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A chamada "Amazônia Azul" se estende por cerca de 5,7 milhões de km², equivalente a aproximadamente dois terços do território continental do Brasil. (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 19 de maio de 2026 às 17h30.
Última atualização em 20 de maio de 2026 às 06h24.
Quando se fala no combate à crise climática, é comum pensarmos na Amazônia como "pulmão do mundo" para o estoque de carbono.
Mas um novo estudo do Instituto Clima e Sociedade (iCS), divulgado nesta terça-feira, 19, tenta deslocar esse olhar para outra fronteira ainda pouco explorada da economia mundial: o oceano.
Um dos achados é que a economia azul já movimenta cerca de US$ 2,6 trilhões globalmente, um volume que a colocaria entre as maiores do mundo — e com potencial de dobrar até 2050, alcançando US$ 5,5 trilhões em valor de mercado.
“Os oceanos são mais importantes que as florestas para descarbonização”, destaca Maria Netto, diretora executiva do iCS, em entrevista à EXAME, durante o evento Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações. O objetivo é impulsionar a implementação rumo à conferência da Década do Oceano da ONU, que será realizada em 2027, no Rio de Janeiro.
Com uma costa de mais de 7 mil quilômetros, forte dependência de infraestrutura marítima e potencial para expandir eólicas offshore, combustíveis verdes e mercados de carbono azul, o Brasil desponta como um dos países mais bem posicionados para transformar a agenda em estratégia de desenvolvimento.
Na prática, porém, o país ainda navega lentamente para converter seu potencial marítimo em investimentos, infraestrutura e política econômica.
Para especialistas, o “pulo do gato” está em parar de tratar o oceano apenas sob a ótica da conservação ambiental e passar a enxergá-lo como infraestrutura econômica crítica para energia, logística, segurança alimentar e adaptação climática.
“A gente depende economicamente do mar, mas ainda olha para a pauta de forma muito fragmentada”, afirma Maria Netto.
A chamada “Amazônia Azul” — área oceânica sob jurisdição nacional — se estende por cerca de 5,7 milhões de km², equivalente a aproximadamente dois terços do território continental do Brasil. Apenas o litoral concentra cerca de 18% da população e abriga 16 regiões metropolitanas.
Para a diretora executiva, é preciso que o planejamento da agenda olhe para o meio ambiente, mas sem se desvincular das pessoas e da economia.
O estudo destaca que os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global e entre 25% e 30% das emissões antropogênicas de CO₂.
Além de regular o clima global, o oceano sustenta cadeias econômicas inteiras: da pesca ao turismo, passando por transporte marítimo, energia, infraestrutura costeira e segurança alimentar.
“Falamos muito de sistemas alimentares pensando na agricultura e pecuária, mas esquecemos que uma parte importante da segurança alimentar também vem do mar”, afirma Maria Netto.
O conceito de economia azul reúne justamente esse conjunto de atividades ligadas ao oceano e à zona costeira, incluindo: energia offshore, transporte marítimo, pesca e aquicultura, turismo, biotecnologia marinha, carbono azul, infraestrutura portuária, restauração de manguezais e combustíveis sustentáveis para navegação.
Os especialistas acreditam que o principal gargalo brasileiro não é ausência de potencial econômico ou tecnológico, mas dificuldades de coordenação, governança e implementação.
Hoje, políticas ligadas a pesca, conservação, energia, logística e infraestrutura marítima ainda operam de forma pouco integrada, dificultando investimentos de longo prazo e reduzindo previsibilidade regulatória necessária para o setor crescer.
“Existe muito planejamento e mapeamento, mas o desafio agora é implementação. O oceano precisa ser tratado de forma sistêmica, sustenta a diretora do iCS.
Em setembro de 2025, o Brasil passou a integrar o novo Centro de Oceanos Global da ONU, iniciativa da Lloyd’s Register Foundation voltada à segurança no setor marítimo.
O projeto reúne sete países e mira a proteção de cerca de 133 milhões de trabalhadores da economia azul, considerada a atividade mais perigosa do mundo.
O estudo também aponta ausência de sistemas integrados de dados oceânicos, dificuldades de monitoramento e baixa articulação entre políticas públicas, investidores e setor produtivo.
A mudança climática aparece não apenas como desafio ambiental, mas como risco econômico crescente para o que engloba a economia azul.
“Cidades costeiras são muito mais vulneráveis”, diz Maria Netto. “O custo de infraestrutura costeira é bastante alto", complementa.
Segundo o relatório, eventos extremos, aumento do nível do mar e mudanças na temperatura oceânica já afetam cadeias produtivas ligadas ao mar.
Entre os exemplos citados estão projeções de perdas econômicas no turismo de Salvador, que podem chegar a R$ 1,4 trilhão até 2100 caso os impactos climáticos se intensifiquem sem adaptação das cidades costeiras.
Outro destaque é que 21 portos públicos brasileiros já relataram aumento na ocorrência de eventos climáticos severos, como chuvas extremas e inundações.
A elevação da temperatura do mar também começa a alterar cadeias pesqueiras e pressionar atividades econômicas tradicionais.
Hoje, o setor marítimo representa cerca de 2 a 3% das emissões globais e movimenta cerca de 80% do do comércio mundial. Nesse cenário, o estudo aponta oportunidades para o Brasil em novos mercados ligados à transição energética marítima, como:
Segundo Maria Netto, a a pressão global para descarbonizar o transporte marítimo abre espaço para o Brasil ganhar protagonismo nesse setor.
“Podemos ser um grande provedor de combustíveis alternativos para a navegação", lembra.
Para o iCS, o desafio agora é transformar o oceano em eixo estratégico da política econômica e climática brasileira e ultrapassar a pauta ambiental.
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