Ciência

Rio fervente na Amazônia ultrapassa 90ºC e causa morte de animais

Estudos apontam que o fenômeno não está relacionado diretamente à incidência solar

Rio Shanay-Timpishka: as altas temperaturas representam riscos para seres humanos e animais (Shanay Timpishka Ecolodge/Divulgação)

Rio Shanay-Timpishka: as altas temperaturas representam riscos para seres humanos e animais (Shanay Timpishka Ecolodge/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 8 de junho de 2026 às 22h38.

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O rio Shanay-timpishka, localizado na floresta amazônica do Peru, é conhecido por registrar temperaturas que podem ultrapassar 90°C em determinados trechos. Em alguns pontos, a água se aproxima dos 100°C, nível capaz de provocar queimaduras graves e causar a morte de animais que entram no curso d'água.

Conhecido popularmente como o rio que pode "ferver", o Shanay-timpishka tem um nome que significa "fervido pelo calor do sol" em uma língua indígena local. No entanto, estudos apontam que o fenômeno não está relacionado diretamente à incidência solar.

Pesquisadores explicam que o aquecimento ocorre devido à presença de falhas geológicas. Essas estruturas permitem a ascensão de águas subterrâneas aquecidas das profundezas da Terra, elevando a temperatura do rio em diferentes áreas.

O geocientista peruano Andrés Ruzo realizou medições no local e identificou trechos próximos ao ponto de ebulição. Segundo os registros mais recentes, partes do rio apresentaram temperaturas superiores a 90°C, com ocorrência de fervura em alguns locais.

Os riscos para quem entra em contato com a água são imediatos. Ao portal The Sun, Ruzo afirmou que "você coloca a mão dentro e verá queimaduras de segundo ou terceiro grau em questão de segundos".

O calor extremo também afeta a fauna local. De acordo com o pesquisador, animais que caem no rio raramente conseguem escapar. Ele relatou que "a primeira coisa a se perder são os olhos" e que eles tentam nadar para fora, mas "a carne vai cozinhando nos ossos porque está muito quente".

Monitoramento Científico Revela Impactos Na Vegetação

Pesquisadores dos Estados Unidos e do Peru acompanharam a região durante um período de um ano. Em 2024, o grupo instalou 13 sensores ao longo do Shanay-timpishka para medir a temperatura do ar em diferentes pontos do entorno.

Os resultados mostraram diferenças significativas entre as áreas próximas ao rio e os locais mais afastados. As regiões mais amenas registraram temperatura média de 24°C, enquanto os pontos mais quentes alcançaram quase 45°C.

A elevação da temperatura também influencia a composição da floresta. As análises realizadas em parcelas próximas ao rio indicaram redução da diversidade vegetal conforme o calor aumenta.

Nesse ambiente, algumas espécies tornam-se menos frequentes, enquanto plantas mais adaptadas às altas temperaturas passam a predominar. A pesquisadora Alyssa Kullberg, do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, afirmou à BBC que, apesar da umidade presente na região, "a vegetação parecia bem mais seca" nos locais mais aquecidos.

Rio Serve Como Referência Para Estudos Sobre Mudanças Climáticas

Cientistas utilizam o Shanay-timpishka como um ambiente natural para investigar os efeitos do aquecimento global. Observações realizadas na área apontam sinais de estresse térmico na vegetação e redução da presença de determinadas espécies nos trechos mais quentes.

Mesmo em áreas com disponibilidade de água, o excesso de calor pode comprometer processos biológicos essenciais das plantas. Rodolfo Nóbrega, da Universidade de Bristol, explicou à BBC que, quando a temperatura aumenta, "mesmo se houver disponibilidade de água [por perto], a capacidade de fotossíntese das plantas pode diminuir".

Os pesquisadores destacam que a resposta ao calor varia entre as espécies. Árvores do gênero Ceiba apresentam maior resistência às temperaturas elevadas, enquanto a Guarea grandifolia demonstra maior sensibilidade às condições extremas.

Para comunidades amazônicas, o rio possui caráter sagrado. Chris Boulton, da Universidade de Exeter, afirmou à BBC que, caso ocorra perda significativa da cobertura florestal, "muito do carbono vai para a atmosfera e isso vai afetar o clima. Não é apenas local, é global".

Acompanhe tudo sobre:CuriosidadesMudanças climáticas

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