Nicotina: estratégia já foi estudada por instituições acadêmicas (Freepik)
Repórter
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 14h58.
Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 15h00.
O Laboratório Cristália, o mesmo envolvido nos testes da polilaminina, está desenvolvendo uma vacina contra a dependência de nicotina.
A proposta é diferente dos tratamentos disponíveis contra o tabagismo, que buscam substituir a nicotina ou reduzir os sintomas da abstinência.
A vacina pretende estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar à nicotina no sangue e impedir que a substância atravesse a barreira hematoencefálica e chegue ao cérebro.
A nicotina normalmente chega rapidamente ao cérebro, onde ativa receptores nicotínicos de acetilcolina e favorece a liberação de dopamina, ligada à sensação de prazer e ao sistema de recompensa.
Segundo Ogari Pacheco, fundador e presidente do Conselho Diretivo do Cristália e idealizador do projeto, a intenção da vacina é interromper esse mecanismo.
“Uma vez vacinado, se o paciente fumar, os anticorpos capturariam a nicotina ainda na corrente sanguínea, impedindo-a de atravessar a barreira hematoencefálica”, explica Pacheco.
O projeto, iniciado em maio de 2024, está atualmente na fase Early Discovery, etapa inicial de pesquisa que envolve a seleção de protótipos e testes de prova de conceito em modelos animais.
A estratégia já foi estudada por instituições acadêmicas e empresas farmacêuticas nos Estados Unidos e na Europa. Um dos principais exemplos foi a NicVAX, desenvolvida pela Nabi Biopharmaceuticals. A candidata chegou à fase 3 de testes clínicos, mas os resultados divulgados em 2011 mostraram que ela não foi mais eficaz do que o placebo em larga escala. O programa foi encerrado posteriormente.
Segundo o Cristália, os antígenos sintéticos desenvolvidos pela Farmoquímica Oncológica do laboratório já demonstraram, em testes com animais, capacidade de induzir a produção de anticorpos específicos e impedir o comportamento aditivo.
Marcelo Camargo/Agência Brasil (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A empresa ainda está reunindo dados sobre a estrutura química e a eficácia dos compostos para solicitar uma patente. A publicação científica dos resultados deverá ocorrer somente depois dessa etapa.
Apesar dos resultados iniciais relatados pelo laboratório, a vacina ainda está distante de uma eventual aprovação. Antes de um pedido de registro à Anvisa, serão necessários estudos pré-clínicos completos de segurança, desenvolvimento farmacotécnico, escalonamento industrial e ensaios clínicos em humanos, divididos em diferentes fases. Caso avance, a previsão é que uma eventual vacina não esteja disponível antes de uma década.
O próprio Cristália afirma que a tecnologia não pretende substituir os tratamentos existentes, mas complementá-los. A ideia é reduzir o efeito prazeroso associado à nicotina e, com isso, ajudar a evitar recaídas.
A busca por novas estratégias acontece em um cenário de alta dependência do tabaco. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco está relacionado a cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo, incluindo aproximadamente 1,3 milhão decorrentes do fumo passivo.
Dados do National Institute on Drug Abuse (NIDA), dos Estados Unidos, indicam que cerca de 85% das pessoas que tentam parar de fumar recaem no primeiro ano, enquanto dois terços voltam ao cigarro nas duas primeiras semanas.