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O El Niño vai derrubar a produção de soja do Brasil? Para este banco, não

Segundo os analistas, historicamente os episódios de El Niño costumam aumentar as chuvas na Região Sul, enquanto parte do Centro-Oeste e do Norte tende a enfrentar condições mais secas

Soja no Mato Grosso: Segundo o BTG, embora a produtividade tenha caído em alguns desses eventos mais intensos, a magnitude dos impactos foi bastante diferente entre eles. (Paulo Fridman/Corbis/Getty Images)

Soja no Mato Grosso: Segundo o BTG, embora a produtividade tenha caído em alguns desses eventos mais intensos, a magnitude dos impactos foi bastante diferente entre eles. (Paulo Fridman/Corbis/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 21 de julho de 2026 às 07h00.

A possibilidade de um episódio forte de El Niño na safra 2026/27 tem sido uma das principais preocupações de investidores do agronegócio. Mas a tese do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) é outra.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima 81% de probabilidade de um evento muito forte entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027, segundo análise divulgada em junho, e há projeções que apontam para um fenômeno “superforte”.

Enrtetanto, para o banco, ainda não há evidências suficientes para concluir que o fenômeno provocará uma quebra significativa na produção de soja no Brasil na atual temporada. 

Em relatório divulgado nesta segunda-feira, 20, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, defendem uma abordagem baseada em risco, e não em certezas, ao avaliar os impactos climáticos sobre a atual safra.

Segundo os analistas, historicamente os episódios de El Niño costumam aumentar as chuvas na Região Sul, enquanto parte do Centro-Oeste e do Norte tende a enfrentar condições mais secas, o que pode prejudicar a produtividade agrícola, especialmente nas áreas produtoras do Norte do país.

Ainda assim, eles ressaltam que o clima continua sendo uma das variáveis mais difíceis de prever.

"A produtividade da soja pode recuar em relação ao recorde do ano passado? Certamente. Mas temos evidências suficientes para afirmar, com confiança, que haverá uma safra muito mais fraca? Na verdade, não", dizem os analistas.

Para sustentar a avaliação, o relatório analisou as últimas 20 safras de Mato Grosso, maior estado produtor de soja do país. Nesse período, houve sete episódios de El Niño, sendo três classificados como fortes ou muito fortes.

Segundo o BTG, embora a produtividade tenha caído em alguns desses eventos mais intensos, a magnitude dos impactos foi bastante diferente entre eles.

Na safra 2009/10, por exemplo, também marcada por um El Niño forte, a produtividade da soja permaneceu praticamente estável. Já em alguns episódios mais moderados, os rendimentos chegaram a aumentar.

Para os analistas, esse histórico mostra que não é possível assumir automaticamente uma deterioração expressiva da próxima safra apenas com base na previsão climática.

"Neste momento, acreditamos que a abordagem mais prudente é incorporar algum conservadorismo às nossas estimativas, sem extrapolar para um cenário de pior caso", afirmam.

Agronegócio e El Niño

De olho nos possíveis efeitos sobre a safra brasileira de grãos 2026/27, iniciada em 1º de julho e cujas primeiras estimativas serão divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em setembro, empresas do agronegócio passaram a incorporar um cenário de El Niño mais intenso em seus planejamentos.

Em um setor fortemente dependente do clima, a perspectiva de um evento mais forte adiciona uma nova camada de incerteza em um momento de margens já pressionadas.

Na BrasilAgro, a possibilidade de ocorrência do fenômeno é tratada como um exercício de gestão de risco.

Segundo André Guillaumon, CEO da companhia, a estratégia é agir com cautela e começa pela análise dos eventos de 2015 e 2023 para entender como variáveis como chuvas, temperaturas e o início da estação chuvosa afetaram cada fazenda do grupo.

“Não é um ano para acelerar a abertura de áreas nem para ser mais agressivo na produção. Tudo indica que teremos um ambiente de maior volatilidade”, afirma.

Na SLC Agrícola, o El Niño de 2023/24 também deixou aprendizados. Em um país continental como o Brasil, os efeitos do fenômeno variam de região para região. Por isso, diz Aurélio Pavinato, CEO da companhia, a estratégia considera as particularidades de cada unidade produtiva.

“Se identificarmos áreas com maior risco climático, podemos ajustar o nível de investimento em insumos, preservando a rentabilidade”, diz o executivo.

No caso da SLC, o BTG já incorporou um cenário mais conservador às suas projeções, reduzindo ligeiramente as estimativas de produtividade para a safra 2026/27.

Apesar das preocupações, Minella Martins, engenheira agrônoma e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ressalta que cada episódio de El Niño tem características próprias.

O último evento forte, entre 2023 e 2024, provocou secas severas na Amazônia e enchentes históricas no Sul, com reflexos sobre a agricultura e o abastecimento. “Cada El Niño é muito particular. Não tem como afirmar que um El Niño forte terá os mesmos efeitos do anterior”, afirma.

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