Vestido de paetês com efeito de cota de malha e cinto largo de couro no inverno 2026 da Ralph Lauren (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 27 de setembro de 2026 às 10h02.
As botas de camurça acima do joelho com fileiras de rebites metálicos que a Max Mara apresentou em Milão, em fevereiro, foram uma das primeiras pistas de uma referência que se repetiu ao longo da temporada de outono-inverno 2026. O diretor criativo Ian Griffiths escolheu como musa Matilde di Canossa, condessa do século 11 que governou vastos territórios na Itália a partir de seus castelos, comandou tropas e negociou com papas e príncipes.
Nas semanas seguintes, Nova York, Londres e Paris seguiram por caminho parecido. Ralph Lauren, a estilista alemã Marie Lueder, a Givenchy de Sarah Burton e a Louis Vuitton de Nicolas Ghesquière também trouxeram toucas, capuzes, golas de metal e chapéus de formato cônico associados ao período medieval, cada uma com sua própria leitura.
Capuz em malha e vestido com aplicações de camurça nos ombros na coleção da Max Mara inspirada em Matilde di Canossa (Divulgação)
A escolha da Max Mara tem relação direta com a história da marca. Matilde tinha raízes em Reggio Emilia, cidade onde a grife foi fundada e mantém sua sede, e a coleção chegou no ano em que a empresa completa 75 anos. As notas do desfile ainda apontavam a proximidade entre 1081, ano marcante na trajetória da condessa, e 1981, quando a Max Mara lançou o casaco 101801, desenhado pela estilista francesa Anne-Marie Beretta e até hoje um dos modelos mais conhecidos da casa.
Na passarela, as túnicas de pajem viraram vestidos em A e blusas amplas, os casacos ganharam aplicações de couro nos ombros e as saias longas apareceram em versões que iam da seda ao cashmere. Griffiths contou que se inspirou também numa visita a Sutton Hoo, sítio arqueológico anglo-saxão em Suffolk, na Inglaterra, perto de sua casa de fim de semana, onde ficou impressionado com os capacetes enferrujados em exposição. O estilista, que coleciona capitéis de pedra medievais de mais de 100 quilos, preferiu deixar para o público a interpretação sobre o motivo de olhar para a chamada Idade das Trevas neste momento.
Toucas de Stephen Jones feitas com camisetas de cetim torcidas, em branco e vermelho, no desfile da Givenchy (Divulgação)
Em Paris, Sarah Burton apresentou sua terceira coleção feminina para a Givenchy dentro de Les Invalides, o complexo onde Napoleão está enterrado desde 1840. A referência principal vinha dos antigos mestres da pintura do norte da Europa, e os acessórios mais comentados foram as toucas criadas pelo chapeleiro britânico Stephen Jones, que lembravam os wimples, véus que cobriam cabeça e pescoço de freiras e mulheres casadas. As peças foram feitas com camisetas de cetim torcidas em volta da cabeça e vinham acompanhadas de brincos de madeira em formato de aldrava, numa alusão ao quadro Moça com Brinco de Pérola, de Vermeer.
O trabalho levou Jones de volta à sede da Givenchy, na Avenue Montaigne, pela primeira vez em cerca de 30 anos, desde a época em que Alexander McQueen assumiu a direção criativa da casa. Burton também resgatou um jacquard amarelo dos arquivos da marca e a mesma renda de leopardo preta usada por McQueen em sua coleção de 1997.
Balaclava com franjas e bata com amarrações nas mangas e na gola na coleção Ghosts of My Life, de Marie Lueder (Divulgação)
Marie Lueder, que fundou sua marca em Londres em 2019, trabalha desde o início com a mistura de sportswear, alfaiataria e silhuetas medievais. O interesse vem da infância, quando frequentava um acampamento de verão medieval em Hamburgo e costurava fantasias com a mãe, e da formação em alfaiataria sob medida na Ópera Estatal de Hamburgo.
A coleção de inverno 2026, apresentada na plataforma NEWGEN da London Fashion Week, se chamou Ghosts of My Life, título do livro do teórico britânico Mark Fisher, e trouxe capuzes e balaclavas retrabalhadas que davam aos looks um ar de proteção medieval. A temporada marcou a estreia de ternos risca de giz na linha de pronta-entrega da marca, além de uma camuflagem em náilon desenvolvida com uma tecelagem italiana.
Colar de metal com tachas e corselete de couro com mangas de pelo remetem às armaduras no inverno 2026 da Louis Vuitton (Divulgação)
A Louis Vuitton encerrou a semana de moda de Paris na Cour Carrée do Louvre, com um cenário de montanhas verdes assinado por Jeremy Hindle, conhecido pelo trabalho na série Ruptura. Ghesquière partiu da região do Jura, ligada à origem da marca, e colocou na passarela um toucado cônico de inspiração medieval ao lado de chapéus de tricórnio em shearling e cestos de palha gigantes usados na cabeça.
Colares pesados de metal envolviam o pescoço das modelos, e a bolsa Noé, lançada em 1932, voltou em suas proporções originais, carregada na ponta de galhos de madeira como uma trouxa de viajante. Zendaya e Catherine Deneuve estavam na primeira fila.