Marte: pesquisadores simularam os efeitos da gravidade do planeta sobre a circulação após astronautas retornarem à Terra (Getty Images)
Redatora
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 09h00.
O coração humano pode se adaptar a longos períodos no espaço e suportar condições semelhantes às encontradas em Marte, segundo um estudo que acompanhou 13 astronautas durante missões na Estação Espacial Internacional (ISS).
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Northwestern e de outras instituições dos Estados Unidos, analisou o funcionamento cardíaco após aproximadamente seis meses em ambiente de microgravidade.
Publicado na revista científica Circulation, o estudo identificou alterações iniciais na capacidade do coração de bombear sangue, seguidas por uma recuperação gradual ao longo das missões.
Os resultados também indicam que a prática regular de exercícios pode ajudar a preservar a função cardiovascular durante viagens espaciais prolongadas.
Na Terra, o coração precisa bombear sangue contra a ação da gravidade. No espaço, essa exigência diminui, provocando mudanças na circulação e no funcionamento cardíaco.
Para acompanhar essas alterações, os pesquisadores realizaram ecocardiogramas antes, durante e depois das missões. Os exames utilizam ultrassom para avaliar a estrutura do coração e sua capacidade de bombear sangue.
Nas primeiras duas semanas no espaço, os cientistas observaram uma redução no enchimento cardíaco e no volume de sangue bombeado a cada batimento. Com o passar dos meses, porém, essas medidas melhoraram gradualmente e se aproximaram dos valores registrados antes das viagens.
Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que o sistema cardiovascular consegue se adaptar à microgravidade prolongada.Durante a permanência na Estação Espacial Internacional, os astronautas participaram do programa de exercícios da Nasa, com atividades que podiam chegar a duas horas por dia. A rotina incluía de 30 a 45 minutos de exercícios aeróbicos e de 60 a 75 minutos de treinamento de força.
As atividades são utilizadas para reduzir a perda de massa muscular e preservar o condicionamento cardiovascular, já que o corpo enfrenta menor resistência física em ambiente de microgravidade.
De acordo com James Thomas, professor de cardiologia da Universidade Northwestern e autor sênior do estudo, o exercício é fundamental para combater os efeitos da ausência de peso.
Embora os resultados indiquem uma adaptação favorável, o estudo observacional não permite determinar isoladamente quanto dessa recuperação ocorreu devido aos exercícios.
Após o retorno à Terra, os pesquisadores avaliaram como o coração dos astronautas reagiria a condições semelhantes às de Marte, cuja gravidade corresponde a aproximadamente 38% da gravidade terrestre.
Para isso, os participantes foram posicionados com o corpo inclinado 22 graus acima da posição horizontal. A inclinação provocou um deslocamento do sangue em direção à parte inferior do corpo, reproduzindo parte dos efeitos da gravidade marciana sobre a circulação.
Os resultados mostraram que, após seis meses no espaço, os astronautas apresentaram desempenho cardiovascular durante o teste semelhante ao observado quando estavam em pé na Terra antes das missões.
Segundo Thomas, os dados oferecem evidências de que astronautas podem conseguir chegar a Marte e realizar atividades na superfície sem grandes dificuldades cardiovasculares decorrentes dessa transição.
Uma das preocupações das agências espaciais é a capacidade dos astronautas de trabalhar após meses em microgravidade. A mudança repentina para um ambiente com gravidade pode provocar hipotensão ortostática, condição caracterizada pela queda da pressão arterial ao assumir uma posição vertical, causando tontura ou sensação de desmaio.
O novo estudo indica que o sistema cardiovascular pode apresentar uma adaptação mais favorável do que as alterações observadas nas primeiras semanas de voo sugeriam.
Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que os resultados foram obtidos com apenas 13 astronautas e em condições simuladas. O experimento não reproduziu todos os desafios de uma viagem a Marte, como a duração completa do trajeto, a exposição à radiação espacial e as exigências físicas de uma missão na superfície.
Por isso, os dados contribuem para o planejamento de futuras missões tripuladas, mas ainda não comprovam que uma viagem a Marte seja segura para o sistema cardiovascular.