Cães hipoalergênicos: filhotes foram criados com edição genética para não produzir a proteína Can f 1 (The Crispr Journal)
Redatora
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 18h44.
Uma startup de biotecnologia dos Estados Unidos afirma ter criado os primeiros cães geneticamente editados para reduzir reações alérgicas em humanos. A Kindred Companion Sciences utilizou a técnica Crispr para modificar o DNA de dois beagles.
Os cães, chamados Alfie e Bailey, tiveram desativado o gene Can f 1, responsável pela produção de uma das principais proteínas associadas às alergias a cães. Conforme publicado na The Crispr Journal, a empresa afirma que nenhum dos animais apresentou vestígios detectáveis do alérgeno.
O anúncio, porém, ainda não significa que existam cães comprovadamente incapazes de provocar alergias. Especialistas destacados pelo New York Times apontam que são necessários mais dados para avaliar a eficácia da alteração genética e seus possíveis efeitos sobre a saúde dos animais.
A Kindred começou o trabalho utilizando células de cães em laboratório. Os pesquisadores aplicaram a tecnologia Crispr para desativar o Can f 1, gene que contém as instruções para a produção da proteína alergênica.
Depois da edição, os cientistas utilizaram uma técnica de clonagem para transferir o material genético modificado para embriões. Os organismos foram implantados em uma cadela usada como mãe de aluguel.
O procedimento resultou no nascimento de dois beagles geneticamente modificados. Atualmente, Alfie e Bailey têm quase dois anos.
A alergia a cães não é causada apenas diante dos pelos dos animais. Proteínas presentes na saliva, na pele e na urina podem desencadear reações no sistema imunológico de pessoas sensibilizadas. Entre os principais alérgenos caninos está o Can f 1. A proteína pode se espalhar pelo ambiente e entrar em contato com pessoas por diferentes vias.
Por isso, criar uma raça que solte pouco pelo não elimina necessariamente o risco de alergia. Mesmo cães classificados comercialmente como “hipoalergênicos” podem produzir proteínas capazes de provocar sintomas. A estratégia da Kindred tenta agir diretamente sobre uma dessas proteínas, em vez de alterar apenas características externas do animal.
De acordo com a startup, análises realizadas nos dois beagles não detectaram a proteína Can f 1. O cofundador e CEO da empresa, Matt Walker, também afirmou não ter apresentado reações alérgicas ao conviver com Bailey.
O executivo é alérgico a cães e adotou um dos animais. O outro beagle foi adotado por um funcionário da empresa.
Apesar desses resultados iniciais, um número tão pequeno de animais não permite determinar se a alteração funciona de maneira consistente. Também não é possível concluir, a partir desses casos, que pessoas com diferentes tipos de alergia deixarão de apresentar sintomas.
Uma das principais dúvidas é se a alteração genética permanecerá segura ao longo da vida dos animais. Problemas que não aparecem nos primeiros anos podem surgir posteriormente.
Também existe a possibilidade de efeitos raros que só seriam identificados quando um número maior de cães fosse produzido e acompanhado.
Além disso, a edição de um único gene não necessariamente elimina todas as proteínas capazes de desencadear alergias. Por isso, especialistas consideram prematuro afirmar que os animais sejam completamente hipoalergênicos.
A criação de cães geneticamente modificados também envolve questões que vão além da eficácia da tecnologia. Pesquisadores de bem-estar animal questionam quais devem ser os limites para alterar geneticamente animais de companhia.
A preocupação ganha importância porque a reprodução seletiva já modificou profundamente diversas raças. Algumas características buscadas por criadores estão associadas a problemas de saúde, como dificuldades respiratórias e alterações musculoesqueléticas.
Para especialistas em ética animal citados pelo NYT, uma nova tecnologia não elimina a necessidade de avaliar os impactos dessas escolhas sobre os próprios cães. A edição genética poderia, em alguns casos, ser utilizada para corrigir alterações associadas a doenças. Mas modificar animais apenas para atender a preferências humanas exige uma avaliação diferente sobre benefícios, riscos e bem-estar.