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'Não podemos controlar o clima, mas podemos controlar nossa preparação', diz Leite

Em entrevista exclusiva à EXAME, governador do Rio Grande do Sul diz que estado ampliou a estrutura da Defesa Civil para enfrentar um Super El Niño após a tragédia de 2024, que causou R$ 88,9 bilhões em prejuízos

Eduardo Leite - governador do Rio Grande do Sul - RS

Foto: Leandro Fonseca
Data: 20/08/2025 (Leandro Fonseca/Exame)

Eduardo Leite - governador do Rio Grande do Sul - RS Foto: Leandro Fonseca Data: 20/08/2025 (Leandro Fonseca/Exame)

Rafael Martini
Rafael Martini

Editor da Região Sul

Publicado em 3 de julho de 2026 às 17h49.

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As fortes chuvas que voltaram a atingir o Rio Grande do Sul desde a última quarta-feira, 1, colocaram novamente a Defesa Civil estadual em estado de alerta. As regiões Noroeste (Santa Rosa) e Nordeste (Caxias do Sul) registram risco elevado de temporais e acumulados expressivos de chuva, enquanto a Fronteira Oeste, especialmente a região de São Borja, segue sob monitoramento permanente em razão da elevação do nível do Rio Uruguai.

O cenário ganha ainda mais relevância diante da chegada do Super El Niño, apontado pelos principais centros meteorológicos como o fenômeno climático de maior preocupação para a Região Sul nos próximos meses. A expectativa é de aumento da frequência e da intensidade das chuvas durante o inverno, com possibilidade de agravamento na primavera, período historicamente mais crítico para o Rio Grande do Sul.

O novo alerta ocorre pouco mais de dois anos após as enchentes de 2024, a maior tragédia climática da história gaúcha.  Segundo balanço oficial, o desastre deixou 185 mortos, 23 desaparecidos e 806 feridos, atingiu 478 municípios e afetou diretamente 2,39 milhões de pessoas.

No auge da crise, mais de 581 mil gaúchos ficaram desalojados. O impacto econômico foi estimado em R$ 88,9 bilhões, segundo relatório conjunto do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Em entrevista exclusiva à EXAME, o governador do RS, Eduardo Leite, afirma que o estado está hoje mais preparado para enfrentar novos eventos climáticos extremos, embora ressalte que nenhuma região do mundo esteja blindada diante de chuvas excepcionais.

Segundo ele, o governo quadruplicou a estrutura da Defesa Civil, ampliou o efetivo do Corpo de Bombeiros, expandiu a rede de monitoramento, implantou novos radares meteorológicos e lançou o programa Prepara RS, voltado à antecipação de riscos e ao fortalecimento da capacidade de resposta do estado.

Confira a íntegra da entrevista.

A Defesa Civil colocou nesta semana as regiões Noroeste e Nordeste do Rio Grande do Sul em alerta devido às chuvas intensas. Depois da tragédia das enchentes de 2024, quais medidas estruturais e emergenciais o governo do estado implementou para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos?

O Rio Grande do Sul está hoje mais preparado para enfrentar eventos climáticos extremos. Isso não significa que estejamos blindados diante de chuvas excepcionais, porque nenhuma região do mundo está. Mas podemos dizer que fortalecemos muito a capacidade de prevenção e de resposta.

Isso está sendo visto na prática, na atuação da nossa Defesa Civil esta semana. Assim que os alertas indicaram o retorno das chuvas intensas no Noroeste e Nordeste do estado, mobilizamos equipes de reforço para a região, deslocamos especialistas em gestão de desastres e logística, posicionamos previamente itens de ajuda humanitária e seguimos realizando reuniões preparatórias com os municípios sob alerta.

Todas as informações produzidas pelo Centro de Monitoramento foram compartilhadas antecipadamente com as administrações municipais, para que as medidas de prevenção fossem adotadas antes da chegada das chuvas. Esse é justamente o conceito do nosso programa Prepara RS: agir antes que o desastre aconteça.

Desde o evento climático que atingiu o estado em 2023 e 2024, nós quadruplicamos a estrutura da Defesa Civil, ampliamos o efetivo do Corpo de Bombeiros, implantamos radares meteorológicos, expandimos a rede de estações hidrometeorológicas e investimos em sistemas mais precisos de monitoramento e alerta. Também apoiamos os municípios para que todos os 497 municípios gaúchos tenham planos de contingência — antes eram pouco mais de 60.

Ao mesmo tempo, estamos executando obras estruturantes, como recuperação de sistemas de drenagem, desassoreamento de rios, reforço dos sistemas de proteção contra cheias na Região Metropolitana, recuperação de diques e casas de bombas, além de investimentos de cerca de R$ 3 bilhões em rodovias, com centenas de obras de contenção de encostas para aumentar a resiliência da infraestrutura.

Está em execução o Centro Estadual de Gestão Integrada de Riscos e Desastres (CEGIRD), um investimento de R$ 70 milhões que reunirá monitoramento, inteligência e coordenação das operações. Também teremos quatro Centros Regionais de Gestão Integrada e um Centro Estadual de Logística Humanitária, que dará mais agilidade ao armazenamento e à distribuição de ajuda em situações de emergência.

O objetivo é combinar preparação, resposta rápida e investimentos de longo prazo. Eventos extremos continuarão acontecendo, mas hoje o estado tem muito mais capacidade de antecipar riscos, proteger a população e responder de forma coordenada quando eles ocorrem.

Os principais centros meteorológicos apontam a chegada de um Super El Niño nos próximos meses. Como o Rio Grande do Sul está se preparando para enfrentar esse cenário, especialmente durante o inverno e a primavera?

A primeira mensagem importante é que um El Niño intenso não significa, necessariamente, a repetição da tragédia de 2024. O que aconteceu naquele ano foi resultado da combinação de diversos fatores climáticos excepcionais. Mesmo assim, trabalhamos com a possibilidade de cenários mais críticos.

Paralelamente ao Plano Rio Grande, nosso plano guarda-chuva que reúne ações de adaptação, resiliência climática e investimentos, também lançamos o Prepara RS, um programa estadual específico para o enfrentamento do El Niño 2026/2027. O programa mobiliza todos os órgãos do Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil e está organizado em eixos estratégicos, que atuam do monitoramento e da inteligência situacional à logística humanitária, comunicação de risco, fortalecimento dos municípios e preparação operacional.

Hoje contamos com praticamente toda a nova rede de monitoramento implantada: 129 das 130 estações hidrometeorológicas já estão instaladas e em fase de calibração, além da contratação de três novos radares meteorológicos.

Nosso foco é reduzir os impactos, proteger vidas e responder com mais rapidez quando houver necessidade. Não temos como impedir que eventos extremos aconteçam, mas podemos estar muito mais preparados para enfrentá-los.

Na avaliação do senhor, quais são hoje os maiores riscos associados ao El Niño para o estado? Enchentes, deslizamentos, vendavais, granizo ou outro tipo de evento climático preocupa mais?

Cada região do Rio Grande do Sul responde de forma diferente aos eventos extremos. Nas regiões dos Vales, a maior preocupação continua sendo as enxurradas e as cheias rápidas. Na Serra, os deslizamentos de encostas representam um risco importante. Já na Região Metropolitana, as grandes inundações exigem sistemas robustos de proteção e drenagem.

Além disso, temporais com ventos fortes e granizo também provocam danos significativos à população e à infraestrutura.

A nossa estratégia não é preparar o estado para apenas um tipo de desastre, mas fortalecer sua capacidade de resposta para diferentes cenários, com monitoramento permanente, planejamento e investimentos em infraestrutura mais resiliente.

Por isso, deixamos de trabalhar apenas com previsão do tempo e passamos a trabalhar com previsão de impactos. Hoje conseguimos modelar o comportamento dos rios, simular manchas de inundação e identificar previamente quais ruas e comunidades podem ser atingidas, permitindo decisões mais rápidas para evacuação de áreas de risco e proteção da população.

Como está a integração da Defesa Civil entre os governos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná? Existe alguma articulação conjunta entre os três estados para ações preventivas, compartilhamento de informações e resposta a eventuais desastres? E como está o diálogo com o governo federal?

Os eventos climáticos não respeitam divisas estaduais, por isso a integração é fundamental. Mantemos uma articulação permanente com Santa Catarina, Paraná e também com o governo federal, especialmente por meio das Defesas Civis e dos órgãos de monitoramento meteorológico. Há compartilhamento de informações, acompanhamento conjunto das previsões e coordenação quando há necessidade de apoio operacional.

Em situações de maior gravidade, essa integração permite antecipar ações, mobilizar recursos e tornar a resposta mais eficiente. Depois de 2024, essa cooperação se intensificou. A tragédia deixou claro que enfrentar as mudanças climáticas exige uma atuação coordenada entre União, estados e municípios.

Também estruturamos no Rio Grande do Sul uma governança permanente para eventos extremos. O Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil passou a operar de forma integrada, reunindo diferentes secretarias, órgãos técnicos, municípios e parceiros estratégicos para planejamento, preparação e resposta coordenada.

A enchente de 2024 foi uma tragédia sem precedentes na história do Rio Grande do Sul. Do ponto de vista operacional da Defesa Civil, qual foi o maior aprendizado deixado por aquele desastre?

O maior aprendizado foi que precisamos estar preparados para eventos que antes eram considerados improváveis. Não podemos controlar o clima, mas podemos controlar o nosso nível de preparação.

A principal mudança de paradigma é compreender que a preparação não começa quando a chuva chega. Ela começa muito antes, com planejamento, monitoramento, treinamento das equipes, fortalecimento das capacidades municipais e comunicação permanente com a população. Essa cultura de prevenção é justamente o que estamos consolidando no Rio Grande do Sul.

Hoje o Rio Grande do Sul tem mais monitoramento, mais informação, mais planejamento, mais integração entre estado e municípios e mais capacidade de resposta. O Prepara RS representa mais um passo nessa transformação para garantir que estejamos cada vez mais preparados para proteger a população gaúcha.

Também aprendemos que a infraestrutura precisa ser pensada para um novo padrão climático e que, em muitos casos, será necessário reorganizar a ocupação do território, retirando famílias de áreas de alto risco e reconstruindo cidades de forma mais resiliente. O principal objetivo é preservar vidas. Obras estruturantes são essenciais, mas levam tempo. Enquanto elas são executadas, fortalecer a capacidade de prevenção, evacuação e resposta rápida é o que faz a diferença quando um evento extremo acontece.

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