Ciência

Este 'pequeno invasor' está se espalhando pelo mundo e custando US$ 423 bilhões às economias por ano

Espécie de besouro ameaça milhões de árvores urbanas e levou diversas cidades a ampliar medidas de controle

Polyphagous shot-hole borer: Besouro invasor já atingiu oito das nove províncias do país e pode causar impacto econômico de até US$ 18,5 bilhões em uma década. (Government of Western Australia/Divulgação)

Polyphagous shot-hole borer: Besouro invasor já atingiu oito das nove províncias do país e pode causar impacto econômico de até US$ 18,5 bilhões em uma década. (Government of Western Australia/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 12h18.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreAnimais
Saiba mais

Um besouro invasor de tamanho semelhante ao de uma semente de gergelim ameaça transformar a paisagem de Stellenbosch, na África do Sul, e já coloca milhões de árvores em risco no país. Conhecida há quase 350 anos como a "Cidade dos Carvalhos", a região de Western Cape enfrenta o avanço do besouro-broca-do-furo-de-tiro polífago, ou polyphagous shot-hole borer, inseto que transporta um fungo capaz de provocar a morte das árvores que infesta.

Parte dos carvalhos ingleses e de outras árvores que ocupavam ruas e propriedades da cidade já desapareceu. Nos exemplares que permanecem, pequenos orifícios sob a casca indicam a presença do besouro. Os furos, com espessura semelhante à de um ponto feito por uma caneta esferográfica, surgem quando o inseto abre túneis na madeira para estabelecer galerias de reprodução.

Originário do Sudeste Asiático, o inseto chegou a todos os continentes, com exceção da Antártida, transportado em produtos de madeira, plantas vivas e materiais de embalagem, segundo estudo publicado no Journal of Pest Science, em junho. Uma revisão publicada na revista Forests, em julho, identificou cerca de 680 espécies de árvores e plantas lenhosas atacadas pela praga. Na África do Sul, o besouro já foi encontrado em oito das nove províncias do país.

A presença do inseto foi identificada inicialmente na província de KwaZulu-Natal, no leste sul-africano, em 2012, cinco anos antes do primeiro registro oficial, feito em 2017. Limpopo permanece como a única província sem infestação detectada, embora Francois Roets, professor de ecologia da conservação e entomologia da Universidade de Stellenbosch, considere possível que o besouro já tenha chegado à região sem ter sido identificado.

Roets define a espécie como um "invasor perfeito". O pesquisador afirma que o inseto reúne características que favorecem a disseminação e dificultam seu controle.

"Eu costumava ministrar uma disciplina para alunos de graduação na qual pedíamos que eles criassem uma espécie invasora hipotética, reunindo todas as características típicas desse tipo de organismo", disse Roets, em entrevista à emissora americana CNN.

"Esse pequeno besouro reúne todas essas características em um só ser."

Fungo transportado pelo Besouro pode matar árvores em meses

O besouro, isoladamente, não representa uma ameaça mortal para todas as espécies que ataca, entre elas abacateiros, bordos-negundos e bordos-de-folha-grande. O risco está associado ao fungo transportado pelo inseto em bolsas localizadas atrás de suas mandíbulas. Durante a perfuração da madeira, os esporos são liberados dentro da árvore.

O fungo e o besouro mantêm uma relação simbiótica. O inseto transporta o organismo até o interior da árvore, enquanto o fungo serve de alimento para o besouro e suas larvas. Ao se desenvolver, também bloqueia o tecido vascular da planta, o que reduz a capacidade de os mecanismos de defesa da árvore alcançarem o invasor.

A obstrução interfere no transporte de água e nutrientes. A doença provocada pelo fungo, conhecida como fusarium dieback, seca por Fusarium, causa sintomas semelhantes aos de uma seca e pode levar a árvore à morte. Segundo Roets, o tempo de sobrevivência varia conforme a espécie. Carvalhos costumam morrer em até quatro anos, enquanto bordos-negundos podem não sobreviver aos primeiros 12 meses.

Outro fator favorece a propagação. Uma única fêmea pode dar origem a uma nova população sem a presença inicial de um macho. Ela deposita ovos não fertilizados que se desenvolvem em machos e depois pode acasalar com eles para formar novas colônias. O mecanismo recebe o nome de haplodiploidia, sistema de determinação sexual presente em determinados grupos de insetos.

Os machos não possuem asas, e as fêmeas conseguem voar apenas por distâncias curtas. Ainda assim, o tamanho reduzido, a capacidade reprodutiva e o hábito de permanecer escondido na madeira contribuíram para a dispersão pelo território sul-africano.

Em 2022, imagens de satélite de Joanesburgo mostraram trechos de áreas suburbanas onde árvores haviam desaparecido. A retirada de exemplares infectados ou mortos permanece como uma das medidas disponíveis para impedir que os besouros encontrem novos hospedeiros.

Um estudo publicado em 2022 estimou que o besouro poderia provocar um impacto econômico de 275 bilhões de rands, cerca de US$ 18,5 bilhões na época, ao longo da década seguinte — valor equivalente a aproximadamente 0,66% do PIB da África do Sul. A análise foi conduzida por economistas e ecólogos das universidades de Stellenbosch e Pretória.

Brian van Wilgen, ecólogo e coautor do estudo, anteriormente ligado ao Centro de Biologia de Invasões da Universidade de Stellenbosch, afirmou que a remoção das árvores representa o maior componente financeiro entre os custos relacionados à perda da vegetação urbana.

A estimativa considera que pelo menos 65 milhões das 225 milhões de árvores urbanas existentes na África do Sul poderão precisar ser descartadas. A perda também reduz áreas de habitat para aves, insetos e outras espécies e afeta a cobertura vegetal associada ao controle da temperatura nas cidades.

África do Sul busca formas de conter a Infestação

Alemanha e Países Baixos conseguiram conter ocorrências do besouro após registros isolados em estufas e jardins botânicos. Em áreas abertas, porém, a erradicação se torna mais difícil.

Roets cita o caso de Perth, na Austrália. Após a descoberta do inseto, em 2021, equipes locais passaram quatro anos em uma operação para remover e triturar árvores infestadas. Mesmo com as medidas adotadas, o besouro continuou a se espalhar “rapidamente”.

“Nesta fase, sinto-me um pouco como o Doutor Apocalipse”, disse Roets, ao mencionar o avanço da praga em direção aos pomares de Stellenbosch, onde o inseto passou a ocupar pereiras e árvores de frutas de caroço.

“Faço apresentações e tenho de dizer: ‘Bem, sinto muito, não temos cura para isso, e muitas árvores vão morrer’.”

Sem uma estratégia capaz de eliminar o besouro no território sul-africano, Stellenbosch mantém parcerias com universidades e municípios para reduzir a velocidade de propagação. Parte dessas ações depende da participação da população.

Reservas naturais do país passaram a solicitar que visitantes não transportem lenha para determinadas áreas ou proibiram essa prática. A recomendação é comprar a madeira no local onde será utilizada. O objetivo é limitar o deslocamento acidental do besouro escondido no material.

Pesquisadores também avaliam métodos de controle biológico, técnica que utiliza inimigos naturais para reduzir populações de uma espécie invasora. As tentativas de controle químico não apresentaram resultados até agora, em parte porque o bloqueio dos tecidos vasculares das árvores dificulta a chegada das substâncias até os insetos.

Vespas parasitoides nativas conseguiram predar o besouro em laboratório, segundo Roets. O pesquisador avalia, porém, que a velocidade de reprodução da espécie pode impedir que esses predadores reduzam a população em uma escala suficiente para alterar a disseminação.

Outra linha de pesquisa envolve ácaros que poderiam ser transportados pelos besouros até o interior das árvores e depois consumir o fungo. Os pesquisadores também testam nematoides, vermes cilíndricos microscópicos utilizados no controle de outras pragas por matarem seus hospedeiros de dentro para fora.

Os testes de laboratório apresentaram resultados, mas a aplicação em ambientes naturais exige avaliação dos possíveis efeitos ecológicos. O histórico dos sapos-cururus na Austrália é uma referência nesse tipo de estudo. Introduzidos para combater o besouro-da-cana, os animais formaram uma população estimada em 200 milhões de indivíduos e continuam presentes no país 91 anos depois da introdução.

"Os [nematoides] parecem funcionar bem, mas é sempre na etapa de levar a solução do laboratório para o campo que as coisas podem dar muito errado", disse Roets.

Besouro já se estabeleceu em outros países

O problema não está restrito à África do Sul. Espécies invasoras, de diferentes grupos, já provocam custos superiores a US$ 423 bilhões por ano para a economia global.

Desde 2022, o besouro também se estabeleceu na Espanha, no Uruguai e na Turquia, segundo um estudo sobre sua distribuição publicado em junho. O trabalho identificou uma "capacidade alarmante" de ocupar diferentes nichos ecológicos, com registros tanto em regiões subtropicais quanto em áreas de clima temperado.

Essa tolerância climática pode permitir uma expansão a partir da Califórnia, onde o inseto já está estabelecido, em direção ao sudeste dos Estados Unidos, leste do México e partes da América Central. O estudo também aponta condições para uma expansão pelo continente africano e pela bacia do Mediterrâneo. Mudanças relacionadas ao aquecimento global podem ampliar as áreas disponíveis para a espécie.

Roets aponta a disponibilidade de recursos financeiros como uma das limitações das iniciativas de controle. Ao mesmo tempo, considera a substituição das árvores perdidas por outras espécies uma possibilidade para ampliar a diversidade da vegetação e reduzir a exposição a uma única praga.

"Tenho tentado apresentar a situação de uma forma um pouco mais positiva ultimamente", disse ele.

"É um desafio, mas é muito interessante tentar descobrir se conseguimos encontrar algo que ajude a controlar a situação (a invasão)."

Van Wilgen, hoje aposentado após uma carreira de quase cinco décadas dedicada ao estudo de espécies invasoras, afirma que a presença desse besouro impõe um tipo de problema diferente daqueles já enfrentados pela África do Sul. O país possui histórico de controle de plantas exóticas invasoras, como pinheiros e eucaliptos, mas ainda acumula experiência no enfrentamento de insetos que atingem ecossistemas naturais.

“Isso é algo novo”, explicou ele. “Estamos lidando com um inseto invasor que ataca ecossistemas naturais. Portanto, é uma área em que ainda não temos muita experiência, e é melhor aprendermos rápido.”

Acompanhe tudo sobre:CuriosidadesAnimais

Mais de Ciência

Mounjaro e Ozempic são associados a envelhecimento mais lento em estudos; entenda o motivo

Câncer do papa Leão XIV: chance de cura pode chegar a 90% em estágio inicial

Estrutura 'misteriosa' aparece no Google Earth e leva arqueólogos a investigar os Andes

Adolescente procura médico por inchaço e descobre dentes nascendo na região do olho