O fotógrafo paraense Rafael Pavarotti, que abre nesta sexta-feira sua primeira individual no Musée des Arts Décoratifs, em Paris (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 14h09.
Última atualização em 2 de outubro de 2026 às 14h10.
A louça colorida da avó, as mulheres fortes da família e a paisagem amazônica onde cresceu são apontadas pelo Musée des Arts Décoratifs como as principais fontes de inspiração de Rafael Pavarotti, fotógrafo nascido em Belém em 1993. A partir de hoje, 2, essas referências ocupam as salas do museu parisiense na mostra Rafael Pavarotti, photographer, que fica em cartaz até 2 de maio de 2027.
A exposição reúne mais de 200 imagens, entre capas de revistas de moda, retratos de nomes como Rihanna, Harry Styles e Beyoncé e campanhas criadas para grandes grifes. É a primeira vez que a instituição, instalada na ala Marsan do Palais du Louvre e independente do Musée du Louvre, dedica uma individual a um fotógrafo brasileiro. O projeto tem a H&M como principal patrocinadora e o apoio da Iguatemi.
Madonna envolta em véu lilás na capa de Confessions II, fotografada por Pavarotti (Divulgação)
Pavarotti cresceu em Icoaraci, distrito de Belém, e aprendeu a fotografar sozinho aos 12 anos, com a câmera emprestada do pai, registrando praias e prédios abandonados da região. A vontade de trabalhar com moda apareceu em 2004, quando assistiu a um vídeo do desfile de inspiração egípcia que John Galliano apresentou para a Dior. Aos 16 anos, deixou o Pará rumo ao Rio de Janeiro, onde morou no Vidigal, e depois passou por São Paulo e Londres antes de se fixar em Paris, segundo o museu.
A projeção internacional ganhou força em fevereiro de 2022, com a capa As the World Turns, da British Vogue, que reuniu nove modelos negras. Meses depois, ele fotografou Beyoncé para a edição britânica da revista que anunciou o álbum Renaissance.
Em 2020, já tinha aparecido entre os 50 jovens talentos homenageados no Fashion Awards, do British Fashion Council. Em abril deste ano, assinou a capa e o encarte de Confessions II, disco com que Madonna voltou a lançar um álbum de inéditas após sete anos.
O portfólio do fotógrafo de 33 anos inclui editoriais para Vogue, i-D, W, Dazed, Acne Paper e The New York Times, além de campanhas para Dior, Balmain, Maison Margiela, Ferragamo, Mugler e Off-White.
A curadoria é de Sébastien Quéquet, responsável pelas coleções fotográficas do MAD. Ele organizou os trabalhos por temas, misturando editoriais e campanhas comerciais, e reservou uma área própria para os retratos de celebridades. O percurso se espalha por cinco salas com cenografia em tons intensos e madeira, inspirada na vegetação da infância do fotógrafo. Quéquet também selecionou dez fotografias do acervo do museu para dialogar com as imagens de Pavarotti.
Entre os destaques estão as fotos da campanha de verão 2021 da Dior Homme, feita em parceria com o pintor ganês Amoako Boafo e primeira colaboração de Pavarotti com a grife, e o retrato de Anok Yai usando o vestido Douche, desenhado por Karl Lagerfeld para a Chloé em 1983, publicado na Vogue americana em maio de 2023. A modelo sul-sudanesa Adhel Bol, clicada para a W Magazine em 2021, também integra a seleção.
Para o curador, a convivência diária com a floresta deu ao fotógrafo uma percepção particular sobre luz, sombra, densidade e cor. Quéquet destaca ainda o hábito de Pavarotti de trabalhar com equipes formadas por pessoas racializadas. De ascendência afro-indígena, ele costuma ouvir memórias e ideias dos modelos antes de construir cada imagem e afirma produzir pensando nas próximas gerações, para que crianças de qualquer cor de pele consigam se reconhecer na moda.
O museu oferece visitas guiadas à mostra em seis idiomas, entre eles inglês, francês e espanhol, além de um programa voltado a estudantes de 11 a 18 anos, batizado de Unfiltered, que propõe discussões sobre inclusão e representação na moda.