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Na contramão, algumas marcas apostam em cacau brasileiro e cadeia sustentável mesmo com custos mais altos (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 4 de abril de 2026 às 18h00.
Última atualização em 6 de abril de 2026 às 06h06.
A Páscoa de 2026 chega mais cara para os consumidores, e para muitos, também com uma mudança difícil de ignorar: chocolates mais gordurosos e com menos sabor.
O que está por trás é uma cadeia global pressionada pela crise climática, que encareceu o cacau e já começa a alterar a composição de produtos que chegam às prateleiras.
Se o mundo não conter o aquecimento global, projeções indicam para o risco de escassez do insumo até 2050.
Com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, o agronegócio é afetado pela queda de produtividade e aumento da volatilidade da oferta da matéria-prima.
É o que aconteceu na África Ocidental, responsável por cerca de 70% da produção mundial, onde houve uma redução de 70% no commodity nos últimos anos.
Secas, chuvas irregulares e pragas, como um fungo que afetou plantações na Costa do Marfim e em Gana, provocaram quebras de safra e pressionaram os preços desde 2022.
Entre o fim de 2024 e o início de 2025, o mercado global de cacau viveu um dos choques mais intensos da história recente, com preços que chegaram a superar US$ 10 mil por tonelada.
O impacto foi significativo e a tonelada de cacau saiu de cerca de US$ 2.500 para um pico de US$ 12.000, segundo dados da indústria.
Atualmente, os preços recuaram, mas ainda permanecem elevados na casa de US$ 5.000 e US$ 5.500 em um patamar considerado alto pelo setor, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).
No Brasil, essa pressão já chegou ao consumidor. O preço do chocolate subiu quase 25% nos últimos 12 meses, segundo os dados da inflação do IPCA-15, levantamento que considera o período entre abril de 2025 e março de 2026.
Especialistas alertam que o desafio do país é ampliar a produtividade, visto que ainda não há uma autossuficiência do insumo, principalmente devido a falta de investimento, acesso a crédito e renovação das lavouras.
Ao mesmo tempo, o cenário abre espaço para crescimento da produção nacional, especialmente em um contexto de oferta global pressionada.
Com a matéria-prima mais cara, a indústria global de chocolate passou por uma reconfiguração. Parte das empresas reduziu gramatura, ajustou receitas e, em alguns casos, diminuiu o teor de cacau dos produtos para preservar margens de lucro.
É nesse contexto que ganha espaço o chamado “sabor chocolate”: produtos com menor concentração de cacau e maior uso de açúcar, gorduras e aromatizantes.
Pela legislação brasileira, chocolates devem ter ao menos 25% de cacau. Abaixo disso, entram na categoria de “sabor chocolate”, ainda que mantenham aparência, formato e preço semelhantes aos insumos tradicionais.
Para o consumidor, a mudança aparece na textura mais oleosa, gosto menos intenso e a sensação de um produto “diferente”, mesmo com preços mais altos. Sem falar nos danos à dieta e saúde.
Enquanto parte da indústria busca alternativas para reduzir custos com menos cacau, algumas empresas seguem na direção oposta.
É o caso da Dengo, marca brasileira de chocolates premium fundada em 2017 por Guilherme Leal, cofundador da Natura. A empresa opta por manter alto teor de cacau e ingredientes naturais, mesmo diante da pressão de preços.
A estratégia inclui operar com cacau 100% brasileiro e uma cadeia integrada, comprando diretamente de pequenos e médios produtores no sul da Bahia, especialmente na região de Ilhéus.
Em entrevista recente à EXAME, a CEO da Dengo afirmou que, apesar da alta histórica da matéria-prima, a empresa não alterou suas receitas nem reduziu o teor do ingrediente e manteve seu posicionamento premium baseado em qualidade e origem.
Essa escolha aumenta a exposição ao preço, mas a Dengo busca compensar com eficiência operacional e fortalecimento da marca. A aposta é que qualidade e posicionamento sustentem a alta no valor, mesmo em um cenário adverso causado pelo clima.
Com o cacau mais caro, a tendência é que parte da indústria continue apostando no 'sabor chocolate', enquanto outras marcas caminham em prol da diferenciação, sustentabilidade e maior valor agregado.
A seguir, confira como funciona o mercado de R$ 42,5 bilhões do chocolate no Brasil, na série "Do campo ao concreto" da EXAME: