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Painel debateu estratégias para o fim do desmatamento durante a II Semana do Clima da Amazônia, em Belém (PA) (Márcio Nagano)
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Publicado em 3 de julho de 2026 às 16h40.
*Texto de Alice Martins Morais. Edição de Natália Mello
Este conteúdo integra a cobertura especial do Amazônia Vox em parceria com a II Semana do Clima da Amazônia. Pode ser livremente reproduzido, desde que os créditos sejam atribuídos ao Amazônia Vox.
Muito se ouviu falar sobre o "Mapa do Caminho" desde a COP30, especialmente nas discussões sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Mas, paralelamente, outro roteiro também está sendo desenhado: o mapa do caminho do fim do desmatamento, afinal, esse é um dos principais causadores das mudanças climáticas que estão levando o planeta a se aquecer mais rápido do que em qualquer outro momento da história.
Assim como a agricultura e outras mudanças no uso da terra, o desmatamento é responsável por cerca de um quarto das emissões globais de gases do efeito estufa.
Por isso, a presidência da COP30 está desde o início do ano escutando diferentes atores para elaborar um documento que deve funcionar como uma plataforma de coordenação, aprendizagem e implementação.
A ideia é contribuir para alinhar políticas públicas, financiamento, mercados e parcerias em torno de um objetivo comum: a proteção das florestas e o avanço simultâneo da ação climática, da conservação da biodiversidade, de economias resilientes e de meios de vida sustentáveis.
Mas, enquanto seguem as conversas a nível global, lideranças indígenas, quilombolas, extrativistas e produtores rurais mostram que as ações já são postas em prática nos territórios da Amazônia.
O tema foi debatido durante evento autogestionado do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) durante a II Semana do Clima da Amazônia, em Belém (PA).
Segundo André Guimarães, diretor Executivo do IPAM e Enviado Especial para a Sociedade Civil na Presidência da COP30, o Brasil já assumiu esse compromisso do fim do desmatamento, mas será necessário transformar a promessa em política pública permanente.
Na sua visão, o primeiro passo para isso é entender que, se no passado precisava desmatar para a atividade agropecuária, esse cenário mudou: estudos mostram que é possível triplicar a produtividade média da criação de gado sem desmatar, adotando técnicas já existentes na região, como rotação de pastagens e integração lavoura-pecuária-floresta.
“Precisamos de políticas públicas permanentes, então temos que cobrar dos candidatos às eleições a posição sobre o fim do desmatamento, além de criar condições concretas para que a floresta permaneça em pé", afirma.
Para Ângela de Jesus, conselheira do IPAM e produtora rural da comunidade Alto Pindorama, em Salinópolis (PA), os impactos ambientais já fazem parte da realidade das comunidades e, por isso, é fundamental fortalecer o trabalho em rede, incluindo a diversidade de povos amazônidas como uma força para a construção de soluções comuns.
“Nós já perdemos nossos rios, já perdemos nossas fontes de água”, conta.
Ela citou desafios ligados à violência provocada pela atuação de facções criminosas e afirmou que os mecanismos existentes ainda não funcionam como deveriam. Desse modo, defende como prioridades o avanço da regularização fundiária, o fortalecimento da agricultura familiar e o incentivo à permanência dos jovens no campo.
“As crianças e os jovens precisam se envolver com as organizações sociais. Apenas em rede podemos construir pautas propositivas. Não basta fazer ações individuais", argumenta.
Joaquim Belo, Enviado Especial da Sociedade Civil Amazônica para a COP30, corrobora com a visão de Angela, complementando que é preciso investir em educação de qualidade dentro dos territórios para que os jovens permaneçam em suas comunidades.
"Já entendemos que é preciso considerar a educação ambiental para manter uma floresta viva. Mas não apenas para quem está na comunidade, essa educação tem que chegar a quem está cometendo crimes contra a natureza", discursou Joaquim, que é líder extrativista do Amapá e presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
Sineia do Vale, coordenadora do Fórum Mundial de Mudanças Climáticas dos Povos Indígenas na UNFCCC e do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC), destacou que os povos indígenas precisam participar da construção das soluções climáticas desde o início e lembrou que a proteção das terras indígenas beneficia toda a sociedade.
“Quando temos um trabalho feito com a ciência dos povos indígenas não é só para nós, é para todo o planeta", ressaltou ela, que é Enviada Especial dos Povos Indígenas para a COP30.
Sineia contou que diversas iniciativas já estão sendo conduzidas pelos próprios povos indígenas, incluindo a produção de seus próprios planos de adaptação climática e recomendações para o mapa do caminho sobre combustíveis fósseis.
Por isso, ela defende que é preciso preparar as organizações indígenas com capacidade administrativa e financeira para acessar novos mecanismos internacionais de financiamento, como o Tropical Forest Forever Facility (TFFF).
Para Aurélio Borges, diretor da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu), o combate ao desmatamento exige garantia dos direitos à terra.
Ele reconheceu avanços no Pará, especialmente na política de regularização fundiária quilombola e na ampliação da participação social nos espaços de decisão, mas ainda há áreas com conflitos fundiários que precisam ser resolvidos: “Por mais que se tenha um território titulado, se não tiver a integridade desse título, é ruim para os territórios”.
Aurélio também reforça a dificuldade do acesso aos recursos financeiros voltados para conservação. Segundo ele, existem fundos disponíveis, mas as comunidades tradicionais continuam encontrando dificuldades para acessar esses mecanismos.
“Furar a bolha do acesso ao crédito é fundamental para manter a floresta viva.”
A mesa também escutou produtores rurais que viajaram de diferentes regiões da Amazônia até o evento e compartilharam seus desafios no dia a dia para acessar financiamento para atividades sustentáveis e superar os obstáculos das mudanças climáticas.
Com base no que foi discutido, André Guimarães reforçou o compromisso de levar as contribuições da sociedade civil para a presidência da COP30, junto a Sineia e Joaquim.
"Vamos transformar isso num relatório que será levado para Brasília e será incorporado no relatório final, que vai ser apresentado na Turquia em novembro, na COP31.
Em última instância, André explica que o objetivo é que o documento se transforme em políticas públicas no Brasil, atuando de um lado no comando e controle, fiscalização e punição; e, de outro lado, fomente incentivos para práticas de conservação da floresta.
Leia a matéria no site da Amazônia Vox.