Ciência

Quem foi o primeiro 'chefe psicopata' da história? Estudo analisa líder de massacre

Comerciante holandês assumiu o poder após um naufrágio em 1629 e adotou estratégias de manipulação, intimidação e violência, segundo pesquisa

Massacre: cerca de 100 homens, mulheres e crianças foram mortos durante os acontecimentos que sucederam o naufrágio (Guy de la Bedoyere/Wikimedia Commons)

Massacre: cerca de 100 homens, mulheres e crianças foram mortos durante os acontecimentos que sucederam o naufrágio (Guy de la Bedoyere/Wikimedia Commons)

Publicado em 26 de outubro de 2026 às 16h10.

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Um comerciante holandês envolvido em um naufrágio há quase 400 anos pode representar um dos primeiros casos documentados de liderança psicopática no ambiente corporativo. A conclusão é de um estudo publicado em setembro na revista científica Asian Journal of Business Ethics.

A pesquisa, conduzida por Clive Boddy, da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, analisou o comportamento de Jeronimus Cornelisz, funcionário da Companhia Holandesa das Índias Orientais que assumiu o comando de sobreviventes após o naufrágio do navio Batavia, em 1629.

Segundo o estudo, Cornelisz utilizou estratégias de manipulação, intimidação e violência para consolidar o poder. Durante o período, cerca de 100 homens, mulheres e crianças foram assassinados.

A análise utiliza critérios modernos de psicopatia corporativa para interpretar registros históricos, mas não constitui um diagnóstico clínico.

Quem foi Jeronimus Cornelisz?

Jeronimus Cornelisz era um comerciante que trabalhava para a Companhia Holandesa das Índias Orientais, organização fundada em 1602 e considerada uma das primeiras grandes empresas multinacionais.

Em 1629, Cornelisz estava a bordo do Batavia, embarcação que naufragou próximo à costa da Austrália Ocidental. Cerca de 200 sobreviventes ficaram isolados em um conjunto de ilhas, onde precisavam encontrar água potável, alimentos e abrigo enquanto aguardavam socorro.

Os oficiais superiores partiram em busca de ajuda, navegando até a região da atual Jacarta, na Indonésia. Com a ausência dos comandantes, Cornelisz passou a ocupar a posição hierárquica mais elevada entre os sobreviventes que permaneceram nas ilhas.

Como Cornelisz tomou o poder após o naufrágio?

De acordo com a pesquisa, Cornelisz reorganizou a estrutura de liderança formada após o naufrágio para ampliar sua autoridade. Entre as medidas identificadas estavam a substituição de integrantes do conselho de sobreviventes por aliados e a exigência de juramentos pessoais de fidelidade.

O comerciante também teria isolado possíveis opositores e criado divisões entre os integrantes do grupo. A violência foi justificada pela necessidade de preservar os estoques de água e alimentos, considerados insuficientes para todos.

Entretanto, a interpretação apresentada no estudo indica que os assassinatos também serviram para eliminar pessoas consideradas ameaças à autoridade de Cornelisz. Ao todo, aproximadamente 100 sobreviventes foram mortos durante o período de domínio do comerciante.

Os comportamentos associados à psicopatia corporativa

Para investigar o caso, Boddy utilizou uma estrutura de análise desenvolvida para identificar características de psicopatia corporativa.

O pesquisador comparou os relatos históricos sobre Cornelisz com padrões de comportamento associados a lideranças tóxicas em organizações modernas.

Entre as características identificadas estavam:

  • Uso do charme para conquistar confiança.
  • Formação de um grupo de apoiadores leais.
  • Eliminação de possíveis adversários.
  • Criação de conflitos entre integrantes do grupo.
  • Uso do medo para manter o controle.
  • Busca por poder e riqueza acima dos interesses coletivos.

Segundo a pesquisa, a combinação desses comportamentos corresponde a características utilizadas atualmente para estudar lideranças corporativas prejudiciais.

O estudo, porém, não permite afirmar que Cornelisz tivesse psicopatia como condição clínica, já que a avaliação foi realizada retrospectivamente, com base em documentos históricos.

O que aconteceu com os outros sobreviventes do naufrágio?

Enquanto Cornelisz controlava parte dos sobreviventes, outro grupo estava isolado em uma ilha diferente, sob a liderança de Wiebbe Hayes. Nesse local, os integrantes buscaram alternativas para garantir a sobrevivência e encontraram dois poços de água doce.

O grupo também identificou fontes de alimento, incluindo ovos de aves marinhas, peixes, cangurus e focas. A descoberta é utilizada no estudo para comparar as estratégias adotadas pelos dois líderes.

Enquanto Cornelisz recorreu à violência para consolidar sua autoridade, Hayes organizou a busca por recursos para sustentar o grupo. Segundo Boddy, o contraste ajuda a investigar como diferentes formas de liderança podem surgir diante de uma mesma situação de crise.

O que o caso revela sobre os chefes atuais?

O estudo apresenta Cornelisz como um possível exemplo antigo de psicopatia corporativa, conceito utilizado para analisar comportamentos manipuladores e exploradores em posições de poder.

A pesquisa não afirma que Cornelisz tenha sido, comprovadamente, o primeiro líder com essas características na história. A conclusão se refere à identificação de um caso documentado que pode ser interpretado a partir de critérios modernos.

Para Boddy, o episódio também oferece elementos para discutir a seleção de profissionais em cargos de liderança. O pesquisador defende que características relacionadas ao caráter, à ética e aos valores pessoais sejam consideradas na escolha de executivos e gestores, diante dos possíveis impactos de comportamentos manipuladores sobre outras pessoas.

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