Segurança Pública: alto número de mortes violentas coloca o estado no centro do debate sobre violência (Royalty-free/Getty Images)
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Publicado em 1 de outubro de 2026 às 11h00.
Salvador, Bahia — A segurança pública ganhou espaço na disputa pelo governo da Bahia em 2026, em meio aos índices de violência registrados no estado. Cinco das dez cidades mais violentas do Brasil estão em território baiano, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Diante desse cenário, Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil) apresentam estratégias distintas para enfrentar a criminalidade e reduzir as mortes violentas.
Segundo pesquisa Quaest, divulgada na última quinta-feira, 24, 40% dos eleitores afirmam que a violência é o principal problema do estado. Na segunda posição, aparece a saúde, com 34%.
Eunápolis, no extremo sul da Bahia, ocupa a segunda posição entre as cidades mais violentas do país, atrás apenas de Maranguape, no Ceará. Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro são os outros municípios baianos entre os dez primeiros do ranking. Entre as capitais, Salvador registra a maior taxa de violência.
A Bahia também permanece como o estado com o maior número absoluto de mortes violentas intencionais do país. Foram 5.473 registros em 2025, uma redução de 9,5% em relação aos 6.047 casos de 2024. Quando consideradas as taxas por 100 mil habitantes, o estado aparece entre os dez com maiores índices, em um recorte que mostra sete das dez unidades da federação mais violentas concentradas no Nordeste.
Os dados do anuário apontam ainda que a Bahia lidera nacionalmente as taxas de mortes decorrentes de intervenção policial. Porto Seguro registrou a maior taxa do país, com 32,3 mortes por 100 mil habitantes, seguida por Eunápolis, com 29,7. Simões Filho, Jequié, Lauro de Freitas e Luís Eduardo Magalhães também figuram entre as dez cidades com mais de 100 mil habitantes com as maiores taxas de letalidade policial.
Os indicadores de violência e letalidade policial ajudam a dimensionar o desafio colocado aos candidatos que disputam o governo baiano. Em meio ao debate sobre as estratégias adotadas pelo estado, segurança pública passou a ocupar espaço nas propostas apresentadas para a eleição de 2026.
A reportagem consultou os planos de governo e as campanhas dos dois principais candidatos para mapear as propostas para a segurança pública e as diferenças entre as estratégias apresentadas por cada candidatura.
No caso do candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT) defende a continuidade e a ampliação das políticas já em curso. Seu plano enfatiza o fortalecimento do programa "Bahia pela Paz", com integração entre ações policiais e políticas de garantia de direitos e cidadania, incluindo uma agenda de paz com equidade racial.
"Fortalecer e ampliar as ações do Programa Bahia pela Paz, articulando e integrando ações policiais com ações de garantia de direitos e cidadania... com vistas ao estabelecimento de uma agenda de paz com equidade racial", diz o plano de governo.
O governador também propõe o policiamento orientado pela inteligência, com o objetivo explícito de reduzir a letalidade policial e as mortes violentas no estado. Para o enfrentamento à violência contra a mulher, Jerônimo propõe a expansão da rede física de proteção, incluindo DEAMs, Centros de Referência (CRAMs) e a Casa da Mulher Brasileira.
Um diferencial de seu planejamento é a defesa da implementação de um programa específico para o enfrentamento à violência obstétrica, com protocolos de humanização do parto e reestruturação das casas de parto humanizado.
Por outro lado, ACM Neto (União Brasil) aposta em uma mudança estrutural na gestão da segurança. Sua principal proposta é a criação da "Governadoria da Segurança", um modelo que colocaria o próprio governador no comando direto da política de segurança pública. O chefe do Executivo estadual presidiria reuniões semanais de gestão por resultados, com metas públicas de redução de crimes e retomada de territórios dominados por facções criminosas.
"Segurança não é problema exclusivo da polícia. É responsabilidade direta do governador. Vou comandar pessoalmente essa política, com metas publicadas, cobrança por região, integração entre forças e presença territorial onde o Estado hoje não aparece", afirma o candidato no plano de governo.
Para combater a violência contra a mulher, Neto propõe o "Programa Volta por Cima", que oferece renda mensal de até 24 meses para mulheres com medida protetiva ativa, integrada a trilhas de qualificação e apoio jurídico. Há ainda o "Auxílio Recomeçar", com apoio financeiro temporário e cursos de qualificação para vítimas de violência, buscando romper a dependência econômica em relação ao agressor.
Na avaliação de Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado, organização que mapeia os índices de violência armada no Brasil, o avanço das organizações criminosas na Bahia também é responsável pela repercussão do tema na eleição.
Em entrevista à EXAME, a especialista destacou que um levantamento recente do Fogo Cruzado mostrou que 59% dos tiroteios registrados em Salvador entre 2023 e 2025 ocorreram em anos letivos, demonstrando que a violência vem interferindo cada vez mais na rotina dos baianos ao longo dos últimos anos. Além disso, para Couto, as políticas de segurança na Bahia precisam avançar para além do policiamento.
“A segurança pública ocupa espaço central no debate eleitoral deste ano na Bahia, mas a discussão precisa, além de incluir enfrentamento à criminalidade, considerar os impactos da violência armada sobre direitos básicos da população", afirma.
A diretora de dados do Instituto Fogo Cruzado diz que o avanço de grupos criminosos sobre estados como a Bahia, que são estratégicos para o tráfico de drogas, não será solucionado apenas com mais polícia e mais enfrentamento.
"Essa é a estratégia que a Bahia vem tentando há anos e que não resultou na redução da área dominada por esses grupos”, afirma.
Couto também ressaltou a importância da amplitude nas propostas dos candidatos ao governo da Bahia para a segurança pública. Em sua avaliação, investimentos na prevenção do embate armado no estado devem ser prioritários para o bem-estar da população.
“Os dados reforçam a importância de que as propostas apresentadas pelos candidatos contemplem prevenção, inteligência, planejamento e mecanismos de controle da atuação policial, além de medidas capazes de garantir o direito de crianças e adolescentes de frequentarem a escola com segurança", afirma.
Segundo a especialista, respostas como apenas aumento do policiamento e repressão não vão resolver o problema no longo prazo.
"As propostas apresentadas pelos candidatos ao governo estadual deveriam contemplar não apenas policiamento e repressão, mas também prevenção, inteligência, planejamento, controle da atuação policial e medidas capazes de garantir direitos como educação, circulação e segurança”, diz.
Os dados do governo estadual apontam na direção oposta dos números levantados pelo Anuário. Em levantamento consultado pela EXAME, realizado pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia, os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) caíram 13,1% em 2025, passando de 4.472 para 3.887 vítimas.
De acordo com a pasta, a taxa de incidência recuou de 30,1 para 26,1 por 100 mil habitantes. Em Salvador, a redução foi de 22,7%, com 708 ocorrências contra 916 no ano anterior. Setenta e três municípios não registraram nenhuma morte violenta em 2025, segundo a SSP-BA.
O governo também destaca os investimentos na área. O governo baiano afirma ter investido R$ 7,63 bilhões em segurança pública ao longo de 2025, um crescimento de 44,5% desde 2021, acima da média nacional de 27,2%. O estado teve o sétimo maior aumento dos recursos destinados à segurança no período entre as unidades da federação.