Ciência

Sinal de rádio viaja mais de 10 bilhões de anos e bate recorde no espaço

Rajada surgiu quando o Universo tinha cerca de 3 bilhões de anos e pode ajudar cientistas a mapear matéria que telescópios não conseguem enxergar

Explosão cósmica: sinal foi detectado pelo MeerKAT e teve sua origem investigada pelo James Webb (Freepik)

Explosão cósmica: sinal foi detectado pelo MeerKAT e teve sua origem investigada pelo James Webb (Freepik)

Publicado em 13 de outubro de 2026 às 08h00.

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Astrônomos detectaram uma rajada de ondas de rádio que viajou por mais de 10 bilhões de anos antes de chegar à Terra. Batizado de FRB 20240304B, o sinal é considerado o mais distante desse tipo já registrado.

O fenômeno ocorreu quando o Universo tinha aproximadamente 3 bilhões de anos. Isso significa que o sinal percorreu cerca de 80% da história cósmica até ser identificado pelos cientistas.

A descoberta foi apresentada em um estudo publicado na última quinta-feira, 8, na revista científica Science. Segundo os pesquisadores, a distância supera em mais de duas vezes o recorde anterior. A marca pertencia à FRB 20220610A, detectada em 2022, cujo sinal levou cerca de 8 bilhões de anos para chegar à Terra.

Além de revelar que esses fenômenos já existiam no Universo jovem, a descoberta pode oferecer uma nova ferramenta para investigar a matéria que não conseguimos observar diretamente no espaço.

O que são as rajadas rápidas de rádio?

As rajadas rápidas de rádio, conhecidas pela sigla FRB, são pulsos extremamente intensos de ondas de rádio que duram apenas milissegundos. Apesar da curta duração, podem liberar uma enorme quantidade de energia.

O primeiro fenômeno desse tipo foi identificado em 2007. Desde então, mais de 10 mil FRBs já foram detectados.

Alguns sinais aparecem repetidamente. Outros voltam durante determinado período e desaparecem. Há ainda aqueles registrados apenas uma vez. De acordo com o estudo, a origem exata desses fenômenos continua sendo investigada.

Uma das principais hipóteses envolve os magnetares, estrelas de nêutrons com campos magnéticos extremamente intensos.

Telescópio James Webb revela origem do sinal

O FRB 20240304B foi identificado pelo radiotelescópio MeerKAT, localizado na África do Sul. Depois da detecção, os pesquisadores utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para localizar a galáxia de onde o sinal partiu.

As observações indicam que a FRB surgiu em uma galáxia jovem, pequena e com intensa formação de estrelas. O ambiente também apresentava baixa quantidade de elementos mais pesados, chamados de metais pelos astrônomos.

Themiya Nanayakkara, da Universidade de Sydney e um dos principais pesquisadores do estudo, destacou que a Terra e o Sol ainda nem existiam quando a rajada foi produzida.

A descoberta impõe novas condições às teorias que tentam explicar a origem das FRBs. Qualquer mecanismo responsável por produzir essas rajadas também precisa funcionar em galáxias muito jovens e com baixa presença de metais.

O mistério por trás dos FRBs

Os cientistas ainda não sabem se o FRB 20240304B foi um evento único ou se novos pulsos serão detectados vindos da mesma região. Essa dúvida faz parte de um dos maiores desafios envolvendo as rajadas rápidas de rádio.

Apesar de a origem permanecer incerta, os pesquisadores não precisam necessariamente descobrir o que produz os sinais para utilizá-los em outras investigações sobre o Universo.

A longa viagem das ondas de rádio pode ser capaz de carregar informações sobre o material encontrado pelo caminho.

FRBs podem revelar matéria invisível

Ao viajar pelo espaço, as ondas de rádio interagem com partículas distribuídas entre galáxias. Essa interação altera o sinal recebido pelos telescópios e permite estimar quanta matéria foi atravessada durante o percurso.

Por isso, FRBs muito distantes podem funcionar como ferramentas para investigar regiões do Universo que não são facilmente observadas por telescópios ópticos.

Matthew Bailes, astrofísico da Universidade de Swinburne, descreveu as rajadas como uma maneira de contabilizar os átomos existentes no cosmos.

Sara Webb, também da Universidade de Swinburne e que não participou do estudo, explicou que os sinais permitem estimar a quantidade de matéria encontrada durante sua viagem até a Terra.

Quanto mais distante estiver a origem de uma FRB, maior será a região do Universo atravessada pelo sinal.

Dessa forma, a detecção do FRB 20240304B mostra que essas rajadas já ocorriam quando o cosmos era muito mais jovem e abre caminho para utilizá-las na investigação da distribuição de matéria ao longo de bilhões de anos

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