Repórter
Publicado em 23 de junho de 2026 às 15h10.
O fungo responsável pela esporotricose, doença comumente associada à transmissão entre gatos e caracterizada por lesões cutâneas graves, foi identificado em órgãos internos de animais silvestres. O estudo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), foi publicado em março na revista científica Mycopathologia.
Foram identificadas três espécies do gênero Sporothrix, incluindo a Sporothrix brasiliensis, endêmica do Brasil. Também foram detectadas S. globosa e S. schenckii, sendo esta última a mais recorrente, com presença registrada em aves e mamíferos.
Os achados indicam que animais silvestres podem atuar como possíveis reservatórios desses fungos, que atingem animais domésticos e podem ser transmitidos a humanos, afetando a pele e, em casos mais graves, o sistema linfático.
“Não foi possível saber se os fungos estavam em sua forma patogênica nos animais silvestres, mas é evidente que estão circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal”, diz Anderson Messias Rodrigues, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e coordenador do estudo, no artigo.
Rodrigues coordena o projeto “Epidemiologia molecular e perspectivas genômicas na evolução e propagação de patógenos fúngicos emergentes”, financiado pela FAPESP.
Segundo os pesquisadores, não foi realizada a análise histopatológica para confirmação de infecção ativa, mas foi possível detectar material genético do fungo em órgãos como fígado e coração, o que sugere circulação interna do microrganismo.
“Não pudemos realizar a histopatologia para confirmar a infecção, o que pode ser feito em futuros estudos. No entanto, conseguimos detectar o DNA do fungo nos tecidos internos, como fígado e coração, o que é um indício de que ele está circulando no organismo. Além disso, só foram avaliados órgãos anatomicamente íntegros e não expostos ao ambiente, o que poderia ser uma fonte de contaminação”, explica Steffanie Skau Amadei, primeira autora do estudo, que realiza doutorado na Universidade McGill, no Canadá.
As análises ocorreram durante estágio de Amadei no Laboratório de Patógenos Fúngicos Emergentes da EPM-Unifesp, sob coordenação de Rodrigues. O diagnóstico foi possível graças a um ensaio molecular desenvolvido pelo grupo com apoio da FAPESP, capaz de identificar e diferenciar espécies emergentes de Sporothrix com rapidez.
Um dos pontos destacados pelo estudo é a maior ocorrência de casos em áreas de transição entre ambientes nativos, rurais e urbanos, onde há maior interação entre fauna silvestre e animais domésticos.
Esse cenário reforça a expansão da presença do fungo em novos hospedeiros e aponta para mudanças na dinâmica ambiental associadas à ação humana.
“Estamos presenciando a emergência do Sporothrix em novos hospedeiros. O estudo abre uma avenida para novas pesquisas ao mostrar que os reservatórios do fungo estão muito além dos animais domésticos. A pressão humana sobre o ambiente está diluindo as fronteiras do que é rural, urbano e silvestre”, afirma Rodrigues.
O trabalho também sugere o uso de animais atropelados como ferramenta de vigilância epidemiológica, dentro do conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental. No Brasil, estima-se que cerca de 1,3 milhão de animais silvestres morram atropelados diariamente, totalizando mais de 475 milhões por ano.
As amostras foram coletadas logo após atropelamentos em rodovias do Paraná, no contexto de um projeto de monitoramento de zoonoses em fauna silvestre conduzido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2016, com participação de instituições como a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e o Centro Médico Universitário de Utrecht, nos Países Baixos.
Os animais foram registrados entre 2017 e 2023 em trechos da BR-376, que conecta Paraná e Santa Catarina, e da PR-445, em áreas de Mata Atlântica, Campos Gerais e regiões rurais. No total, foram analisadas 178 amostras de tecidos de 81 animais, incluindo mamíferos, aves e répteis.
O DNA de Sporothrix foi detectado em 11 animais, com maior frequência em tecidos de coração e fígado, o que pode indicar infecção sistêmica ou condição de reservatório.
A espécie S. schenckii foi a mais prevalente, identificada em diferentes grupos animais, incluindo aves, mamíferos e um réptil, a cobra-coral-falsa (Oxyrhopus spp.). Entre os mamíferos analisados, estava o gato-do-mato-do-sul (Leopardus guttulus), espécie ameaçada de extinção.
A Sporothrix brasiliensis, associada à maioria dos casos humanos no Brasil, foi encontrada em aves. Já S. globosa apareceu em cutias, aves e répteis. Em alguns casos, houve detecção simultânea de mais de uma espécie fúngica no mesmo animal.
Segundo os pesquisadores, há um desafio histórico na compreensão da resistência de aves a fungos patogênicos, especialmente devido à temperatura corporal elevada, mas os resultados indicam que esses microrganismos conseguem sobreviver mesmo nesse ambiente fisiológico.