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A matemática da Gullane para levar a produção de cinema do Brasil para o mundo

Prestes a completar 30 anos, produtora de 'Que Horas Ela Volta?' e 'Senna' debate nesta sexta-feira, 23, os bastidores do setor audiovisual na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo

Gullane: produtora completa 30 anos em 2026 e soma mais de 60 longas-metragens (Montagem EXAME/ Divulgação)

Gullane: produtora completa 30 anos em 2026 e soma mais de 60 longas-metragens (Montagem EXAME/ Divulgação)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 16h53.

Última atualização em 21 de outubro de 2026 às 14h58.

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RESUMO +

A produtora audiovisual Gullane completa 30 anos em 2026 com mais de 60 longas, 50 séries e 500 prêmios em festivais. Fundada por Caio e Fabiano Gullane, a empresa combina governança corporativa, coproduções internacionais e receitas em diferentes janelas; cresceu 23% ao ano, em média, na última década e soma mais de R$ 400 milhões em bilheteria.

 Pode parecer estranho à primeira vista, mas produzir um filme é muito parecido com construir um edifício. No mercado imobiliário, antes de a estrutura subir, é preciso encontrar o terreno, desenhar a planta, aprovar a engenharia financeira e coordenar a equipe. No cinema, a lógica é a mesma: o roteiro funciona como a planta, o orçamento define a engenharia e a filmagem entrega o protótipo. Uma obra única, sem produção em escala.

Na construção civil, o gerenciamento desse processo cabe à construtora. No audiovisual, como comparam os irmãos Caio e Fabiano Gullane, fundadores da Gullane, o papel é da produtora. É com essa visão corporativa, inclusive, que a empresa atua há 30 anos.

Já são mais de 60 longas-metragens, 50 séries e 500 prêmios em festivais pelo mundo — entre os produzidos, estão clássicos como Bicho de Sete Cabeças, Carandiru e Que Horas Ela Volta?, e sucessos de streaming como Sintonia e Senna, da Netflix.

"A gente entendeu muito rapidamente que o nosso negócio de produção audiovisual era um negócio como qualquer outro: tem que ter balanço, tem que ter consultoria, auditoria e governança", contam os irmãos em entrevista à Casual EXAME. "Fomos buscando conhecimento externo para olhar para a empresa com a mesma seriedade e profundidade que olhamos para os projetos artísticos. Foi assim que chegamos até aqui."

Texto alternativo (Alt Text): Caio Gullane, Débora Ivanov e Fabiano Gullane sorrindo juntos, lado a lado, em um evento.

Caio Gullane, a sócia Débora Ivanov e Fabiano Gullane durante painel sobre os 30 anos da Gullane. (Acervo pessoal/ Divulgação)

Equilíbrio entre negócio e arte

A principal diferença entre a construção de um prédio e a de um filme, explica Caio, está justamente na arte. Para ambos os irmãos, o maior desafio de manter uma produtora em 30 anos é encontrar o equilíbrio do orçamento e do respeito à arte — essenciais para a criação de um bom filme, série ou documentário.

"Já entendíamos muito bem o processo de fazer filme, o lado da arte envolvida. A administração foi o mais complexo, exigiu elaborar essa consciência e pedir ajuda externa. Fomos atrás de consultor de liderança, de processos, de tecnologia. Trouxemos conhecimentos que não eram da nossa formação cinematográfica para olhar para a empresa com a mesma seriedade e profundidade que olhamos para os projetos", comentou Fabiano.

Para estruturar o crescimento, a Gullane dividiu a operação em três frentes: projetos independentes com propriedades intelectuais próprias e leis de fomento, conteúdos originais em parceria com plataformas de streaming e uma divisão dedicada a documentários. "Hoje, a gente consegue ter uma visão muito objetiva de cada projeto: qual a carreira que ele pode ter, qual a previsão dele tanto de custo quanto de receita futura", diz Caio.

"É o tal do ponto de equilíbrio que falamos. Entender a trajetória nos ajuda a planejar o orçamento de cada novo filme, série ou documentário, e trabalhá-lo da melhor maneira possível, mesmo quando a produção acaba."

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A estratégia deu certo. Transformada em Sociedade Anônima (S.A.) desde 2008, a Gullane tem balanços auditados e taxa média de crescimento de 23% ao ano na última década. No cinema, os títulos da casa somam mais de R$ 400 milhões em bilheteria. No streaming, Senna registrou mais de 53 milhões de horas assistidas nos dez primeiros dias.

"A gente planeja o faturamento em várias janelas: cinema, VOD, TV fechada, TV aberta e mercado internacional. Se o resultado no cinema não for o esperado, o contrato com a televisão ou com a plataforma compensa o investimento", explica o executivo.

O alcance das coproduções internacionais

Cena de 'Que Horas Ela Volta?', filme produzido pela Gullane

Outro motor de escala da produtora foram as coproduções internacionais — modelo adotado em lançamentos recentes do cinema nacional, como Ainda Estou Aqui (Brasil e França) e O Agente Secreto (Brasil, França, Holanda e Alemanha).

"Sinto que a indústria está descobrindo a coprodução, o que é excelente para o audiovisual brasileiro. Essa é uma prática que a Gullane já faz há vários anos, e é uma estratégia muito forte para escalar projetos. São ajudas muito bem-vindas, e penso que também são o que o cinema é, de fato: uma atividade coletiva, que envolve muita gente. "Precisa envolver", acrescenta Caio.

Ao longo destes 30 anos, a Gullane soma 28 coproduções internacionais no portfólio. Projetos como Tabu e Plastic City reuniram, cada um, quatro territórios produtores diferentes. O histórico da empresa inclui ainda parcerias globais em títulos como Bicho de Sete Cabeças (Itália), Narradores de Javé (França), Terra Vermelha (Itália) e Chega de Saudade (Estados Unidos).

"Entendemos que a fonte internacional de recursos poderia compor o financiamento dos projetos e a exploração comercial das propriedades intelectuais lá fora. Além de ser uma maneira de tirar esses projetos do papel, isso acabou resultando em filmes sendo vendidos e exibidos no mundo todo", destaca Fabiano.

A associação com agentes de vendas internacionais como Wild Bunch, Memento e Playtime permitiu levar filmes como Que Horas Ela Volta? a mais de 70 países. "Esses filmes vendem, geram receita em moeda forte que volta para o Brasil e pagam os investidores. O audiovisual é economia criativa na veia", completa o produtor.

O que vem por aí?

Os bastidores de toda a trajetória da produtora ao topo do mercado audiovisual serão tema do painel gratuito Gullane, 30 anos: da Retomada à era do Streaming, parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Nesta sexta-feira, 23, ao lado de Débora Ivanov e com mediação da jornalista Ana Paula Souza, os fundadores debatem o que significa, na prática, produzir cinema no Brasil, em uma conversa voltada para dar um norte tanto a novos realizadores quanto a profissionais que enfrentam os desafios de viabilizar projetos no país.

De olho nos próximos passos e no ciclo comemorativo de três décadas (que se estende ao longo de 2027), a Gullane mantém uma cartela de lançamentos previstos para os próximos meses:

  • O Projeto, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic (19/11/2026)
  • Família de Sorte, de Viviane Ferreira (2027)
  • O Cobrador de Fraque, de Tomás Portella (29/04/2027)
  • Escola sem Muros, de Cao Hamburger (2027)
  • Colônia – 2ª temporada no Canal Brasil (2027)

'Perguntas frequentes'

Quem são os fundadores da Gullane? +

A Gullane foi fundada pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane. Em 30 anos, a produtora audiovisual realizou mais de 60 longas-metragens e 50 séries, além de conquistar 500 prêmios em festivais pelo mundo.

Como a Gullane equilibra arte e gestão empresarial? +

Caio e Fabiano Gullane afirmam que a produtora adotou balanços, auditoria, governança e consultorias de liderança, processos e tecnologia. Segundo os fundadores, o desafio central é conciliar o orçamento de cada projeto com o respeito à criação artística.

Qual foi o crescimento da Gullane na última década? +

A Gullane registrou taxa média de crescimento de 23% ao ano na última década. Transformada em Sociedade Anônima em 2008, a produtora mantém balanços auditados e seus filmes somam mais de R$ 400 milhões em bilheteria.

Como a Gullane ganha dinheiro com filmes e séries? +

A Gullane planeja as receitas em diferentes janelas, como cinema, VOD, TV fechada, TV aberta e mercado internacional, explica Caio Gullane. Segundo o executivo, contratos com emissoras ou plataformas podem compensar um resultado abaixo do esperado nas salas de cinema.

Qual é a importância das coproduções internacionais para a Gullane? +

As coproduções internacionais ajudam a financiar projetos, ampliar a exploração comercial das propriedades intelectuais e levar os filmes a outros mercados, segundo Fabiano Gullane. A produtora soma 28 coproduções internacionais, e Que Horas Ela Volta? chegou a mais de 70 países com apoio de agentes de vendas globais.

Quais são os próximos lançamentos da Gullane? +

A Gullane prevê lançar O Projeto em 19 de novembro de 2026 e O Cobrador de Fraque em 29 de abril de 2027. A programação também inclui Família de Sorte, Escola sem Muros e a segunda temporada de Colônia em 2027.

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