Chimpanzés: pesquisa indica que gestos de afeto fortalecem a confiança e favorecem a cooperação entre os animais (Freepik)
Redatora
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 08h05.
Abraços, beijos e outros gestos de carinho podem desempenhar um papel muito mais antigo na evolução do que se imaginava. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Durham, no Reino Unido, mostra que chimpanzés e bonobos recorrem ao contato físico antes de situações de tensão para fortalecer vínculos, reduzir conflitos e aumentar a cooperação dentro do grupo.
Os resultados, publicados na revista científica Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, sugerem que esse comportamento pode ter surgido há pelo menos 6 a 7 milhões de anos, antes da separação evolutiva entre humanos, chimpanzés e bonobos.
Para investigar como os grandes símios lidam com momentos de tensão, os pesquisadores observaram 116 chimpanzés e bonobos distribuídos em cinco grupos que vivem em santuários na República Democrática do Congo e na Zâmbia.
Os animais eram filmados durante os cinco minutos que antecediam a oferta de alimento em um espaço compartilhado, uma situação criada para reproduzir a competição natural por recursos, como ocorre quando vários indivíduos disputam frutos em uma árvore.
Nesse período, os cientistas registraram comportamentos como abraços, beijos, toques, mãos dadas e outras formas de contato físico reconfortante. Depois, analisaram como esses gestos influenciavam a convivência durante a alimentação.
Os resultados mostraram que os indivíduos que mais trocavam contato físico antes da chegada da comida passavam mais tempo se alimentando juntos de forma pacífica.
Entre os bonobos, o efeito foi mais evidente nas interações entre fêmeas, que costumam formar alianças importantes dentro do grupo. Já entre os chimpanzés, o benefício apareceu principalmente nas relações entre machos, refletindo a organização social característica da espécie.
Os pesquisadores também observaram que os grupos considerados mais tolerantes apresentavam níveis mais elevados de contato reconfortante. Em alguns casos, vários indivíduos se abraçavam em sequência antes do momento de competição, formando o que a equipe apelidou de "trens de reconforto".
Uma das observações que mais chamou a atenção da equipe foi o comportamento dos chimpanzés. Conhecidos pela reputação de serem mais agressivos do que os bonobos, eles demonstraram níveis elevados de contato físico íntimo e, em alguns casos, chegaram a colocar dedos ou mãos dentro da boca de outro indivíduo — um comportamento considerado arriscado por exigir elevado grau de confiança.
Segundo os autores, esses gestos podem funcionar como sinais de vulnerabilidade e confiança entre animais que acreditam não sofrer agressão do companheiro. O comportamento foi registrado com maior frequência justamente nos grupos socialmente mais tolerantes.
Os pesquisadores afirmam que o estudo reforça a ideia de que o toque social é uma das formas mais antigas de comunicação entre primatas, tendo surgido muito antes da linguagem.
Na avaliação da equipe, muitos comportamentos humanos — como abraçar um colega, dar um tapinha no ombro ou formar uma roda antes de uma partida esportiva — podem representar versões modernas de um mecanismo evolutivo usado há milhões de anos para reduzir a tensão e fortalecer a cooperação.
Os autores pretendem agora investigar se esses gestos também reduzem os níveis de hormônios relacionados ao estresse e se o efeito se repete em outros contextos de competição e conflito social.