Carreira

‘IA não é ferramenta, é modelo mental’: como essa lógica mudou as decisões da VP da Compass

Antes de pensar em ferramentas, Letícia Grossi passou a levar tecnologia em conta desde o início de toda decisão de estrutura, função ou contratação

Letícia Grossi, VP de Pessoas e Cultura na Compass

Letícia Grossi, VP de Pessoas e Cultura na Compass

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 14h22.

Priorizar nos meus resultados Google

Letícia Grossi lembra o momento exato em que sua carreira mudou de direção. Não foi um cargo específico, nem uma empresa — foi uma mudança de lente. 

"O principal divisor de águas foi quando eu deixei de me ver apenas como uma profissional de RH e passei a me posicionar como uma executiva de negócio que usa o olhar de Pessoas para ajudar a companhia a entregar sua estratégia", diz a VP de Pessoas e Cultura na Compass.

Essa mudança de perspectiva orienta hoje sua atuação à frente da área de Pessoas e Cultura da companhia. Foi também o que a levou, mais recentemente, a cursar o PIACC, Programa de Inteligência Artificial para C-levels, Conselheiros e Acionistas, da Saint Paul Escola de Negócios. Não para se tornar especialista em tecnologia, mas para incorporar a inteligência artificial ao repertório de decisão de uma executiva.

Da técnica ao negócio

Com experiência em mudança organizacional, treinamento e desenvolvimento, planejamento de carreira e sucessão, mobilidade global, diversidade e inclusão, recrutamento, relações sindicais, remuneração e benefícios, Grossi construiu a carreira em empresas de diferentes portes, de startups a companhias internacionais.

"Acho difícil escolher um único momento. Minha carreira foi construída pela diversidade de experiências. Cada uma delas ampliou meu repertório e minha forma de enxergar as organizações", afirma.

Para ela, não existe uma estratégia de RH isolada. Existe uma estratégia de negócio e, a partir dela, se desenha a estratégia de pessoas para aquela realidade: qual organização é preciso ter, quais capacidades desenvolver, qual cultura fortalecer e quais lideranças vão guiar essa ambição. O repertório técnico continua importante, diz, mas passa a estar a serviço da estratégia da companhia.

Por que uma executiva de RH foi estudar inteligência artificial

Grossi decidiu fazer o PIACC quando percebeu que a inteligência artificial já não podia mais ser tratada como um tema restrito à tecnologia. A transformação alcançava modelos de negócio, estruturas e a própria dinâmica do trabalho, e ela queria entender qual deveria ser seu papel diante dessa mudança.

O programa trouxe ferramentas que otimizaram sua produtividade, mas esse não foi, segundo ela, o maior ganho do curso. "O principal ganho foi uma mudança de modelo mental. Hoje, ao tomar uma decisão de negócio ou de estrutura, a tecnologia e a IA já fazem parte do meu repertório de forma mais natural, desde o início da tomada de decisão", diz.

"Eu não fui fazer o PIACC para me tornar especialista em inteligência artificial. Fui para me tornar uma executiva mais preparada para tomar decisões e liderar em um mundo que está sendo transformado por ela"Letícia Grossi, VP de Pessoas e Cultura na Compass

Além da produtividade: repensar papéis e estruturas

O que mais provocou Grossi ao longo do curso, diz, foi entender a dimensão do impacto da IA no trabalho e nas organizações. É comum, segundo ela, que a discussão sobre inteligência artificial comece pela produtividade: automatizar uma tarefa, acelerar um processo. Isso é relevante, mas é só a primeira camada.

O curso a fez olhar de outra forma para pessoas, estruturas e funções. Se a tecnologia muda a maneira como certas atividades são realizadas, é preciso repensar quais competências serão críticas no futuro, como os papéis se reconfiguram e como o trabalho se reorganiza. 

Isso envolve uma agenda de reskilling e upskilling, mas vai além: muda o que se espera das lideranças e pode até gerar novos modelos de negócio.

Na prática, diz Grossi, o valor do curso não está em uma lista de ferramentas para aplicar no dia seguinte, algo que envelheceria rápido. Está em ter incorporado a IA ao processo de decisão. 

"Hoje, quando discutimos uma estrutura, uma função ou uma nova contratação, eu me provoco a pensar: estamos desenhando isso para a realidade de hoje ou considerando como esse trabalho poderá ser feito daqui para frente?", diz.

Para ela, esse é o valor de uma formação executiva: não sair com respostas prontas, mas voltar fazendo perguntas melhores e tomando decisões mais criteriosas, sem perder de vista o futuro.

RH também precisa viver a mudança

Grossi costuma dizer que o RH não pode ser apenas o arquiteto da mudança para os outros: também precisa saber viver a mudança. Isso começa, na avaliação dela, por clareza e contexto. 

Em momentos de transformação, ela busca conversar com o time sobre o que está mudando, por que está mudando, o que isso exige e também sobre o que ainda não se sabe. A liderança nem sempre tem todas as respostas, mas precisa ajudar as pessoas a entenderem para onde a companhia está indo.

A inteligência artificial é um exemplo disso. É natural que uma transformação dessa dimensão gere curiosidade e também insegurança, diz. Para ela, seria pouco verdadeiro afirmar que nada vai mudar: o papel da liderança é ajudar as pessoas a entender a transformação, experimentar e desenvolver novas capacidades.

Gestão de mudança, segundo Grossi, não significa buscar consenso para tudo. Há momentos em que liderar significa tomar decisões difíceis ou impopulares. O importante é que as pessoas entendam o contexto, a direção e o motivo daquela decisão, mesmo quando discordam. E existe uma cobrança adicional para quem trabalha com Pessoas: se a intenção é ajudar a organização a se transformar continuamente, é preciso estar disposto a se transformar primeiro.

O conselho para quem começa

Questionada sobre o que recomendaria a profissionais no início da carreira em RH, Grossi cita três características: curiosidade pelo negócio, humildade para aprender e evoluir continuamente, e capacidade de construir relações de confiança.

É possível ter uma excelente formação técnica em RH, diz, mas quem quer ocupar uma posição executiva precisa genuinamente entender como a empresa funciona: como ganha dinheiro, quem são seus clientes, onde estão os riscos, quais são as grandes escolhas estratégicas e o que tira o sono da liderança.

Ela também recomenda não ter pressa de construir uma carreira perfeita. Algumas das experiências que mais a desenvolveram não pareciam, no momento em que aconteceram, o próximo passo óbvio. Ter vivido experiências diferentes, diz, deu a ela repertório para olhar um mesmo problema por perspectivas distintas e lidar com eles com mais maturidade.

"Busque experiências, se exponha a problemas novos, trabalhe com pessoas que te desafiem e tenha coragem de sair do território em que você já se sente competente", diz. "E, por fim, construa relações de confiança que façam a jornada valer a pena. Não tem nada melhor do que trabalhar com pessoas boas e que também sejam boas pessoas", finaliza.

A trajetória de Grossi passa pelo PIACC, da Saint Paul Escola de Negócios, o programa que a levou a incorporar inteligência artificial ao processo de decisão sobre estrutura, papéis e lideranças, os mesmos temas que atravessam sua fala nesta entrevista. Voltado a C-levels, conselheiros e acionistas, o curso tem 93 horas de duração, aulas mensais às quartas e quintas. Garanta sua vaga

Acompanhe tudo sobre:Branded MarketingPIACCHigh Impact Programs

Mais de Carreira

Na Siemens, RH ganha novo papel com avanço da empresa para a tecnologia

Brasileiros aceleram networking: como transformar conexões em oportunidades, segundo LinkedIn

IA no processo seletivo: 5 erros que podem fazer um bom currículo perder força

Formação profissional ganha força na disputa por talentos