Fifa precisa levar a sério o que os profissionais de saúde e ciência estão dizendo".

Mapa do risco climático 

Entre todas as cidades-sede da competição, Miami aparece como a mais preocupante frente aos riscos climáticos. E a seleção brasileira pode ser diretamente afetada: o duelo contra a Escócia, pela terceira rodada da fase de grupos, está marcado justamente lá onde está previsto calor intenso. 

Kansas City também figura entre os locais de atenção, mesmo com partidas programadas para o final do dia. No Texas, cidades como Dallas e Houston preocupam: apesar dos estádios climatizados, as áreas externas das arenas podem registrar índices acima de 28°C de WBGT em mais de 30% das partidas.

Nova Jersey, sede da final, também está em alerta e o risco de interrupção por calor extremo aumentou cerca de 50% em relação ao mundial de 1994.

Projeções também indicam que a partida entre Holanda e Tunísia tem cerca de 7% de chance de ultrapassar os 28°C de WBGT, faixa que, segundo as diretrizes, pode justificar até um adiamento.

O pano de fundo climático preocupa especialistas independentemente de qualquer fenômeno natural. Mas o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos acendeu um alerta adicional: além dos 82% de chance de formação do El Niño durante o torneio, há 96% de probabilidade de o fenômeno persistir até o inverno do hemisfério norte.

O El Niño pode contribuir para temperaturas acima da média, noites mais quentes, maior umidade e mais estresse térmico em várias cidades-sede da Copa.

E o risco não se limita a alta nos termômetros: em partes dos EUA e do Canadá, junho e julho já entram no período crítico de incêndios florestais, e a fumaça pode viajar centenas ou até milhares de quilômetros, comprometendo a qualidade do ar mesmo em cidades que não estejam no epicentro do fogo.

Mesmo sem o fenômeno, dizem os cientistas, o torneio já ocorreria num contexto de calor mais intenso do que as edições passadas, em um reflexo direto das mudanças climáticas.

"Abandone seu patrocinador do setor de petróleo", diz a carta 

Para os jogadores, enfrentar o calor extremo e cobrar responsabilidade climática são dois lados da mesma moeda. Isto porque, a Copa do Mundo deste ano é patrocinada por uma das maiores empresas de petróleo do mundo, a saudíta Aramco.

Em um acordo de US$ 400 milhões com a Fifa em 2024, a gigante petrolífera garantiu sua dominância até a Copa do Mundo Feminina de 2027 e garantiu o nível mais alto de patrocínio junto a marcas como Adidas, Coca-Cola, Hyundai e Kia, Lenovo, Qatar Airways e Visa.

David Wheeler, ex-Wycombe Wanderers, chegou a dizer que essa relação "compromete a capacidade do mundial proteger os jogadores".

Elena Linari, com 120 convocações pela seleção italiana, foi direta: "O futebol deve estar ao lado das pessoas, dos jogadores e dos torcedores. Pedimos à Fifa que abandone seu patrocinador do setor de petróleo."

A expansão para 48 seleções e a realização em três países aumentam significativamente a pegada de carbono: mais viagens, mais jogos, mais deslocamentos.

"Seria uma oportunidade perdida se um esporte tão afetado pela crise climática não assumisse sua responsabilidade em enfrentá-la", escrevem os jogadores na carta.

O pedido pelo fim dos patrocinadores de combustíveis fósseis vem acompanhado de um calendário mais enxuto e regionalizado, que aliviaria tanto o planeta como os próprios atletas e torcedores.

O recado é claro: o clima já entrou em campo. A questão agora é se a FIFA vai jogar do mesmo lado.

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