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Bill Gates: cofundador da Microsoft acredita que países serão afetados de formas diferentes (Mike Lawrence/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 1 de outubro de 2026 às 11h14.
Última atualização em 1 de outubro de 2026 às 17h12.
Bill Gates afirma que os efeitos da IA sobre empregos chegarão em momentos diferentes aos países ricos, às economias de renda média e às mais pobres. Em entrevista a Ezra Klein, ele cita Brasil, China, Vietnã e Indonésia e defende distinguir suas condições. O empresário também propõe contribuições sobre trabalho automatizado, atividades reservadas a humanos e salvaguardas obrigatórias para modelos avançados.
Para Bill Gates, a inteligência artificial (IA) terá efeitos diferentes sobre os empregos de cada país. O Brasil, segundo ele, assim como China, Vietnã e Indonésia, integra um grupo de economias de renda média que precisa ser analisado separadamente dos países mais pobres.
Na avaliação do empresário, os efeitos sobre o trabalho chegarão primeiro aos países ricos, depois às economias de renda média e, eventualmente, às mais pobres. Ele não estabelece um prazo para essa sequência nem faz uma previsão específica para o Brasil.
"Existem países de renda média, como China, Brasil, Vietnã e Indonésia, onde as economias estão crescendo e a taxa de mortalidade infantil é, no máximo, três vezes menor que a dos Estados Unidos. Por outro lado, existem países de baixa renda onde 15 vezes mais crianças morrem antes dos 5 anos de idade, e não há médicos", disse Gates. "Você vive a vida inteira sem nunca encontrar um médico. Você tenta descobrir quais sementes plantar, sem nunca ter ninguém para te aconselhar sobre o que fazer", afirmou.
Em entrevista ao podcast The Ezra Klein Show, do The New York Times, publicada na terça-feira, 29, o cofundador da Microsoft argumentou também que tratar o Sul Global como um bloco uniforme esconde essas diferenças. Para ele, é preciso entender "as nuances".
“Tratar o Sul Global como uma coisa uniforme não permite entender como é viver ali”, disse Gates. "Precisamos, portanto, de um pouco mais de nuance. Em países de baixa renda, a IA será, em sua grande maioria, algo positivo e deve ser impulsionada o mais rapidamente possível", afirmou.
Gates afirmou também que "a IA é uma ferramenta para o bem, ajudando as pessoas que mais precisam, com problemas humanos muito básicos". Apesar disso, a visão dele não é tão otimista. O questionamento do bilionário é se haverá novas atividades suficientes para absorver os trabalhadores quando os sistemas também puderem executar tarefas que dependem de conhecimento e raciocínio.
"A cognição humana tornou-se o elemento escasso. É sempre uma questão de recursos escassos. Quando você substitui a cognição humana como o recurso escasso — na verdade, você a supera em termos de trabalhar 24 horas por dia, ler mais, conhecer todos os idiomas — não há escassez no que você esteja progredindo", afirmou.
Em meio aos comentários incessantes sobre o potencial da IA de extinguir a humanidade, Gates não acredita que a catástrofe é um destino inevitável. Ao comparar as restrições do cérebro humano com a capacidade dos computadores, afirmou que “a inteligência de silício não tem essas limitações”.
“O problema de controle é sério, mas o risco iminente não é o autoaperfeiçoamento recursivo. O risco iminente é que essas são as ferramentas mais poderosas de todos os tempos”, afirmou. O autoaperfeiçoamento recursivo é a possibilidade de um sistema melhorar suas próprias capacidades e usar esses avanços para continuar se aprimorando.
Segundo Gates, diferentemente de outras tecnologias perigosas, esses sistemas “não foram financiados por pesquisa e desenvolvimento governamentais, e o governo não é um comprador significativo desses produtos”. “Não é como foguetes ou armas nucleares”, diz.
Para ele, essa diferença ajuda a explicar por que os governos têm pouca compreensão dos perigos envolvidos. A preocupação imediata é que pessoas mal-intencionadas usem modelos avançados para provocar ataques cibernéticos ou biológicos antes que existam controles suficientes.
“Essa camada de supervisão é necessária com urgência”, afirma. Gates defende mecanismos para impedir usos capazes de paralisar economias ou matar milhões de pessoas. Também destaca a dificuldade de distinguir pesquisas legítimas sobre moléculas de aplicações destinadas a causar danos.
O empresário tem cobrado salvaguardas e monitoramento obrigatórios nos modelos, uma posição que também defendeu em alertas recentes. Na conversa com Klein, argumentou que esperar por grandes ataques para só então reagir permitiria que as capacidades da IA avançassem em direções perigosas. “Isso é um erro gigantesco”, afirma.
Gates ainda enxerga a possibilidade de uma era de abundância, com avanços capazes de reduzir os custos de saúde, alimentação e moradia. Mas condicionou esse cenário à manutenção do controle humano sobre os sistemas e à capacidade de limitar os danos durante a transição.
Na entrevista, ele apontou uma diferença de velocidade: descobertas precisam passar por testes, regulação e implantação para melhorar a vida das pessoas. Já as capacidades que permitem ataques cibernéticos e biológicos podem avançar antes que essas aplicações estejam disponíveis.
“As coisas boas, se não tivermos cuidado, chegam mais lentamente do que os riscos biológicos e cibernéticos”, afirmou Gates.
Ele cita o Brasil entre as economias de renda média e defende distinguir sua situação da dos países mais pobres ao discutir os efeitos da IA.
Não. Ele apresenta uma sequência geral entre grupos de países, sem estabelecer um prazo brasileiro.
Gates sugere contribuições sobre trabalho automatizado equivalentes às cobradas sobre trabalhadores e a preservação de determinadas atividades para humanos.
Porque considera que a tecnologia pode ajudar a atender necessidades de saúde, educação e agricultura, especialmente em comunidades com pouco acesso a esses serviços.