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A velejadora Tamara Klink: "Temos muita dificuldade de imaginar um mundo onde não se busca o tempo todo a abundância de recursos, o crescimento infinito." (Arquivo pessoal/Instagram)
Publicado em 26 de maio de 2026 às 19h30.
Última atualização em 26 de maio de 2026 às 19h59.
Aos 29 anos, Tamara Klink acumula uma lista de façanhas que seria improvável num currículo de quase qualquer idade: foi a brasileira mais jovem a cruzar o Atlântico em travessia solo, passou oito meses presa no gelo ártico sem companhia.
No ano passado, completou a Passagem Noroeste - rota marítima que atravessa o Ártico pelo norte do Canadá, unindo Atlântico e Pacífico - tornando-se a primeira mulher latino-americana a percorrer esse trajeto sozinha.
Filha do navegador Amyr Klink e da fotógrafa Marina Bandeira Klink, Tamara cresceu ouvindo o pai contar histórias de baleias e montanhas de gelo. Quando tinha 12 anos, pediu ajuda a ele para aprender a velejar. A resposta foi não.
"Ele disse que jamais me ajudaria, porque se ele me ajudasse, ia perder o barco e eu ia morrer. E pelo menos o barco ele queria muito."
Sem apoio paterno, resolveu buscar outros mestres, a começar pelos livros escolares e da biblioteca do pai. Aprendeu inglês e depois francês para continuar lendo e se preparar, involuntariamente (ou não) para chegar em Nantes, na França, onde se formaria anos mais tarde em arquitetura naval.
O sonho ficou mais perto na temporada francesa, quando pelo preço de uma bicicleta, comprou um veleiro sueco com motor defeituoso, piloto automático quebrado e metade do casco queimada de um incêndio anterior.
Foi assim que, aos 24 anos, navegou da Noruega ao Recife em 90 dias. O pai estava no cais esperando. Quando uma jornalista presente na ocasião perguntou se Amyr se sentia orgulhoso, ele respondeu que estava surpreso pelo fato de a filha ter feito uma travessia tão longa num barco extremamente precário.
O que não estava registrado nos livros, Tamara aprendeu com os problemas do primeiro barco. "Tenho certeza que se no dia da compra alguém tivesse olhado uma bola de cristal e falado tudo o que ia acontecer, eu nunca teria partido", costuma contar em palestras que lotam salas de executivos ávidos por captar o aprendizado de quem se tornou uma das vozes mais relevantes da nova geração.
EXAME convidou a velejadora para participar da edição 2026 do prêmio Melhores do ESG, que acontece na noite desta terça-feira, 26, em São Paulo. Além de compartilhar as fascinantes experiências já acumuladas em sua curta jornada, Tamara também fala sobre o impacto das mudanças climáticas em suas viagens.
Depois da travessia atlântica, a jovem quis ficar mais tempo no mar, sem parar em portos. Decidiu então medir a próxima viagem não por quilômetros, mas por tempo: passar um inverno inteiro em um fiorde desabitado da Groenlândia.
Foram oito meses isolada, como a primeira mulher a invernar nos polos sozinha e se preparando para a próxima empreitada: a Passagem Noroeste, há séculos uma das navegações mais temidas do mundo, bloqueada pelo gelo a maior parte do ano.
A travessia começou em outubro de 2025 e foi concluída em 45 dias. Contudo, para Tamara esta não é exatamente uma conquista. "É uma navegação que eu preferia não poder ter feito. Ela só se tornou possível porque estamos vivendo um aumento de temperatura no Ártico, três vezes maior do que o resto do planeta", diz.
Para ilustrar o que isso significa, ela costuma compara duas imagens de satélite da NASA: uma de 1979, primeiro registro da extensão mínima do gelo marinho no verão ártico, e outra mais recente, de 2024, que usou para planejar a rota.
A diferença visual dispensa legenda. O gelo que antes tornava a passagem intransitável simplesmente não está mais lá em quantidade suficiente para impedir a navegação. Além disso, o que sobrou ficou progressivamente mais fino, o que fez com que cada decisão de planejamento fosse reescrita ao longo da experiência.
Por exemplo, para hibernar com segurança Tamara precisava de um lugar com pouco movimento de água e frio suficiente para o gelo se firmar durante toda a estação. Esse lugar ficou muito mais ao norte do que ficaria numa expedição de alguns anos atrás.
Em outro momento da expedição, pisou num trecho fino demais e quase não voltou. Retomar a confiança para caminhar sobre a superfície exigiu esforço. A lição que ficou, no entanto, é sobre imprevisibilidade:
"Quando a gente quer ter certeza que as coisas vão dar certo e para de se expor, perde o prazer de aprender, a oportunidade de descobrir que pode superar os obstáculos que aparecem ao redor."
A velejadora conecta o que viu no Polo Norte com o que espera o Brasil. O gelo marinho ártico, coberto de neve, reflete a radiação solar de volta para a atmosfera. Sem ele, a superfície escura absorve calor como asfalto.
Deste modo, o Ártico funciona hoje quase como regulador térmico do planeta, resfriando o oceano e distribuindo correntes frias para outras regiões. À medida que o gelo recua, esse mecanismo se inverte.
"Se temos um Ártico mais quente, essa água vai mudar as correntes marítimas e as massas de ar. E chegará no Brasil, onde o mar ficará mais quente também", explica.
A fauna local já se reorganizou diante do que está acontecendo no extremo norte do globo. Ursos polares, que usavam o gelo como plataforma de caça e deslocamento, agora passam cada vez mais tempo em terra, próximos de assentamentos humanos.
Tamara conta que acordou certa vez com uma chamada no rádio avisando que havia um urso subindo no veleiro: "Quando a gente convive com esses animais no barco, 'fofo' não é exatamente o adjetivo que usamos para descrevê-los, porque sabemos que podemos ser devorados."
Meses de isolamento forçam uma contabilidade incomum. Antes de partir para o Ártico, a jovem precisou calcular tudo o que consumiria, da pasta de dente ao peso de um pote de geleia.
"No início era a conta do máximo que eu consigo levar. Aos poucos se tornou: qual é o mínimo necessário?", lembra.
Se aceitasse viver a 5 graus em vez de 20, precisaria de menos energia para aquecer a embarcação. Assim, com menos energia e menos peso, ganhava mais liberdade e menor custo. É mesma lógica que estende ao debate climático, onde a solução mais barata e eficaz já existe, mas o mundo continua adiando.
"Tudo que fizermos hoje para reduzir o consumo energético vai custar menos e ter muito mais efeito do que daqui a dez anos. E são soluções que precisaremos tomar de qualquer jeito."
Para Tamara, o obstáculo não é técnico, é de imaginação:"Temos muita dificuldade de imaginar um mundo onde não se busca o tempo todo a abundância de recursos, o crescimento infinito."
No inverno ártico, ela encontrou justamente este cenário. No gelo, privada de quase tudo, cada coisa pequena ganhava um peso que a abundância torna invisível. "Por isso acredito que fazer melhor com menos recursos é o desafio do nosso tempo. Mas é também muito possível."