Mulheres: descoberta revela diferenças genéticas que podem influenciar a resposta imunológica (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 20 de agosto de 2026 às 20h53.
As mulheres desenvolvem doenças autoimunes com muito mais frequência do que os homens. Um estudo liderado pelo Instituto Garvan de Pesquisa Médica, em parceria com a UNSW Sydney, identificou mais de 1.000 alterações genéticas que influenciam o funcionamento das células do sistema imunológico e podem ajudar a explicar por que o sexo feminino são mais suscetíveis a doenças como o lúpus.
Os resultados foram publicados no The American Journal of Human Genetics. A pesquisa indicam que o sistema imunológico feminino é geneticamente mais preparado para desencadear respostas inflamatórias. Embora essa característica possa oferecer maior proteção contra infecções, também aumenta o risco de o organismo atacar tecidos saudáveis, favorecendo o desenvolvimento de doenças autoimunes.
Para investigar as diferenças entre homens e mulheres, os cientistas analisaram mais de 1,25 milhão de células imunológicas obtidas de quase 1.000 adultos saudáveis participantes do projeto australiano OneK1K, que estuda como a genética influencia o funcionamento das células do sistema imunológico.
Utilizando técnicas de análise em célula única, a equipe identificou mais de mil "interruptores genéticos" — regiões do DNA que regulam a intensidade com que determinados genes são ativados — que atuam de forma diferente em homens e mulheres.
Segundo os pesquisadores, esse é o maior estudo já realizado para analisar diferenças imunológicas entre os sexos com esse nível de detalhamento.
A análise mostrou diferenças importantes na composição e na atividade das células imunológicas. Nos homens, foram observadas proporções maiores de monócitos, células responsáveis pela resposta inicial contra ameaças, além de uma atividade genética mais relacionada à manutenção celular e à produção de proteínas.
Já nas mulheres, os pesquisadores encontraram maior quantidade de linfócitos B e células T reguladoras, além de uma atividade significativamente mais intensa em vias ligadas à inflamação.
Segundo a coautora do estudo, Sara Ballouz, esse perfil imunológico oferece uma vantagem no combate a infecções virais, mas cobra um preço biológico ao aumentar a predisposição a doenças autoimunes. Em contrapartida, sistemas imunológicos menos inflamatórios podem contribuir para que os homens sejam mais vulneráveis a infecções e a alguns tipos de câncer não relacionados ao sistema reprodutor.
Uma das principais descobertas do estudo foi que essas diferenças genéticas não estão concentradas nos cromossomos X e Y, como muitos cientistas imaginavam. A maior parte dos mais de 1.000 interruptores genéticos identificados está localizada nos autossomos, cromossomos presentes tanto em homens quanto em mulheres.
Segundo os autores, isso indica que as diferenças entre os sistemas imunológicos masculino e feminino dependem de mecanismos genéticos mais complexos do que se acreditava.
A equipe também encontrou variantes genéticas que aumentam, principalmente nas mulheres, a atividade de dois genes associados ao lúpus eritematoso sistêmico.
A descoberta ajuda a explicar por que a doença afeta cerca de nove mulheres para cada homem, embora os pesquisadores ressaltem que fatores hormonais e ambientais também influenciam esse risco.
Segundo o estudo, essas alterações genéticas parecem estabelecer uma base biológica que torna algumas pessoas mais suscetíveis ao desenvolvimento de doenças autoimunes.
Os pesquisadores afirmam que os resultados reforçam a necessidade de considerar o sexo biológico no desenvolvimento de terapias para doenças autoimunes.
Hoje, a maior parte dos tratamentos reduz a atividade de todo o sistema imunológico. Com uma compreensão mais detalhada das diferenças genéticas entre homens e mulheres, poderá ser possível desenvolver terapias mais direcionadas e compatíveis com o perfil imunológico de cada paciente.
Os autores também destacam que muitos estudos biomédicos historicamente utilizaram predominantemente participantes do sexo masculino, o que pode limitar a compreensão das diferenças biológicas entre os sexos e o desenvolvimento de abordagens mais precisas na medicina personalizada.