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Emissões de metano crescem no Brasil; agro concentra 75% do total

Criação de gado domina a conta nacional, enquanto pesquisadores apontam manejo, gestão de resíduos e controle de vazamentos entre as frentes de redução

Emissões de metano: Caderno do SEEG reúne medidas para pecuária, resíduos, fogo e energia e aponta falta de escala na implementação (Imagem gerada por IA/Exame)

Emissões de metano: Caderno do SEEG reúne medidas para pecuária, resíduos, fogo e energia e aponta falta de escala na implementação (Imagem gerada por IA/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 15h26.

Enquanto parte das emissões brasileiras de dióxido de carbono (CO2) recuou nas últimas duas décadas com períodos de redução do desmatamento, a trajetória do metano tem seguido no sentido contrário: cresce de forma sistemática: o Brasil lançou 21 milhões de toneladas de metano na atmosfera em 2024 e permanece entre os maiores emissores do gás no mundo.

Cinco anos depois de aderir ao Compromisso Global de Metano durante a COP26, em Glasgow, o país ainda não conseguiu inverter essa curva. É nesse cenário que o SEEG, Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, lança nesta terça-feira, 18, um caderno com 37 soluções voltadas a redução de emissões de metano quatro setores: agropecuária, resíduos, mudança de uso da terra e florestas e energia.

O metano, ou CH4, tem potencial de aquecimento 28 vezes superior ao do CO2 em um horizonte de 100 anos e é apontado como o segundo maior causador do aquecimento global, atrás do dióxido de carbono. Sua permanência mais curta na atmosfera também faz com que cortes nas emissões possam produzir efeitos climáticos em um intervalo menor de tempo.

Mas o principal problema apontado pelos pesquisadores não está na ausência de tecnologias ou práticas conhecidas.

“Em termos de conhecimento, o Brasil está bem preparado”, afirmou David Tsai, coordenador do SEEG, durante a apresentação do levantamento. Segundo ele, as propostas reunidas pelo grupo partiram de experiências, referências técnicas e aplicações que já existem. “Agora, em termos de aplicação, ainda estamos bem longe.”

Para Tsai, falta ampliar iniciativas que já funcionam. “Do ponto de vista de capacidades institucionais e prioridades, tanto políticas quanto da iniciativa privada, ainda estamos aquém do necessário.”

Três em cada quatro toneladas vêm da agropecuária

A dimensão do desafio passa principalmente pela criação de animais. Em 2024, a agropecuária emitiu 15,7 milhões de toneladas de metano, ou 75,8% de todo o volume brasileiro. Mais de 90% das emissões do setor estão associadas à criação de gado.

Das 37 propostas apresentadas pelo SEEG, 15 são destinadas à agropecuária. Elas incluem planejamento territorial, assistência técnica, acesso a crédito, recuperação de pastagens degradadas, mudanças na alimentação animal e no manejo dos rebanhos e tratamento dos resíduos da produção.

Segundo Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora, projeções do próprio SEEG indicam que o setor agropecuário poderia reduzir suas emissões em até 28% em relação aos níveis de 2020.

Parte das propostas mira a fermentação entérica, processo digestivo dos animais ruminantes que libera metano. O documento também inclui uma frente menos ligada à produção: a diversificação do consumo de alimentos.

A proposta é reduzir a centralidade da proteína animal na dieta e ampliar a participação de alimentos de origem vegetal. A medida aparece como complemento às mudanças propostas dentro das propriedades rurais, e não como substituição delas.

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Uma redução direta do tamanho do rebanho, no entanto, não foi incluída entre as soluções. Questionado sobre o tema, Quintana afirmou que uma diminuição poderia ocorrer como consequência de sistemas mais produtivos e bem manejados, capazes de produzir o mesmo — ou mais — com menos animais.

A lógica apresentada pelo grupo é a da chamada intensificação sustentável: melhorar alimentação, manejo e produtividade para reduzir tanto a emissão por unidade produzida quanto, em alguns casos, o volume absoluto.

Essa estratégia também aparece na discussão sobre confinamento. Quintana argumentou que a etapa final de criação em sistemas confinados pode encurtar o período de produção do animal e reduzir emissões, desde que faça parte de um manejo mais eficiente desde as fases iniciais da criação.

O cálculo apresentado no caderno, porém, olha especificamente para emissões de metano. O eventual carbono armazenado nos solos de pastagens não entra como compensação desse volume. O SEEG faz exercícios separados para estimar essas remoções, mas elas ainda não integram o inventário oficial da mesma forma.

Resíduos são 16% das emissões de metano

Lixo e esgoto formam a segunda maior fonte brasileira de metano. O setor de resíduos respondeu por 3,3 milhões de toneladas em 2024, ou 16% do total nacional.

A disposição final dos resíduos sólidos em aterros e lixões representa 68% das emissões dessa frente. Outros 25% estão relacionados ao esgoto doméstico, incluindo a ausência de tratamento.

O caderno reúne 12 propostas para o setor, entre redução da geração e do desperdício, encerramento de lixões, coleta seletiva, aproveitamento dos resíduos orgânicos e recuperação do gás produzido durante a decomposição.

Segundo Armelle Cibaka, diretora executiva do ICLEI Brasil, parte do problema está em fazer práticas já existentes chegarem a um número maior de municípios. As soluções foram estruturadas com informações sobre custo, complexidade e impacto para auxiliar gestores locais a escolher medidas compatíveis com a estrutura de cada cidade.

A dimensão municipal também ajuda a mostrar como as origens do metano variam dentro do país. No ranking apresentado pelo SEEG, Rio de Janeiro aparece como o município com mais emissões do gás, seguido por São Félix do Xingu, no Pará, e São Paulo.

As causas, porém, são diferentes. Nas duas maiores capitais, resíduos têm peso relevante. Em São Félix do Xingu, município com o maior rebanho bovino do Brasil segundo os pesquisadores, a agropecuária ganha protagonismo.

Prevenção do fogo entra na conta

Mudança de uso da terra e florestas representam 5,5% das emissões brasileiras de metano, com 1,14 milhão de toneladas em 2024.

Na contabilidade oficial, o fogo associado ao desmatamento é o único processo emissor considerado nessa categoria. O SEEG também fez um exercício adicional incluindo queimadas em vegetação nativa que não entram no inventário. Nesse cenário, as emissões do setor quase dobrariam, embora ele permanecesse atrás de agropecuária e resíduos.

As cinco soluções propostas pelo Ipam, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, estão relacionadas à Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, criada em 2024. Entre elas estão planos estaduais e municipais, fortalecimento dos comitês de gestão, integração de dados, treinamento de brigadas locais e regras para o uso do fogo em atividades agropecuárias.

O pacote inclui ainda as chamadas queimas prescritas, uso planejado do fogo para reduzir material combustível e tentar evitar incêndios maiores no período mais seco.

A estratégia, segundo Bárbara Zimbres e Ana Pessôa, pesquisadoras do Ipam, depende de planejamento e não deve ser aplicada indiscriminadamente. A queima precisa ocorrer em ambientes adaptados ao fogo, no período adequado e dentro de um plano de manejo integrado.

Quando realizada no início da estação seca, explicaram as pesquisadoras, a prática pode fragmentar o material combustível acumulado na paisagem e facilitar a atuação das brigadas caso um incêndio ocorra posteriormente. Fora dessas condições, a própria queima pode representar risco.

Energia é a menor fatia, mas concentra emissões industriais

O setor de energia respondeu por 0,53 milhão de toneladas de metano em 2024, ou 2,6% do total.

A maior fonte não está nas grandes instalações industriais, mas dentro das residências. Cerca de 53% das emissões energéticas vêm da queima incompleta de lenha usada para cozinhar. A produção de combustíveis responde por outros 27%.

Das cinco medidas propostas para energia, quatro estão voltadas a petróleo, gás e carvão: detecção e reparo de vazamentos, redução de venting, liberação direta de gases para a atmosfera, e de flaring, queima do gás excedente; captura de metano em minas de carvão; e modernização de equipamentos que liberam o gás durante a operação.

Ingrid Graces, pesquisadora do Iema, Instituto de Energia e Meio Ambiente, ressaltou durante a apresentação que essas medidas devem ser tratadas como mitigação das emissões existentes, e não como substitutas da redução da exploração de combustíveis fósseis ou do descomissionamento de estruturas.

O documento também separa a responsabilidade pelo financiamento. Na cadeia de petróleo, gás e carvão, o grupo atribui maior peso ao setor privado, que opera e obtém receita dessas atividades. Já a substituição da lenha por formas mais limpas de cocção é tratada como uma questão que exige recursos públicos e privados por envolver também famílias sem acesso a outras fontes de energia.

Os dados de 2024 usados no levantamento são os mais recentes consolidados pelo SEEG com nível de detalhamento comparável ao do inventário nacional. Segundo Tsai, a estimativa referente a 2025 ainda está em elaboração e deve ser divulgada em outubro. Até agora, a série histórica usada pelo grupo continua mostrando uma direção que as 37 propostas tentam alterar: o conhecimento sobre como reduzir metano avançou mais rapidamente do que sua aplicação no país.

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