Cães: pesquisadores estudam intervenções que possam contribuir para uma vida mais longa e saudável dos animais (Freepik)
Redatora
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 15h36.
A busca por tratamentos capazes de aumentar a longevidade dos animais de estimação está atraindo universidades e empresas de biotecnologia. Entre as estratégias investigadas estão terapias genéticas, medicamentos para doenças associadas ao envelhecimento e mudanças na alimentação.
Esse interesse foi destaque na primeira Cúpula sobre Longevidade Animal, realizada neste mês de outubro, em Toronto, no Canadá. O encontro reuniu cientistas e representantes da indústria para discutir pesquisas voltadas à saúde de cães e gatos.
Segundo uma reportagem publicada na revista Nature, o movimento acompanha a expansão dos investimentos em pesquisas sobre o envelhecimento humano.
Uma das estratégias em desenvolvimento é o uso de terapias genéticas para tratar doenças relacionadas ao envelhecimento. A empresa americana Rejuvenate Bio trabalha em um tratamento para a doença da válvula mitral, considerada a doença cardíaca mais comum em cães.
O objetivo inicial é combater essa condição. No futuro, a companhia pretende investigar se a mesma terapia pode ser utilizada contra síndromes metabólicas e contribuir para a longevidade.
Outra empresa, a Genflow Biosciences, da Bélgica, desenvolve uma terapia genética para reduzir a sarcopenia, condição caracterizada pela perda de massa muscular. O projeto também busca aumentar a expectativa de vida dos cães, embora os resultados ainda precisem demonstrar essa possibilidade.
Segundo Eric Leire, fundador da Genflow, a empresa pretende negociar o tratamento com uma companhia maior de saúde animal caso a tecnologia demonstre eficácia. Os recursos poderiam financiar estudos da mesma abordagem em humanos.
As iniciativas de longevidade animal também incluem tratamentos específicos para felinos. A Cat Health Company, sediada na Romênia, investiga medicamentos para condições associadas ao avanço da idade, como sarcopenia e doenças renais.
Segundo Alex Băciţa, cofundador da empresa, dois compostos estão em ensaios clínicos, enquanto outros permanecem em desenvolvimento. Além de novos medicamentos, parte da indústria aposta em mudanças na alimentação, incluindo formulações com probióticos.
Há também empresas que investigam a adaptação de medicamentos já aprovados para humanos, em vez de desenvolver substâncias inteiramente novas.
O crescimento das pesquisas acompanha a expansão dos investimentos em saúde animal. De acordo com Cameron Hurlburt, analista da empresa de capital de risco Ani VC, o mercado americano de saúde animal é estimado em US$ 150 bilhões.
O setor pode crescer à medida que mais tutores contratam planos de saúde para seus animais, segundo o analista. Esse interesse também abre possibilidades de financiamento para pesquisadores universitários.
Noah Snyder-Mackler, da Universidade Estadual do Arizona, explicou à Nature que os recursos governamentais para estudos com cães costumam priorizar benefícios para a saúde humana. Por isso, a colaboração com empresas pode ajudar a financiar pesquisas voltadas diretamente ao tratamento dos animais.
Snyder-Mackler participa do Projeto de Envelhecimento Canino, iniciativa científica dedicada a investigar o processo de envelhecimento dos cachorros.
Uma das propostas mais controversas desse mercado envolve a criopreservação de animais de estimação. O procedimento consiste em preservar material biológico em temperaturas extremamente baixas, com a expectativa de que tecnologias futuras permitam sua recuperação.
A empresa americana Cryopets afirma ter aproximadamente 12 mil tutores em sua lista de espera. Segundo o fundador Kai Micah Mills, a criopreservação de um gato custa, em média, US$ 10 mil. Para cães de grande porte, o valor pode ultrapassar US$ 50 mil.
Apesar do interesse comercial, nenhum animal de estimação ou ser humano foi ressuscitado após passar por criopreservação. A pesquisadora Vera Gorbunova, da Universidade de Rochester, relatou à Nature que algumas discussões sobre o procedimento chamaram sua atenção durante a conferência.
As propostas mostram diferentes caminhos investigados pela indústria da longevidade animal. Entretanto, tanto os tratamentos genéticos quanto as estratégias de preservação ainda enfrentam desafios científicos antes de demonstrar os resultados pretendidos.