Ciência

Efeito zumbi? Pepino-do-mar desafia a ciência com tecidos 'imortais'

Fragmentos do animal sobreviveram por anos após amputação e podem ajudar a entender regeneração e envelhecimento

Pepino-do-mar: cientistas descobriram tecidos capazes de sobreviver sem o organismo original (Sara Jobson/Laboratório Mercier, MUN)

Pepino-do-mar: cientistas descobriram tecidos capazes de sobreviver sem o organismo original (Sara Jobson/Laboratório Mercier, MUN)

Publicado em 30 de maio de 2026 às 08h50.

Fragmentos amputados de um pepino-do-mar do Atlântico Norte sobreviveram por mais de três anos após serem separados do corpo, continuando a crescer, cicatrizar feridas e absorver nutrientes. A descoberta, descrita em um estudo publicado na revista Science Advances, levou cientistas a investigar um possível caso de "imortalidade tecidual" na natureza.

A pesquisa foi liderada por Sara Jobson, da Universidade Memorial de Terra Nova e Labrador, no Canadá. Os resultados chamaram atenção, uma vez que os tecidos não apenas resistiram à degradação, mas continuaram funcionando de forma independente, sem se transformar em novos indivíduos completos.

Tecido que se recusa a morrer

A espécie estudada foi a Psolus fabricii, um pepino-do-mar encontrado no Oceano Atlântico Norte. A descoberta aconteceu por acaso, quando pesquisadores perceberam que alguns pés ambulacrários que haviam ficado presos ao vidro de um aquário permaneciam vivos semanas e até meses após a separação do animal.

Intrigada, a equipe decidiu investigar o fenômeno em laboratório. Fragmentos de diferentes partes do corpo foram removidos de forma controlada e mantidos em água do mar natural.

Os resultados surpreenderam os cientistas. Os tecidos continuaram se regenerando, cicatrizando feridas, produzindo novas células e absorvendo aminoácidos presentes na água, mesmo sem possuir boca ou sistema digestório.

Entre a vida e a morte

Segundo os pesquisadores, os fragmentos não se desenvolveram em novos organismos completos, mas também não apresentaram sinais de degradação.

Os tecidos continuaram respondendo ao toque, mantiveram atividade imunológica e permaneceram funcionais por mais de três anos. Durante todo esse período, os cientistas não observaram sinais de necrose ou morte celular significativa.

Por causa desse comportamento incomum, a equipe passou a chamar os fragmentos de "zumbis", uma referência ao fato de parecerem existir em uma condição intermediária entre a vida e a morte.

Um fenômeno sem precedentes

Os pesquisadores afirmam que este pode ser o primeiro caso conhecido de "imortalidade tecidual" observado em condições naturais.

Animais como lagartos conseguem regenerar partes do corpo perdidas, mas os tecidos amputados normalmente morrem rapidamente. No caso do pepino-do-mar, aconteceu o oposto: os fragmentos sobreviveram por conta própria durante anos.

Especialistas que não participaram da pesquisa consideram a descoberta inédita. Segundo eles, os resultados desafiam a ideia tradicional de que tecidos isolados dependem completamente do organismo para permanecer vivos.

Mais surpreendente ainda é o fato de os fragmentos terem sobrevivido em água do mar não tratada, um ambiente repleto de bactérias e microrganismos que normalmente acelerariam a degradação dos tecidos.

O que a descoberta pode revelar?

Os autores acreditam que o fenômeno pode ajudar a compreender processos biológicos relacionados à regeneração, cicatrização, manutenção dos tecidos e envelhecimento.

A equipe também pretende investigar se as células desses fragmentos apresentam sinais de envelhecimento genético ao longo do tempo. Essa análise poderá indicar se os tecidos são realmente capazes de escapar dos processos normalmente associados ao envelhecimento celular.

Além das aplicações na biologia básica, os pesquisadores sugerem que esse tipo de tecido pode se tornar uma ferramenta útil para estudos biomédicos e pesquisas sobre os impactos das mudanças ambientais nos oceanos.

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