Ciência

Naufrágio de 4.500 anos pode ser o mais antigo do mundo

Cerâmicas encontradas na costa da Turquia podem revelar pistas sobre antigas rotas comerciais do Mediterrâneo na época das pirâmides

Naufrágio: embarcação teria navegado pelo Mediterrâneo na mesma época em que as pirâmides do Egito eram construídas (Hakan Öniz)

Naufrágio: embarcação teria navegado pelo Mediterrâneo na mesma época em que as pirâmides do Egito eram construídas (Hakan Öniz)

Publicado em 28 de outubro de 2026 às 08h58.

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Um naufrágio de aproximadamente 4.500 anos, encontrado na costa da Turquia, pode ser o mais antigo já identificado no mundo. A descoberta ocorreu em águas rasas próximas a Kekova e pode ajudar a compreender as rotas comerciais do Mediterrâneo durante a Idade do Bronze.

Embora a embarcação de madeira não tenha sobrevivido, arqueólogos encontraram recipientes de cerâmica que permitiram estimar a data do naufrágio entre 2700 e 2400 a.C., período próximo à construção das pirâmides de Gizé, no Egito.

A descoberta foi apresentada pela arqueóloga Karin Sowada, da Universidade Macquarie, na Austrália, em um artigo publicado no The Conversation. A datação ainda é preliminar, e os resultados não foram publicados em uma revista científica com revisão por pares.

Descoberta na Turquia pode superar naufrágio de 4.200 anos

Os vestígios foram localizados em 2024, perto de Kekova, a oeste de Antalya, na costa sul da Turquia. A descoberta foi realizada pelo arqueólogo Hakan Öniz, da Universidade Akdeniz, após informações fornecidas por marinheiros locais.

No início de 2026, Öniz convidou Karin Sowada para ajudar na identificação e datação dos recipientes encontrados no local. A equipe estima que o navio tenha naufragado entre 2700 e 2400 a.C., mas ressalta que a cronologia ainda precisa ser confirmada.

Caso a estimativa seja validada, a embarcação poderá superar o naufrágio de Dokos, encontrado na costa da Grécia e considerado, até então, o mais antigo conhecido, com aproximadamente 4.200 anos.

O que os arqueólogos encontraram no fundo do mar?

O principal conjunto de vestígios é formado por grandes recipientes de cerâmica utilizados para armazenar e transportar mercadorias.

Os vasos apresentam formato oval, base plana e duas alças. Muitos possuem uma faixa horizontal de argila em relevo ao redor da parte mais larga. Essas características ajudam os pesquisadores a identificar a possível origem dos objetos e estimar quando foram fabricados.

Segundo Sowada, a cerâmica também fornece pistas sobre o comércio marítimo no Mediterrâneo oriental durante o terceiro milênio antes de Cristo.

Os recipientes permaneceram presos às rochas submersas ao longo da costa de Kekova. Mergulhadores trabalharam durante quatro meses para retirar os materiais incrustados no local.

A equipe também identificou resíduos visíveis dentro dos jarros, mas ainda não determinou sua composição. Entre as possibilidades investigadas estão azeite, vinho e resina de árvores, produtos comercializados na região naquele período.

Como o navio pode ter afundado há 4.500 anos?

Os pesquisadores acreditam que a embarcação navegava pela costa sul da Turquia quando ocorreu o naufrágio. Os vestígios estão localizados entre duas ilhas, em uma área onde o navio pode ter buscado abrigo durante uma tempestade.

Uma das hipóteses é que a embarcação tenha se chocado contra rochas enquanto tentava alcançar águas protegidas. Entretanto, não há confirmação sobre as circunstâncias do acidente, a direção da viagem ou a origem dos tripulantes.

A exposição prolongada à água também impediu a preservação visível da estrutura de madeira do navio.

O que a descoberta revela sobre o comércio no Mediterrâneo?

O naufrágio pode ajudar a esclarecer como funcionavam as redes de comércio marítimo há cerca de 4.500 anos. Nesse período, os antigos egípcios já mantinham relações comerciais com outras regiões do Mediterrâneo oriental, incluindo o porto de Biblos, no atual Líbano.

Entre os produtos importados pelo Egito estavam cedro, metais, óleos, resinas, lápis-lazúli e prata. Uma pesquisa publicada no Journal of Archaeological Science: Reports identificou que a prata adquirida pelo Estado egípcio por volta de 2600 a.C. tinha origem em minas de Lavrion, na região da atual Atenas.

Embora não haja evidências de que o navio encontrado em Kekova transportasse esses materiais, os pesquisadores consideram possível que embarcações semelhantes participassem de redes comerciais que conectavam diferentes regiões.

A análise preliminar dos jarros também sugere que alguns recipientes, ou a argila utilizada em sua fabricação, podem ter origem no Vale Central do Jordão. Para a equipe, a descoberta representa uma oportunidade de investigar as conexões marítimas do Mediterrâneo oriental durante um período ainda pouco conhecido.

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