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Manguezais da Amazônia podem armazenar até três vezes mais carbono que florestas

Pesquisas do projeto Mangues da Amazônia reforçam o papel do chamado “carbono azul” na mitigação das mudanças climáticas

A lógica é transformar a conservação do ecossistema em fonte de renda por serviços ambientais

A lógica é transformar a conservação do ecossistema em fonte de renda por serviços ambientais

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 28 de maio de 2026 às 07h59.

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A maior faixa contínua de manguezais do planeta está no Brasil — e pode ser uma das peças mais importantes, e menos conhecidas, da agenda climática nacional.

Ao longo de mais de 8 mil quilômetros da costa amazônica, esse ecossistema costeiro guarda grandes volumes de carbono no solo e na vegetação. É o chamado carbono azul, nome dado ao carbono armazenado em oceanos e ambientes costeiros, como manguezais, marismas e pradarias marinhas.

Na Amazônia, esse estoque chama atenção pela escala. Segundo estimativas científicas do projeto Mangues da Amazônia, os manguezais da região podem concentrar, por área, até três vezes mais carbono que florestas de terra firme.

O dado ajuda a explicar por que pesquisadores defendem que a conservação dos manguezais entre de forma mais central nas políticas climáticas do país. Se preservados, eles funcionam como sumidouros de carbono. Quando degradados, porém, passam a liberar parte desse estoque para a atmosfera.

Dados levantados pelo projeto indicam que manguezais degradados, com corte recente de árvores, emitem cerca de cinco vezes mais carbono que áreas conservadas. O volume liberado equivale a cerca de 20% do carbono armazenado nas árvores e no solo. Em manguezais conservados da Amazônia, esse estoque é estimado em 141 toneladas de carbono por hectare.

“A importância é salvaguardar um dos mais valiosos sumidouros de carbono do planeta, diante dos desafios climáticos globais”, afirma Marcus Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezal da Universidade Federal do Pará e do projeto Mangues da Amazônia.

Manguezais degradados, com corte recente de árvores, emitem cerca de cinco vezes mais carbono que áreas conservadas (Divulgação/Mangues da Amazônia)

Restauração reduz emissões

Desde 2021, o projeto Mangues da Amazônia estuda o estoque e a emissão de carbono em áreas naturais, degradadas e reflorestadas no litoral do Pará. A iniciativa é conduzida pelo Laboratório de Ecologia de Manguezal, da UFPA, em parceria com o Instituto Sarambuí e o Instituto Peabiru, com patrocínio da Petrobras por meio do programa Petrobras Socioambiental.

As pesquisas são realizadas em Reservas Extrativistas Marinhas nos municípios de Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu. Ao todo, cerca de 15 mil pessoas são beneficiadas direta e indiretamente pelas ações do projeto. Nas áreas reflorestadas, as emissões correspondem a 4% do estoque de carbono originalmente armazenado nos manguezais conservados. Para os pesquisadores, o dado mostra que a restauração pode ajudar a recuperar parte da função climática desses ambientes.

“Quando degradamos o manguezal pelo corte de vegetação, a emissão de carbono é alta”, diz Mayara Vieira Rabelo, pesquisadora do LAMA e integrante do projeto.

As expedições de campo ocorrem a cada dois meses em quatro Reservas Extrativistas Marinhas do Pará: Tracuateua, Caeté-Taperaçu, Araí-Peroba e Gurupi-Piriá.

Créditos de carbono

Além do impacto ambiental, os dados podem ter desdobramentos econômicos. Segundo Fernandes, medições mais precisas sobre estoque e emissão de carbono podem apoiar o desenvolvimento de projetos de créditos de carbono em áreas de manguezais amazônicos.

A lógica é transformar a conservação do ecossistema em fonte de renda por serviços ambientais, especialmente para comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais da região.

Costa amazônia deve ser vista como ativo climático estratégico, segundo pesquisadores (Divulgação/Mangues da Amazônia)

“Chegamos a dados mais seguros para a tomada de decisões, inclusive como suporte ao desenvolvimento de oportunidades de créditos de carbono em áreas de manguezais na Amazônia”, afirma Fernandes.

O avanço das pesquisas também busca diferenciar a trajetória dos manguezais amazônicos da realidade observada em outras regiões do país, onde a pressão urbana, industrial e portuária levou a processos mais intensos de degradação.

Resultados em livro internacional

Parte dos resultados do projeto integra o livro "Amazonian Mangrove Blue Carbon Dynamics", lançado pela editora Springer Nature. A publicação reúne análises sobre captura, armazenamento e emissão de carbono nos manguezais amazônicos, com base em medições de campo e tecnologias aplicadas à região. A obra foi editada pelos pesquisadores Marcus E. B. Fernandes, Pedro W. M. e Souza-Filho e Christophe Proisy.

Para os autores, a costa amazônica deve ser vista como uma das maiores áreas úmidas florestadas do planeta — e como um ativo climático estratégico para o Brasil. A mensagem central das pesquisas é simples: preservar manguezais não é apenas proteger biodiversidade ou comunidades costeiras. É também evitar que um dos maiores estoques naturais de carbono do país vire emissão.

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