Ciência

Ciclones consecutivos podem dobrar perda de gelo marinho no Ártico, diz estudo

Análise de dados entre 1979 e 2024 mostra que tempestades sucessivas prolongam os danos e dificultam a recuperação do gelo marinho

Ártico: estudo analisou como sequências de tempestades afetam a cobertura de gelo marinho da região (Unsplash)

Ártico: estudo analisou como sequências de tempestades afetam a cobertura de gelo marinho da região (Unsplash)

Publicado em 19 de setembro de 2026 às 04h29.

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Uma sequência de tempestades no Ártico pode causar cerca do dobro da perda de gelo marinho provocada por um ciclone isolado. O efeito também permanece por aproximadamente duas vezes e meia mais tempo, segundo uma análise de décadas de observações.

Os resultados fazem parte de um estudo liderado pelo Instituto Alfred Wegener, Centro Helmholtz para Pesquisa Polar e Marinha (AWI), publicado na revista Nature Communications. Os pesquisadores analisaram registros meteorológicos e observações de satélite entre 1979 e 2024.

O trabalho investigou o chamado agrupamento de ciclones, fenômeno caracterizado pela passagem de vários sistemas de baixa pressão pela mesma região em rápida sucessão.

Em vez de o tempo se estabilizar depois de uma tempestade, outra chega pouco depois. A sequência prolonga as condições severas e reduz o tempo disponível para a recuperação do gelo.

Ciclones consecutivos dobram impacto sobre o gelo

Os pesquisadores identificaram, em média, 2,5 ciclones em cada agrupamento. O impacto, porém, varia dependendo da região do Ártico. Em algumas áreas, essas sequências aumentaram os efeitos sobre o gelo marinho em cerca de 1,5 vez. Em outras, chegaram a produzir um impacto até sete vezes maior.

Considerando todo o Ártico, os agrupamentos reduziram a cobertura de gelo aproximadamente duas vezes mais do que sistemas de baixa pressão convencionais e isolados. Os efeitos também permaneceram por cerca de duas vezes e meia mais tempo.

Isso acontece porque a chegada sucessiva das tempestades dificulta a recuperação do gelo entre um evento e outro, permitindo que os impactos se acumulem.

Como as tempestades destroem o gelo do Ártico

Os ciclones podem afetar a cobertura congelada de diferentes maneiras. Os ventos fortes quebram o gelo, movimentam os blocos e fazem com que eles colidam.

Durante o auge do inverno, as aberturas criadas normalmente voltariam a congelar em poucos dias. Quando outro ciclone chega rapidamente, porém, as condições turbulentas podem impedir que isso aconteça no mesmo ritmo.

Na época mais quente do ano, o mecanismo é diferente. Embora as tempestades tendam a ser menos intensas, os ventos podem empurrar placas de gelo para o norte e comprimi-las contra outras, diminuindo a área total coberta.

Os ciclones também transportam ar mais quente para a região, favorecendo o derretimento na superfície. Além disso, podem trazer água relativamente quente das camadas mais profundas do oceano para mais perto da superfície.

Nas últimas duas décadas, esses eventos contribuíram para a perda de gelo, principalmente perto do fim da temporada anual de derretimento.

Gelo mais fino pode aumentar os danos

A análise também identificou um aumento da perda de gelo associada aos agrupamentos de ciclones nas últimas décadas. Uma possível explicação está nas próprias mudanças da cobertura do Ártico. Com o aumento das temperaturas globais, o gelo está se tornando mais fino e móvel, o que reduz sua resistência às forças provocadas pelas tempestades.

Os cientistas investigam a possibilidade de esse processo gerar um ciclo de retroalimentação positiva. Quanto mais frágil fica a cobertura, maior pode ser o impacto dos ciclones consecutivos. A redução da extensão congelada, por sua vez, pode enfraquecê-la ainda mais.

A equipe agora utiliza projeções climáticas para avaliar se a intensificação observada nas últimas décadas poderá continuar no futuro.

Perda de gelo também pode deixar litoral mais vulnerável

As consequências podem alcançar as regiões costeiras. O gelo marinho funciona como uma barreira natural contra ondas fortes. À medida que essa proteção recua, comunidades do litoral ártico podem ficar mais expostas aos efeitos de tempestades severas.

Ao mesmo tempo, o degelo do permafrost, solo que permanece congelado por longos períodos, pode enfraquecer o litoral e aumentar sua vulnerabilidade à erosão.

Segundo os pesquisadores, compreender como os agrupamentos de ciclones se formam e afetam o gelo pode ajudar a aprimorar projeções sobre as futuras condições do Ártico e os riscos enfrentados pelas áreas costeiras.

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