Ciência

Herbicida pode ter ligação com câncer de cólon em jovens, diz estudo

Estudo analisa 'marcas' no DNA e levanta hipótese sobre possível fator agrícola ainda pouco investigado

Proposta em andamento na Câmara busca reduzir o uso de agrotóxicos químicos (Crédito: simonkr/Getty Images)

Proposta em andamento na Câmara busca reduzir o uso de agrotóxicos químicos (Crédito: simonkr/Getty Images)

Publicado em 23 de abril de 2026 às 10h11.

O picloram, um herbicida usado globalmente para eliminar plantas lenhosas e arbustos, pode estar associado ao aumento de casos de câncer de cólon e reto em pessoas com menos de 50 anos. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Oncologia Vall d’Hebron, em Barcelona e publicado nesta terça-feira, 21, na revista Nature Medicine .

Segundo os cientistas, a substância não apresentou associação relevante com casos em adultos com mais de 70 anos, faixa etária em que a doença é mais comum.

A pesquisa foi liderada por José Seoane. A equipe identificou “impressões digitais” de metilação do DNA em tumores de pacientes jovens, associadas a diferentes exposições ao longo da vida, como tabagismo, dieta inadequada, obesidade e o uso do herbicida.

Ligação com herbicida

De acordo com Seoane, a associação com o picloram surpreendeu os pesquisadores. A equipe chegou a considerar a hipótese de erro, mas não encontrou explicações alternativas após novas análises.

Os cientistas também compararam a incidência de câncer colorretal em jovens em sete estados dos Estados Unidos — Califórnia, Connecticut, Geórgia, Iowa, Novo México, Utah e Washington — com o nível de uso de pesticidas em cada região.

Nesse cruzamento, o picloram apresentou a associação mais forte com taxas mais elevadas da doença. Em segundo lugar apareceu o glifosato.

Estudo não prova causa

O estudo é observacional e não permite afirmar que o picloram causa câncer. Especialistas destacam a necessidade de novas investigações, incluindo análises com pacientes que tiveram exposição direta ao herbicida.

Robin Mesnage, do King's College London, afirmou que o estudo é relevante, mas não comprova uma ligação definitiva, já que a exposição à substância não foi medida diretamente nos pacientes.

Mesnage também aponta que outros compostos envolvidos na fabricação do herbicida, como o hexaclorobenzeno — conhecido por potencial cancerígeno —, podem influenciar os resultados.

Outras hipóteses

Além de fatores ambientais, pesquisadores investigam o papel de bactérias intestinais no desenvolvimento da doença. Uma das hipóteses envolve infecções por microrganismos produtores de colibactina no início da vida, que poderiam influenciar o risco de câncer décadas depois.

Estudos futuros também avaliam o uso de probióticos como possível estratégia preventiva. Rebecca Siegel, da American Cancer Society, afirma que o estudo representa um avanço importante, mas reforça a necessidade de mais evidências para confirmar a associação.

Casos em alta

O aumento de casos de câncer de cólon em jovens é observado há mais de três décadas. Nos Estados Unidos, a idade recomendada para o primeiro exame de rastreamento foi reduzida de 50 para 45 anos em 2021, como resposta ao crescimento da doença nessa faixa etária.

Especialistas apontam que o fenômeno seja causada por uma combinação de fatores, como dieta, estilo de vida, ambiente e possíveis exposições químicas.

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