Repórter
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 10h39.
Durante décadas, a observação de planetas fora do Sistema Solar dependeu principalmente da análise da forma como esses corpos interagem com a luz. Uma nova pesquisa ampliou essa abordagem ao registrar sinais de rádio associados diretamente a um exoplaneta localizado a 63,4 anos-luz da Terra, criando uma nova alternativa para investigar as características de mundos distantes.
O objeto observado é o Beta Pictoris b, um gigante gasoso identificado em 2008. A detecção foi realizada por pesquisadores do Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian e da Universidade de Oregon, que utilizaram o radiotelescópio sul-africano MeerKAT para analisar o sistema.
O estudo se diferencia porque a equipe conseguiu relacionar a emissão de rádio ao planeta, e não apenas à estrela que faz parte do mesmo sistema. Segundo os pesquisadores citados pela fonte, nenhuma observação anterior havia identificado de forma inequívoca uma emissão de rádio auroral originada em um exoplaneta.
As observações foram realizadas em quatro campanhas entre 2025 e 2026. Nesse período, os pesquisadores registraram pequenas rajadas de rádio e uma emissão contínua em frequências que variam de 0,85 a 3,5 GHz.
Os sinais apresentaram polarização circular, característica que permitiu analisar sua origem. Para determinar a posição exata da fonte, os astrônomos utilizaram quasares como pontos de referência e separaram a emissão associada ao planeta daquela gerada pela estrela do sistema.
A equipe relacionou os sinais ao processo conhecido como electron cyclotron maser instability, ou ECMI, um mecanismo que produz emissões de rádio associadas a auroras e campos magnéticos planetários. O fenômeno também é observado em alguns corpos do Sistema Solar.
A identificação da origem da emissão permitiu estimar a intensidade do campo magnético de Beta Pictoris b. Conforme o estudo citado na reportagem, o campo magnético do planeta seria milhares de vezes mais forte que o terrestre, resultado compatível com modelos teóricos de gigantes gasosos jovens e de grande massa.
Beta Pictoris b tem cerca de 10 vezes a massa de Júpiter e apresenta uma rotação elevada. Os cálculos feitos a partir das observações indicam que o planeta completa uma rotação em aproximadamente oito ou nove horas.
A velocidade de rotação pode estar relacionada à intensidade da atividade auroral detectada. De acordo com os pesquisadores, a combinação entre a massa elevada do planeta e sua rápida rotação contribui para a geração de emissões de rádio mais intensas.
O estudo também abre caminho para novas análises. A equipe identificou sete outros gigantes gasosos semelhantes em cinco sistemas próximos que podem ser observados com a mesma metodologia.
Com a evolução de radiotelescópios que podem alcançar sensibilidades entre cinco e sete vezes superiores às atuais, os astrônomos esperam ampliar a busca por sinais semelhantes em outros exoplanetas. A radioastronomia, área que utiliza ondas de rádio para estudar objetos celestes, pode complementar observações realizadas em luz visível e infravermelha.
A emissão de rádio permite investigar características que vão além da identificação de um planeta. A análise desses sinais ajuda no estudo de magnetosferas, atividade auroral e processos internos relacionados à evolução de gigantes gasosos.
Com isso, Beta Pictoris b passa a ser utilizado como um modelo natural para pesquisas a dezenas de anos-luz da Terra. A técnica aplicada no estudo possibilita observar propriedades que dificilmente seriam identificadas apenas pela luz refletida ou emitida pelo planeta.
O resultado amplia as possibilidades de pesquisa em exoplanetas. Ao combinar diferentes faixas do espectro eletromagnético, os cientistas podem reunir informações complementares sobre mundos que permanecem fora do alcance de missões espaciais.