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Brasil lança Plano Clima de Adaptação, mas gargalo na implementação persiste

Especialistas ouvidos pela EXAME veem avanço histórico, mas alertam para lacunas em financiamento, governança e capacitação; Estratégia reúne 16 planos setoriais

Na última década, 324,6 milhões de pessoas foram afetadas por desastres no Brasil, em 84,5% dos municípios. As enchentes históricas foram um retrato cruel das mudanças climáticas (Leandro Fonseca/Exame)

Na última década, 324,6 milhões de pessoas foram afetadas por desastres no Brasil, em 84,5% dos municípios. As enchentes históricas foram um retrato cruel das mudanças climáticas (Leandro Fonseca/Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 15h30.

Última atualização em 23 de fevereiro de 2026 às 15h48.

As chuvas intensas que voltaram a atingir o litoral de São Paulo nesta semana, interditando estradas, suspendendo aulas e inundando cidades, são mais um retrato da nova realidade imposta pelas mudanças climáticas.

Cada vez mais frequentes e severos, os eventos extremos transformaram a adaptação climática em uma questão de sobrevivência. E foi exatamente esse o recado que o Brasil levou da COP30 em Belém, onde a agenda se consolidou como um dos grandes legados da presidência brasileira.

Como lição de casa, o Brasil tenta agora, pela primeira vez, transformar esse compromisso em política pública estruturada. O governo federal acaba de publicar o Plano Clima de Adaptação, dentro do guarda-chuva do Plano Clima, aprovado no final de 2025 após dois anos de negociação e impasses com o setor de agropecuária.

A estratégia nacional é alinhada ao Objetivo Global de Adaptação (GGA) e visa reduzir vulnerabilidades e aumentar a resiliência diante dos efeitos dramáticos da crise climática.

Enquanto o Plano Clima orienta a implementação da meta brasileira (NDC) de cortar entre 59% e 67% das emissões líquidas até 2035, o novo documento traz a Estratégia Nacional de Adaptação e 16 planos setoriais e temáticos, que vão de agricultura e saúde a energia, transportes, biodiversidade e cidades, além de temas transversais como igualdade racial, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Ao todo, são 12 metas nacionais e 312 setoriais e temáticas, além de 810 ações voltadas à redução dos impactos climáticos.

Entre os compromissos mais concretos, estão a exigência de que 100% dos investimentos federais em infraestrutura considerem riscos climáticos e a redução de ao menos 30% nas interrupções operacionais causadas por eventos extremos no setor de transportes.

O documento também prevê a ampliação de 180 mil hectares de cobertura vegetal em áreas urbanas, a redução para 7,5% do total de municípios com nível mínimo de segurança hídrica e a erradicação da insegurança alimentar e nutricional grave até o marco de 2035.

No campo do planejamento local, a meta é que todos os estados e ao menos 35% dos municípios brasileiros tenham planos próprios de adaptação até 2035, conforme previsto na Lei nº 14.904/2024.

Avanço histórico, mas com ressalvas

Especialistas ouvidos pela EXAME consideram a publicação do documento com foco na adaptação como um marco na política climática brasileira. 

"Temos pela primeira vez uma estratégia nacional orientadora com objetivos e metas claras, sem dúvidas é um avanço", destaca Liuca Yonaha, vice-presidente do Instituto Talanoa, que caracterizou também como algo "inédito" a participação de diferentes segmentos das sociedade na sua elaboração.

Mas a executiva frisa que alguns pilares do plano poderiam ter sido mais ambiciosos.

"A meta de garantir que ao menos 35% dos municípios tenham seus próprios planos poderia ser mais ousada", exemplificou, ao mesmo tempo que reconheceu as dificuldades reais de capacitação.

Uma ausência chama atenção entre os 16 planos setoriais: a educação ficou de fora.

Para a VP, isso é uma lacuna grave. "É urgente discutirmos a adaptação das infraestruturas educacionais, a transformação dos ambientes, das rotinas e dos currículos escolares", afirma.

Segundo ela, não basta olhar a educação apenas como formação de mão de obra para uma economia de baixo carbono: "é preciso repensar a escola como espaço físico e pedagógico diante de um clima que já está mudando".

O desafio de implementar e "aterrissar no local"

O especialista em políticas climáticas Daniel Porcel destaca o alinhamento do plano com o Objetivo Global de Adaptação como um diferencial importante. Mas é na implementação que ele vê o nó central.

"O desafio agora é aterrissar este plano no nível local", afirma.

Isso exige que estados e municípios estejam dispostos a capacitar servidores, rever políticas de desenvolvimento com as lentes da adaptação climática e criar metodologias participativas que incluam tanto populações vulnerabilizadas quanto o setor produtivo.

Liuca converge com essa avaliação e resume os três gargalos centrais: financiamento, capacitação para elaboração de políticas subnacionais e governança.

"O próprio plano reconhece que parte das ações ainda não tem fontes de recursos definidas, apostando que o documento sirva de base para atrair financiamentos futuros", reforça a especialista.

Justiça climática no centro da estratégia

A diretriz central do plano é a justiça climática, conceito que reconhece que os impactos da crise do clima atingem de forma desigual as populações.

Dados oficiais mostram que 84,5% dos municípios e mais de 324 milhões de pessoas foram afetados por desastres na última década, com efeitos desproporcionais sobre comunidades mais vulneráveis como mulheres, negros e povos indígenas.

Por isso, o documento adota uma abordagem centrada nas pessoas, priorizando a redução das desigualdades, a proteção de direitos humanos e a inclusão social, além de incorporar temas como igualdade de gênero, racismo ambiental, mobilidade humana e adaptação baseada em ecossistemas.

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