Fachadas haussmannianas de Paris, com as janelas mansardadas dos sótãos que abrigavam as chambres de bonne no último andar (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 06h20.
A origem das chambres de bonne remonta às reformas urbanas que Paris sofreu na segunda metade do século 19, quando o barão Haussmann reformulou boa parte da cidade com os prédios de fachada uniforme que hoje definem sua paisagem. As famílias abastadas que ocupavam os andares nobres desses edifícios precisavam alojar trabalhadores domésticos em algum lugar, e a solução foi reservar o sótão para eles, em cômodos minúsculos e sem conforto algum.
Com o declínio do trabalho doméstico residencial ao longo do século 20, esses espaços foram gradualmente alugados a outros públicos e viraram a alternativa de moradia mais acessível dentro dos bairros mais caros da capital francesa.
Hoje, segundo o Insee, o instituto francês de estatística, cerca de 55 mil pessoas vivem nesses cômodos na região parisiense. Um levantamento do Atelier Parisien d'Urbanisme (Apur), de 2011, mostrou que o perfil dos ocupantes vai muito além de estudantes recém-chegados à cidade: 20% tinham mais de 60 anos, entre aposentados e pessoas de baixa renda que não conseguiram migrar para um imóvel maior.
Telhados de zinco típicos da capital francesa, material que absorve calor e agrava as condições dentro dos cômodos durante as ondas de calor (Wikimedia Commons)
Cerca de três quartos das coberturas de Paris são feitas de zinco, técnica reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial pelo savoir-faire dos telhadores franceses. O material tem boa durabilidade e resistência, mas conduz calor com facilidade, o que se torna um problema em dias de temperatura extrema.
Um estudo do Apur de 2024 apontou que apartamentos no último andar sem proteção solar adequada podem registrar temperatura interna até 10°C mais alta que a externa. A situação piora pela orientação única de muitos desses cômodos, que impede ventilação cruzada durante a noite, e pela ausência quase total de isolamento térmico em construções projetadas há mais de cem anos.
A Agência Parisiense do Clima estima que o número de noites tropicais, aquelas em que a temperatura não cai abaixo de 20°C, deve subir de cerca de 5 por ano em 2010 para 18 por ano até 2050. Os dias com temperatura acima de 30°C devem passar de 14 para 22 no mesmo intervalo.
A onda de calor de 2003 na França, associada a cerca de 15 mil mortes, deixou um dos primeiros registros consistentes sobre o risco desses cômodos. Um relatório da agência francesa de saúde pública apurou que morar em uma chambre de bonne sob o telhado multiplicava por mais de quatro o risco de morte durante aquele episódio. Já um estudo publicado em 2023 na revista The Lancet Planetary Health, que comparou mortalidade ligada ao calor em capitais europeias, colocou Paris no topo do ranking entre as 30 cidades analisadas.
Mais recentemente, a agência de saúde pública francesa registrou cerca de 2.816 mortes em excesso durante três episódios de onda de calor no verão de 2022. Um estudo do Inserm em parceria com o ISGlobal, publicado na mesma época na revista Nature Medicine, estimou em cerca de 4.800 o total de mortes atribuídas ao calor no país naquele verão.
O aluguel de uma chambre de bonne varia hoje entre 400 e 900 euros por mês, o equivalente a cerca de R$ 2.370 a R$ 5.340 na cotação atual. Os cômodos costumam ter entre 9 e 15 m², quase sempre com banheiro compartilhado no corredor. Em bairros como o Marais, essa é uma fração baixa perto do valor do metro quadrado à venda na região, que pode ultrapassar 14 mil euros, cerca de R$ 83 mil.
A maior parte desses prédios tem fachada e cobertura protegidas por legislação de patrimônio histórico, o que restringe intervenções como isolamento térmico externo ou instalação de proteções solares visíveis da rua. Centros de pesquisa em reabilitação de edifícios antigos, como o vinculado à École des Ponts ParisTech, têm estudado alternativas para adaptar esses espaços sem alterar a aparência dos prédios que caracterizam o centro de Paris.