Ciência

Asteroide que matou os dinossauros pode ter ajudado a criar vida na Terra

Estudo mostra que a cratera de Chicxulub manteve atividade hidrotermal por pelo menos 8 milhões de anos, quatro vezes mais do que se estimava até agora

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 9 de junho de 2026 às 11h24.

O mesmo impacto que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos criou, no fundo da cratera que ficou, um sistema hidrotermal ativo por pelo menos 8 milhões de anos — quatro vezes mais do que estimativas anteriores indicavam.

A descoberta, publicada neste mês na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, sugere que a cratera de Chicxulub pode ter funcionado como um dos maiores incubadores de vida do planeta.

O estudo foi conduzido por pesquisadores liderados por Annemarie E. Pickersgill, da Universidade de Glasgow, e combinou datação radioisotópica com simulações numéricas para estimar por quanto tempo água quente circulou nas rochas do anel central da cratera, localizada na Península de Yucatán, México.

A cratera como laboratório

Sistemas hidrotermais — ambientes onde calor e fluidos aquosos interagem — são considerados candidatos ao papel de berços da vida, tanto na Terra primitiva quanto em outros planetas.

Quanto mais tempo um sistema desses permanece ativo, maior a janela de oportunidade para que reações químicas prebióticas ocorram, micro-organismos se desenvolvam e se dispersem.

Chicxulub é a estrutura de impacto mais bem preservada da Terra com cerca de 200 km de diâmetro, formada há 66 milhões de anos.

Amostras de rocha foram obtidas por meio de perfurações do programa internacional IODP/ICDP Expedição 364, no sítio M0077A, que penetrou o anel de pico da cratera a uma profundidade de até 756 metros abaixo do fundo do mar.

Oito milhões de anos de calor

A equipe analisou quatro amostras de rocha de impacto fundida coletadas em três profundidades distintas.

A técnica utilizada foi a datação ⁴⁰Ar/³⁹Ar — que mede a razão entre isótopos de argônio para determinar quando minerais se formaram. As amostras produziram 22 idades que variam de 58,3 a 66,24 milhões de anos.

A diferença entre a idade do impacto — 66,052 milhões de anos — e a análise mais jovem resulta em 7,8 milhões de anos, arredondados para ~8 milhões de anos como estimativa mínima de duração do sistema hidrotermal. Estimativas anteriores, baseadas em simulações numéricas e registros paleomagnéticos, apontavam para no máximo 2 milhões de anos.

Simulações numéricas conduzidas com o programa HYDROTHERM do Serviço Geológico dos Estados Unidos corroboraram os dados.

O modelo que melhor se ajustou às medições de temperatura reais da cratera mostrou que o fluxo de água se tornou negligenciável somente após 8 milhões de anos — e que as temperaturas a 1 km de profundidade ainda estavam em 90°C após 5,5 milhões de anos do impacto.

O que os dinossauros deixaram para trás

A descoberta tem implicações que vão além da cratera mexicana.

Chicxulub é relativamente pequena em comparação com bacias de impacto encontradas em outros planetas e na Terra primitiva, que podem ter centenas ou milhares de quilômetros de diâmetro.

Se uma cratera de 200 km sustentou atividade hidrotermal por 8 milhões de anos, impactos maiores podem ter criado sistemas ainda mais duradouros — e, portanto, ambientes habitáveis por períodos ainda mais extensos.

Os autores ressaltam que os resultados representam uma estimativa mínima, e que análises em outras regiões da cratera podem revelar durações ainda maiores.

Dados não publicados de um testemunho de perfuração a cerca de 65 km do sítio principal sugerem que atividade hidrotermal pode ter persistido por até 16 milhões de anos em escala geográfica mais ampla — embora esse dado careça de confirmação.

O que o asteroide destruiu em questão de horas levou, segundo o estudo, dezenas de vezes mais tempo para esfriar do que a ciência supunha.

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