Vacina: tecnologia de mRNA é desenvolvida a partir das mutações específicas do tumor de cada paciente (Freepik)
Redatora
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 20h51.
Uma vacina personalizada contra o câncer desenvolvida pela Moderna em parceria com a Merck pode marcar uma nova etapa na oncologia. Um ensaio clínico de fase 3 mostrou que a tecnologia baseada em RNA mensageiro (mRNA) reduziu o risco de retorno e disseminação do melanoma em pacientes submetidos à cirurgia, fortalecendo a expectativa de que a estratégia também possa ser aplicada a outros tipos de tumores.
Os resultados foram anunciados pelas duas farmacêuticas na última quarta-feira, 19. À Reuters, especialistas afirmaram que o estudo representa uma importante validação da tecnologia de mRNA como tratamento contra o câncer e deve impulsionar novas pesquisas na área.
Diferentemente da quimioterapia, que também pode atingir células saudáveis, ou da imunoterapia convencional, que estimula o sistema imunológico de forma mais ampla, a vacina personalizada é produzida a partir das mutações específicas identificadas no tumor de cada paciente.
O tratamento combina o imunoterápico Keytruda, da Merck, com uma vacina de mRNA personalizada chamada autogene intismerano. A proposta é ensinar o sistema imunológico a reconhecer essas alterações genéticas e atacar seletivamente as células cancerígenas.
Segundo a Moderna e a Merck, a combinação não apresentou novos efeitos colaterais relevantes em comparação com o tratamento realizado apenas com o Keytruda.
O ensaio clínico de fase 3 envolveu mais de mil pacientes com melanoma que haviam retirado cirurgicamente o tumor, mas apresentavam alto risco de recorrência.
De acordo com as empresas, a combinação entre o Keytruda e a vacina atingiu os objetivos do estudo ao reduzir o risco de retorno e disseminação da doença. Os participantes continuarão sendo acompanhados para verificar se a estratégia também aumenta a sobrevida global.
Os resultados reforçam dados apresentados anteriormente em um estudo de fase 2. Após cinco anos de acompanhamento, a combinação reduziu em 50% o risco de recorrência do melanoma e em 59% o risco de disseminação da doença em comparação com o uso isolado do imunoterápico.
O melanoma é apenas o primeiro alvo dessa estratégia. Moderna e Merck já conduzem ensaios clínicos de fase avançada em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células submetidos à cirurgia.
Também estão em andamento estudos de fase intermediária para câncer de bexiga e de rim, além de pesquisas iniciais envolvendo câncer de pâncreas e de estômago. Segundo o presidente da Moderna, Stephen Hoge, vários desses resultados deverão ser divulgados nos próximos dois anos.
Outras empresas também investem na tecnologia. A Roche e a BioNTech desenvolvem uma vacina personalizada de mRNA chamada autogene cevumeran, atualmente em testes clínicos para pacientes com câncer colorretal e o câncer de pâncreas após cirurgia.
Para Ryan Sullivan, diretor do Centro de Melanoma do Mass General Brigham Cancer Institute, o estudo representa um grande avanço para a oncologia e amplia a expectativa de que vacinas personalizadas possam transformar o tratamento de diferentes tipos de câncer.
A diretora médica da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), Julie Gralow, classificou o resultado como um "salto monumental" por demonstrar o potencial da tecnologia de mRNA como estratégia terapêutica contra a doença.
Já Robert Vonderheide, diretor do Abramson Cancer Center, da Penn Medicine, afirmou que diversos estudos semelhantes devem divulgar resultados nos próximos anos e que há motivos para esperar novos avanços à medida que essas pesquisas forem concluídas.
Segundo Elizabeth Buchbinder, especialista em melanoma do Mass General Brigham Cancer Institute, o melanoma foi escolhido para os primeiros estudos porque costuma apresentar um grande número de mutações, característica que facilita o reconhecimento das células cancerígenas pelo sistema imunológico treinado pela vacina.
Ela ressalta que diversos outros tipos de câncer também acumulam muitas mutações, o que amplia o potencial dessa abordagem caso sua eficácia seja confirmada em novos estudos.