Borboletas: descoberta pode transformar esses insetos em um novo modelo para pesquisas sobre envelhecimento saudável (AFP Photo)
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Publicado em 4 de julho de 2026 às 06h52.
Uma das maiores perguntas da biologia é entender por que alguns seres vivos envelhecem mais lentamente do que outros. Agora, uma pesquisa liderada pela Universidade de Bristol em parceria com o Smithsonian Tropical Research Institute, no Reino Unido, encontrou uma resposta surpreendente em um grupo de borboletas tropicais.
O estudo, publicado na revista científica Nature Communications em junho, revelou que espécies do gênero Heliconius conseguem viver muito mais tempo do que seus parentes próximos e apresentam sinais reduzidos de envelhecimento.
A maioria das borboletas adultas vive apenas algumas semanas. As espécies analisadas pelos pesquisadores, porém, desafiam esse padrão.
Segundo a pesquisa, algumas borboletas do grupo Heliconius vivem, em média, três vezes mais do que espécies aparentadas. Em casos extremos, indivíduos chegaram perto de completar um ano de vida. Uma das comparações mais impressionantes envolveu a espécie Heliconius hewitsoni, que alcançou 348 dias de vida, enquanto a espécie Dione juno viveu apenas 14 dias.
Para chegar às conclusões, os cientistas reuniram dados de borboletários, estudos de captura e recaptura na natureza e experimentos controlados em laboratório.
A descoberta não se limitou à longevidade. Os pesquisadores também identificaram que algumas dessas borboletas parecem envelhecer mais devagar. Em testes que avaliaram a força física dos insetos, indivíduos mais velhos de Heliconius hecale não apresentaram a deterioração normalmente observada em animais envelhecidos. Já espécies aparentadas e de vida mais curta mostraram perda gradual de desempenho com a idade.
A principal autora do estudo, a pesquisadora Jessica Foley, destacou a singularidade do fenômeno. "Heliconius estão entre as borboletas mais longevas, mas o que as torna particularmente notáveis é que elas parecem ter evoluído não apenas vidas mais longas, mas também um envelhecimento mais lento", afirmou a cientista.
Uma das hipóteses investigadas pelos pesquisadores envolve a dieta dessas borboletas. Diferentemente da maioria das espécies, que se alimentam basicamente de néctar, as Heliconius também consomem pólen na fase adulta. Esse comportamento é extremamente raro entre borboletas e fornece nutrientes como proteínas e aminoácidos que podem contribuir para sua sobrevivência prolongada.
Os experimentos mostraram que indivíduos privados de pólen tiveram redução de cerca de 25% na expectativa de vida. Ainda assim, continuaram vivendo mais do que espécies próximas que não possuem esse hábito alimentar, sugerindo que a longevidade resulta de uma combinação entre dieta e adaptações evolutivas.
Para os pesquisadores, a descoberta abre uma nova frente de investigação sobre os mecanismos biológicos do envelhecimento. "O aspecto mais empolgante dessa extensão da vida é que ela oferece uma oportunidade poderosa para identificar os mecanismos que sustentam a longevidade", explicou Foley. "Ao comparar as Heliconius de vida longa com seus parentes de vida curta, temos um experimento evolutivo natural."