Eclipses: observação feita na China antiga permitiu reconstruir como a Terra girava há milhares de anos (George Pachantouris/Getty Images)
Redatora
Publicado em 26 de outubro de 2026 às 18h40.
Um eclipse solar total ocorrido há mais de 2.700 anos ajudou cientistas a obter informações mais precisas sobre a rotação da Terra. A descoberta foi possível após pesquisadores corrigirem um erro de apenas oito quilômetros na localização de uma antiga cidade chinesa.
O fenômeno, registrado em 17 de julho de 709 a.C., foi reconstruído por uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão. O estudo, publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters, também encontrou possíveis pistas sobre a atividade do Sol naquela época.
Ao combinar registros históricos, evidências arqueológicas e cálculos astronômicos, os pesquisadores conseguiram determinar como o eclipse teria sido observado na antiga capital do Ducado de Lu, na China.
O eclipse foi registrado nos Anais da Primavera e do Outono, uma crônica chinesa compilada aproximadamente 200 a 300 anos após o fenômeno.
Apesar da antiguidade do relato, havia uma inconsistência: os cálculos astronômicos indicavam que o eclipse total não deveria ter sido visível da localização atribuída à antiga cidade de Qufu.
Para investigar a diferença, os cientistas recorreram a documentos geográficos e relatórios de escavações arqueológicas. A análise mostrou que estudos anteriores haviam situado a cidade cerca de oito quilômetros distante de sua localização real.
Com as coordenadas corrigidas, a equipe conseguiu reconstruir a trajetória do eclipse e estabelecer estimativas mais precisas sobre a velocidade de rotação da Terra naquele período.
A descoberta também permitiu calcular a orientação do eixo de rotação do Sol e simular a possível aparência de sua atmosfera externa durante o fenômeno.
A rotação da Terra não permanece constante ao longo do tempo. Em períodos muito extensos, o planeta apresenta uma desaceleração gradual, parcialmente associada ao atrito provocado pelas marés oceânicas sob influência gravitacional da Lua.
Isso significa que a Terra girava um pouco mais rápido em 709 a.C. do que atualmente. A partir da reconstrução do eclipse, os pesquisadores estimaram um intervalo de 20.264 a 21.204 segundos para o delta T (ΔT), medida utilizada para analisar diferenças entre a rotação terrestre e uma escala uniforme de tempo.
Os resultados ajudam a restringir as estimativas sobre a rotação do planeta entre os séculos VIII e VI a.C. Segundo Mitsuru Sôma, do Observatório Astronômico Nacional do Japão e coautor do estudo, a correção das coordenadas também permite melhorar a datação e a reconstrução de outros fenômenos astronômicos históricos.
Além de fornecer informações sobre a Terra, o registro chinês pode ajudar a compreender o comportamento do Sol há mais de 2.700 anos. Uma passagem preservada no Hanshu, conhecido como Livro de Han, descreve o Sol eclipsado como completamente amarelo nas partes superior e inferior.
O documento foi escrito cerca de sete séculos depois do eclipse, mas os pesquisadores consideram a possibilidade de que a descrição faça referência à coroa solar, camada externa da atmosfera do Sol que pode ser observada durante eclipses totais. Se essa interpretação estiver correta, o relato representaria uma das descrições escritas mais antigas da coroa solar preservadas até hoje.
A possível aparência dessa estrutura sugere que o Sol havia retomado uma fase de maior atividade após um longo período de redução de sua atividade magnética. Esse intervalo, conhecido como Grande Mínimo Neoassírio ou Homeriano, ocorreu aproximadamente entre 808 e 717 a.C., pouco antes do eclipse.
Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que a interpretação não é definitiva, já que a descrição da coroa solar aparece em um documento produzido séculos depois do fenômeno.
Uma das principais formas de reconstruir a atividade antiga do Sol é analisar o radiocarbono preservado nos anéis de crescimento das árvores.
Durante a fotossíntese, as árvores absorvem carbono da atmosfera, incluindo pequenas quantidades de radiocarbono. Parte desse material permanece registrada nos anéis formados a cada ano.
A concentração desse elemento é influenciada pelos raios cósmicos que atingem a atmosfera terrestre. Quando a atividade magnética solar aumenta, geralmente menos raios cósmicos chegam à Terra, alterando a produção de radiocarbono.
Essas variações permitem investigar mudanças na atividade do Sol muito antes do desenvolvimento dos instrumentos modernos de observação. Normalmente, o Sol apresenta ciclos de aproximadamente 11 anos, com períodos de aumento e diminuição das manchas solares e da atividade magnética.
Segundo os pesquisadores, a possível descrição da coroa solar em 709 a.C. é compatível com reconstruções anteriores que indicam a retomada da atividade solar após o Grande Mínimo Neoassírio.
A análise sugere que o Sol poderia estar próximo do pico de um desses ciclos, mas a incerteza sobre o registro histórico impede uma conclusão definitiva.
Na China antiga, fenômenos celestes como eclipses e auroras eram frequentemente interpretados como presságios relacionados ao poder político. Por esse motivo, diferentes dinastias mantinham especialistas responsáveis por acompanhar e documentar acontecimentos no céu.
Essa prática permitiu preservar observações que hoje ajudam cientistas a reconstruir fenômenos ocorridos há milhares de anos. No caso do eclipse de 709 a.C., o registro é considerado o relato escrito explícito mais antigo de um eclipse solar total que pode ser datado com segurança.
Ao associar essas informações a métodos astronômicos modernos, os pesquisadores conseguiram recuperar dados sobre a rotação terrestre e investigar possíveis características da atividade solar na Antiguidade.