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Para Simon Stiell, secretário-executivo da ONU para as Mudanças Climáticas, os números são uma evidência inequívoca de que o aquecimento global está comprometendo o planeta (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Repórter de ESG
Publicado em 18 de maio de 2026 às 15h39.
Entre janeiro e abril de 2026, incêndios queimaram 150 milhões de hectares no mundo — metade a mais do que a média dos últimos 13 anos, e o dobro do mesmo período em 2024. Para ter dimensão: é como se o estado do Amazonas inteiro tivesse pegado fogo.
O número é cerca de 50% superior à média do período entre 2012 e 2025, e o dobro do registrado nos quatro primeiros meses de 2024, até então o ano mais quente da história. Os dados integram um relatório divulgado na última semana pela Rede Mundial de Atribuição (WWA, na sigla em inglês), que alerta para um possível ano severo de incêndios em escala global.
A África concentrou a maior parte das queimadas no período. Foram 85 milhões de hectares consumidos até abril no continente — 23% acima do recorde anterior —, com registros históricos em países como Gâmbia, Senegal, Guiné, Mauritânia, Mali, Gana, Togo, Benim, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Camarões, Chade, República Centro-Africana, Sudão e Sudão do Sul. A WWA ressalva que os incêndios são extremamente subnotificados nos países africanos, o que pode tornar o quadro ainda mais grave do que os dados disponíveis indicam.
A Ásia ocupa o segundo lugar, com 44 milhões de hectares queimados — quase 40% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Os maiores focos foram registrados em Laos, Mianmar, Tailândia, no nordeste da China e na Índia, onde as temperaturas superaram 46°C em algumas regiões durante abril.
Nas Américas, os Estados Unidos registraram uma área queimada quase duas vezes maior do que o recorde anterior para o mesmo período, datado de 2022. A combinação de uma intensa onda de calor em março e condições de seca extrema no início do ano foi determinante. Análises da WWA indicam que o calor extremo de março foi aproximadamente sete vezes mais provável em razão das mudanças climáticas. O risco segue elevado: cerca de 50% do território norte-americano enfrenta condições de seca.
No Canadá, a temporada de incêndios teve início antecipado. A Colúmbia Britânica e Alberta registraram os maiores números de focos ativos do país — 35 e 21, respectivamente —, com emissão de alertas de evacuação. "Tive tempo de pegar meu cachorro e algumas coisas para sair", relatou um morador de Alberta à emissora CBC, ao descrever a urgência da fuga diante de um incêndio fora de controle na região centro-oeste da província.
Na América do Sul, Chile e Argentina queimaram quase 10 hectares por minuto no início do ano. No Chile, ao menos 20 pessoas morreram, mais de 52 mil foram obrigadas a se deslocar e pelo menos 1 mil casas foram destruídas somente em janeiro. Na Patagônia argentina, aproximadamente 3 mil pessoas — incluindo turistas — precisaram ser evacuadas.
Na Austrália, o calor extremo e a seca prolongada estenderam a temporada além do habitual: iniciada em 2025, ela se agravou no começo de 2026, após a pior onda de calor no país desde o verão de 2019-2020, segundo o serviço climático Copernicus, da União Europeia.
Para Simon Stiell, secretário-executivo da ONU para as Mudanças Climáticas, os números são uma evidência inequívoca de que o aquecimento global — alimentado pelas emissões de gases de efeito estufa do carvão, do petróleo e do gás natural — está comprometendo grandes extensões das áreas terrestres do planeta.
"Os custos dessa explosão de incêndios florestais, causada pelas mudanças climáticas, estão afetando os orçamentos nacionais e familiares, reduzindo a oferta de alimentos e aumentando os preços, em um momento em que a crise do custo dos combustíveis fósseis já atinge bilhões de pessoas e todas as economias", declarou.
O cenário pode se agravar com a chegada do El Niño. Embora ainda existam incertezas, há possibilidade de que o fenômeno seja especialmente intenso neste ano. Segundo a WWA, mesmo sem a confirmação de um "super El Niño", a probabilidade de eventos de calor extremo é alta, elevando o risco de incêndios no segundo semestre e de condições severas de calor e seca na Austrália, no noroeste dos Estados Unidos, no Canadá e na Amazônia.
Daniel Swain, cientista climático do Instituto de Recursos Hídricos da Califórnia, chama atenção para a inédita combinação entre El Niño e aquecimento global. "Na história moderna da humanidade, nunca experimentamos um evento El Niño forte ou muito forte em meio a condições preexistentes de aquecimento global", afirmou.
Para Friederike Otto, cofundadora da WWA e professora de Ciências Climáticas no Imperial College London, o fenômeno natural não deve desviar o foco do problema estrutural. "O El Niño vai e vem. As mudanças climáticas, ao contrário, pioram enquanto não pararmos de queimar combustíveis fósseis. Sabemos o que fazer. Temos o conhecimento e a tecnologia para nos afastarmos muito do uso de combustíveis fósseis", disse.
No Brasil, os alertas já se materializam nos dados oficiais. Segundo o INPE, o número de focos de incêndio na Amazônia entre 1º de janeiro e 13 de maio de 2026 é 51% superior ao registrado no mesmo período de 2025. No Pantanal, o aumento é de 132%; na Caatinga, 14%; na Mata Atlântica, 1%. Em março, o Ministério do Meio Ambiente reuniu especialistas para debater o risco em todos os biomas, destacando o El Niño como fator de atenção especial entre outubro e novembro — período historicamente mais crítico no Pantanal, no Cerrado e no leste da Amazônia.