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O cigarro voltou à moda — e desta vez como acessório de luxo

De símbolo de emancipação feminina nos anos 1920 a elemento de estilo nas capas de revistas de 2026, o cigarro nunca saiu completamente do imaginário fashion — apenas se reinventou

Kates Moss: modelo foi uma das pessoas que tornou o cigarro em acessório nos 1990 (Toni Anne Barson/Getty Images)

Kates Moss: modelo foi uma das pessoas que tornou o cigarro em acessório nos 1990 (Toni Anne Barson/Getty Images)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 13 de maio de 2026 às 16h04.

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Nos últimos meses, diversas capas de revistas de luxo internacionais voltaram a colocar o cigarro em evidência. Não como provação ou transgressão — mas como acessório. O objeto que passou décadas sendo demonizado por campanhas de saúde pública reaparece agora cuidadosamente enquadrado, editorialmente posicionado, ao lado de it girls como Hailey Bieber e Kylie Jenner. Mas em que momento fumar voltou a ser cool? Ou será que nunca deixou de ser?

A construção da idealização do cigarro começa na década de 1920, quando fumar se tornou socialmente aceitável para mulheres. Os cigarros foram chamados de "tochas da liberdade" e passaram a simbolizar emancipação feminina. Coco Chanel era a figura central desse universo — não como gesto de rebeldia, mas como parte de sua identidade. Na era de Hollywood clássica, as femmes fatales transformaram o ato em performance: a fumaça envolvente e a forma de segurar o cigarro entre os dedos era sedutora e cinematográfica.

Nos anos 1990, o cigarro tornou-se indiferente. Kate Moss consolidou essa imagem no contexto do heroin chic, e o fotógrafo Mario Testino, dentro do universo de Karl Lagerfeld, ajudou a transformar o cigarro em símbolo de je ne sais quoi — sem glamour deliberado, apenas presente. Personagens como Carrie Bradshaw, de Sex and the City, reforçaram o cigarro como parte da identidade pessoal.

Agora, o cigarro retorna novamente como código de estilo. A L'Officiel sugere que celebridades não apenas fumam, mas usam o cigarro como atmosfera, como atitude, como camada adicional de glamour. É uma escolha guiada pela imagem mais do que pela dependência. Mary-Kate Olsen, Lily-Rose Depp, Dua Lipa e Bella Hadid compartilham estéticas distintas, mas têm o cigarro como denominador visual comum.

A indústria da beleza acompanhou discretamente essa mudança. A Guerlain lançou o perfume Tobacco Honey evocando calor e decadência; a maquiadora Mary Phillips viralizou com os chamados "Lip Ciggys"; e a Chanel Beauty transformou o smokey eye dourado em símbolo da despreocupação parisiense.

A leitura econômica também é relevante. O cigarro funciona como "luxo acessível", como um atalho visual para um universo normalmente inacessível, ao lado de um copo de papel cheio de matcha e de aulas de pilates em grupo. O cigarro cria a ilusão de pertencimento a um mundo exclusivo sem o custo real de entrada. Enquanto a alta moda tem barreiras altíssimas, mesmo para celebridades; o cigarro vira um acessório democrático.

Ainda que exista a consciência dos danos causados pelo tabaco, isso não o reduz. O perigo parece ter se tornado parte do mistério. Quando um cigarro aparece na capa de uma revista, raramente é interpretado de forma literal, mas ativa uma memória cultural profunda, o mesmo espírito rebelde mais de um século depois.

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