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Belém decreta emergência após chuva recorde e expõe o limite das obras da COP30

Mais de 150 mil pessoas vivem em áreas de risco na capital paraense; No domingo, 150 mm de chuva em menos de 24h travaram o sistema de drenagem e alagaram ao menos sete bairros

Composta por ilhas e cortada por rios, Belém carrega na própria geografia a vulnerabilidade às enchentes que se agravam com as mudanças climáticas  (Getty Images)

Composta por ilhas e cortada por rios, Belém carrega na própria geografia a vulnerabilidade às enchentes que se agravam com as mudanças climáticas (Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 20 de abril de 2026 às 12h30.

Última atualização em 20 de abril de 2026 às 15h19.

Meses após sediar a conferência climática da ONU (COP30), a maior chuva dos últimos 10 anos "afoga" Belém do Pará.   

A Prefeitura decretou emergência na noite deste domingo, 19, após o volume de água ultrapassar 150 milímetros em menos de 24 horas, uma média esperada para todo o mês de abril.

O cenário foi agravado pela maré alta de 3,6 metros, o que dificultou o escoamento das águas e levou ao alagamento das áreas mais vulneráveis da capital paraense que já é mais suscetível a problemas por ser composta por ilhas e rios.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito Igor Normando (MDB) afirmou que uma força-tarefa atua nos bairros afetados e que o decreto busca viabilizar apoio dos governos Federal e Estadual para expandir o atendimento às famílias e recuperar os locais mais impactados.

A prefeitura ainda não contabilizou o número de vítimas atingidas. 

O legado da COP30 e as obras de R$ 1,4 bilhão

Em novembro de 2025, Belém foi o berço do debate climático global e sediou a grande conferência da ONU. Como legado da COP30, a prefeitura e o governo estadual anunciaram no início deste ano o maior ciclo de obras de saneamento da história da cidade amazônica, com investimentos superiores a R$ 1,4 bilhão para aumentar a resiliência frente a eventos extremos. 

Desde então, a cobertura de esgotamento sanitário na área urbana saltou de 18,79% para 38,68% e treze canais de macrodrenagem foram requalificados ou construídos. 

Mas a chuva deste fim de semana expôs fragilidades que as obras, sozinhas, não conseguiram resolver. A maré alta de 3,6 metros é um fenômeno agravado pelas mudanças climáticas e travou o sistema de drenagem em diversos pontos.

Bairros como Terra Firme (o mais afetado), Condor, Jurunas, Icoaraci, Tapanã, Parque Verde e Cabanagem registraram alagamentos severos, enquanto árvores caíram na Pedreira e no Curió-Utinga.

Segundo estudo de 2025 do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Belém possui quase 400 áreas de risco, sendo 301 suscetíveis a inundações e 88 a deslizamentos. 

Cerca de 10% da população (mais de 150 mil pessoas) vive em áreas críticas, como várzeas e ilhas como Mosqueiro e Outeiro. 

Resposta emergencial e desafios estruturais

A Prefeitura informou que equipes do Centro de Operações, Defesa Civil, Zeladoria e Ciência Social estão nos bairros atuando diretamente para driblar os efeitos mais severos da chuva recorde.

Entre as medidas adotadas a ampliação de vagas em abrigos para pessoas em situação de rua e os pontos de coleta de doações (colchões, itens de higiene, cestas básicas, alimentos não perecíveis e roupas).

Em nota, a administração municipal pede que a população evite áreas de risco. Por outro ado, especialistas alertam que a resposta rápida não substitui um plano estruturante de adaptação climática.

O que Belém precisa é integrar: sistemas de alerta antecipado com comunicação popular eficiente, habitação de interesse social fora das áreas de várzea, infraestrutura verde (pavimentos permeáveis, jardins de chuva) aliada à drenagem cinza (canais, bombas) e planejamento que considere cenários de maré alta simultânea a chuvas extremas. 

O desastre é mais um retrato da crise climática. O Brasil tem quase 2 mil municípios com alto risco geo-hidrológico, segundo o Cemaden. E a conta global da inação já é bilionária.

Um estudo inédito do Boston Consulting Group (BCG) e do Fórum Econômico Mundial (WEF) apontou que desastres climáticos causaram mais de US$ 3,6 trilhões (R$ 21 trilhões) em prejuízos no mundo e as mudanças climáticas podem reduzir o PIB global em 22% até 2100. 

Adaptar as cidades se torna uma necessidade não só ambiental, como econômica, social e humanitária. 

Para Belém, a lição é amarga. Enquanto a COP30 colocou a Amazônia nos holofotes e atraiu mais investimentos, a maior chuva em dez anos mostra que resiliência não se decreta na véspera e se constrói com planejamento e prevenção.

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